“Na literatura
apocalíptica violência é condição sine qua non para a retribuição
cósmica. Em Apocalipse 17:16 temos uma cena bizarra, grotesca, anunciada por um
anjo emissário de Jesus a João de Patmos. Em linguagem figurada ele compara
Roma a Babilônia e depois a uma prostituta.
A cena descreve
uma mulher, Roma, sendo odiada por dez reinos, aliados políticos. Estes se
oporão à mulher; a desnudarão, a violentarão, comerão sua carne, e ainda a
queimarão viva. Numa cena em que Jesus, não apenas assente à barbárie, mas
parece ter prazer sádico.
Apesar de ser
um texto com alto teor metafórico, é notória a violência descrita numa
associação de violência sexual à destruição de Roma, como vingança por ter
perseguido os seguidores de Jesus e por ter destruído o templo e Jerusalém no
ano 70 E.C.
O ponto aqui é
mostrar que o Jesus de Paulo e de João de Patmos, não tem nenhum problema com
violência. Seja ela no campo da linguagem e nem no campo político.
A prostituta da
Babilônia é um xingamento, degradante à Roma. O ponto é a troca de cidades:
Roma sendo degradada e Jerusalém, a cidade de ouro, exaltada.
Dois conceitos
antagônicos aparecem aqui. Em Apocalipse não aparece nenhuma vez a palavra
amor, no entanto as palavras: ira, raiva, vingança e violência saturam. A ira
de Deus e do seu cordeiro.
Outra violência
contra uma figura feminina ocorre a uma mulher na igreja de Tiatira (Ap
2.20-24). Jesus fala em primeira pessoa, que porá a mulher chamada
pejorativamente de Jezabel numa cama, a assistirá ser violada, múltiplas vezes
e ainda ele, Jesus, matará os filhos dela.
Desastres
naturais, carnificina, conflitos militares, fome, seca extrema e torturas das
mais variadas sortes (até estupro). Ações derivadas a partir do comando de
Jesus, não parecem condizer com atos de amor, né? A palavra esperança também
nem aparece no livro de Apocalipse.
Para quem
estuda semiótica na linguística de corpus as palavras relacionadas a Deus e
Jesus em apocalipse são: vingança, retribuição, ira, raiva, sangue, espada. São
essas palavras que o autor do texto usa para falar dos personagens Deus e o
cordeiro-leão (Jesus).
Jesus não vem
para arrebatar seus seguidores, mas vem para destruir o mundo. Existe também um
outro conflito de interesses financeiro, de classe aqui: Roma é a maior
potência econômica da época e na mentalidade dos leitores de João de Patmos aquilo
era um ultraje.
Os romanos não
poderiam ter toda a riqueza e ouro que tinham. Esse ouro e riqueza era para ser
aos seguidores de Javé e de Jesus. O Jesus de Apocalipse não tem nenhum
problema com riqueza e nem com ouro. Ele só quer espoliar a Roma, para fazer
Jerusalém a nova potência rica.
Nem mesmo os
seguidores de Jesus escaparão da ira dele, apenas alguns que seguem a visão de
João de Patmos, entrarão na Yerushalaim Shel Zahav (Jerusalém Cidade de Ouro).
A sede imperial do “Reino de Deus” num contraponto à Roma Imperial. Ali, Jesus
é coroado Imperador.
Pode não ser
estranho o Jesus da machosfera. Afinal, ele está ali bem vivo no texto canônico
de Apocalipse.
Texto de
Wellington Barbosa via twitter
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