segunda-feira, 16 de julho de 2018

Sangue de barata



Olhei, olhei e não vi
a pessoa que no chão dormia.
andei, olhei e andei
mas compaixão não sentia.

Gastei, gastei tudo ali
onde a propaganda mandou.
Gastei, gastei, nem sofri
pelo que de fome chorou.

Neguei, neguei a visita
ao preso em sua solidão.
Andei e segui em minha vida
Longe de toda confusão.

Parei, parei de viver
preocupado com o que não me mata.
não vejo no outro o sofrer
porque tenho sangue de barata.

( Angela Natel - inspirado na leitura do livro 'Sangue de Barata', de Christian David - 15/02/2014)

domingo, 15 de julho de 2018

Lições



Aprendi a dar nome às minhas qualidades
Porque conheço de cor meus defeitos
Aprendi a encontrar complementaridade
Mesmo sem conhecer os sujeitos.

Não me prendo à falsa humildade
De ter pena de quem tem valor
Percebo a humanidade
Em cada linha, em cada cor.

Aprendo de dia a me olhar no espelho
E ver o que posso mudar adiante
De noite na cama eu me ajoelho
E graças eu dou por estar tão distante.

Não me sinto culpada pelas coisas que tenho
Pelo que desejo e ainda vou ter
Em repartir e dar me empenho
Relatório de tudo nunca vão ver.

Nem sempre estou certa quando me expresso
Nem sempre agrado no jeito de ser
Mesmo que um dia eu vire do avesso
Por certo a alguém vou sempre dever.

Por isso não busque em mim ser completo
Nem pense que posso te satisfazer
Sou poeta que vive de sonhos repleto
 Aluno que um dia também vai morrer.

Angela Natel – 02/02/2014

sábado, 14 de julho de 2018

O cara



Como vou saber se encontrei ‘o cara’?
Se encontrar alguém por quem meu coração dispara
Se encontrar um amigo que me completa por inteiro
Ou aquele que chega em mim primeiro?

Como saber se minha busca chegou ao fim
Se a vida é nova ao olhar prá mim
Se o caminho é cor que me ilumina
Se a palavra é doce e me anima?

Como ter certeza de que me completa
Se me deixa sempre uma porta aberta
Se aguenta o tranco em minha crise
Se vier ao meu auxilio sem que alguém avise?

Há algum sinal prá me avisar
Que encontrei aquele que vai me amar
Em carne, osso, alma e entendimento,
Que vai marcar minha vida e ser meu alimento?

Será que é pedir muito,
por demais a expectativa,
Que ninguém se habilite,
que não haja alternativa?

Ou será que o escolhido
deva somente ser
antes de ser um bom marido
aquele sem o qual eu não consiga viver?

Angela Natel – 24/01/2014

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Apologia



Eu só leio pelo espelho
De quem concorda comigo
Não aprendo, só releio
Nos braços de meu amigo.

A prostituta eu desrespeito
Porque não merece meu apoio
Ignoro o direito
De quem considero joio.

Só ouço a quem se parece
Com o que penso e o que sou
Quem fala a verdade, mas não merece
Não perca tempo com o seu show.

Não me interessa se tem razão
Se fala uma verdade
Julgo e rotulo, não abro mão
Não aprendo nem ouço com humildade.

Aliás, sou como deus
Determino o pecado mais perigoso
Se concordar eu abomino
O meu erro é pequeno, comparado aos seus.

Angela Natel – 18/01/2014

quinta-feira, 12 de julho de 2018

O Conto da Aia: Um manual para entender o fascismo


Por A Rosa

O livro “O Conto da Aia” (“The Handmaid’s Tale”, no original) de 1985 foi escrito por Margaret Atwood e adaptado para o cinema na década de 90. Recentemente, tornou-se o centro de diversos debates com a sua nova adaptação no formato de série. Nessa história, o mundo está enfrentando uma crise de infertilidade. Os EUA são tomados por um regime fascista chamado Gilead. Basicamente, a extrema-direita conservadora tomou o poder. Assim surge a República de Gilead. Sociedades distópicas ou pós-apocalípticas não são novidade. Ainda assim, “O Conto da Aia” obteve grande repercussão. A série chamou a atenção por dialogar tão bem com nossa História, tanto passada quanto atual. [1] Na verdade, é difícil assistir algum dos episódios e não sentir aquele frio subindo seu corpo. É uma distopia tão real ao ponto de causar desconforto. Enquanto assistia a série, não teve um momento sequer em que pensei, aliviada, “é apenas ficção”. Em menor ou maior escala, dependendo do contexto histórico, político e social, a sociedade apresentada em “O Conto da Aia” não apenas já existiu, como ainda existe. A autora pesquisou sobre acontecimentos reais para escrever a obra, capturando também o espírito reacionário da época e que perdura até os dias atuais, como revelou em entrevista. [2]

A série elabora um passo a passo de como o regime teocrático e patriarcal de Gilead nasceu e cresceu até tomar o poder. [3] Além disso, relembra o perigo de ignorar a ameaça fascista, acreditando que isso não poderia acontecer nos dias de hoje. Pode e está acontecendo. [4] Não se trata de algo do passado distante, muito pelo contrário, esse tipo de pensamento é justamente o deslize do qual o fascismo se aproveita. Pode parecer um absurdo agora, mas dada as necessárias circunstâncias, o fascismo vai se enraizando até tornar-se algo normal, que é justamente a transição apresentada pela série. As pessoas não perceberão até que seja tarde demais. O fascismo surge em momentos de crise, buscando retornar ao que era considerado a “ordem natural” da sociedade. Minorias sociais e pessoas que não se conformam com o regime são “degenerados” no olhar de Gilead, assim como na Alemanha nazista. [5] Na entrevista citada anteriormente, a autora também comenta sobre as injustiças sofridas pelas mulheres e LGBTs e como isso reflete em sua obra. Essas pessoas são vistas como uma categoria de subgente, ou sequer são vistas como seres humanos, logo não precisam de direitos, incluindo o direito à vida. Esse tipo de regime é uma versão mais radical do sistema de exploração em que vivemos, onde minorias já são tratadas como subgente. [6]

A série também lembra da importância da consciência de classe. A personagem Serena Joy Waterford encontra-se cerceada pelo mesmo regime que ajudou a criar. [7] Por ser uma mulher, ela também é afetada pela sociedade patriarcal de Gilead e por isso é possível sentir empatia por ela em determinados momentos. Entretanto, ela também é uma integrante da classe dominante. Inclusive, orquestrou junto com o marido os ataques terroristas que levaram à ascensão da República de Gilead. Ela e as outras mulheres da classe dominante demonstram sem remorso seu poder de classe, contribuindo tanto indiretamente quando diretamente aos abusos físicos e psicológicos sofridos pelas aias. É a luta de classes dentro desse universo. Não existe sororidade entre burguesa e proletária. Essas pessoas trabalham ativamente pela manutenção da classe dominante, pois é a classe da qual fazem parte. Seriam as equivalentes à Hillary Clinton, Margaret Thatcher, Fernando Holliday, Barack Obama, entre outras pessoas que, apesar de fazerem parte de minorias sociais, trabalham a favor da ideologia dominante. Servem como uma representação simbólica, mas não substantiva. [8] [9] É verdade que nunca se deve colocar as opressões em segundo plano, como muitos ditos “revolucionários” o fazem, mas ao mesmo tempo é um erro fatal acreditar numa suposta representatividade sem substância real. Essas análises devem ser feitas em conjunto. A consciência de classe precisa andar de mãos dadas com as outras opressões, levando em conta todo um contexto histórico e político.

Além disso, a ideologia Gilead é apresentada como sendo tão hipócrita quanto a ideologia burguesa da nossa sociedade. Os homens da classe dominante entregam-se de braços abertos aos mesmos atos que consideram como degeneração: tendo relações com diversas mulheres em bordéis, fora do casamento, às vezes engajando num relacionamento com a própria aia, além de usarem drogas, assim como os defensores dos “valores tradicionais” e da “família tradicional” em nossa realidade. A hipocrisia da ideologia dominante pode ser exposta com uma rápida pesquisa. [10] [11] [12] Contudo, esses fatos não deveriam causar surpresa ou espanto, pois Lenin já vem nos avisando há um século: “A que ponto os mentirosos e os hipócritas, os imbecis e os cegos, os burgueses e seus defensores enganam o povo falando-lhe de liberdade, de igualdade, de democracia em geral!”. [13]

Por fim, as pessoas vão se revoltar contra o regime fascista. Assim como na História os soviéticos lutaram contra os nazistas, os cubanos contra os imperialistas norte-americanos e os africanos contra os colonialitas, as aias e outros rebeldes uniram-se e organizaram-se para construir sua própria rede de resistência. Como a personagem principal, “Offred”, apontou em um dos episódios: "A culpa é deles. Nunca deveriam ter nos dado uniformes se não queriam que fôssemos um exército".

“O Conto da Aia” é muito mais do que uma lição sobre a ascensão do fascismo, é um aviso.

Nolite te Bastardes Carborundorum.

NOTAS

[1] http://www.inannaeducacao.com/single-post/2017/08/18/O-conto-da-Aia-e-o-fundamentalismo-político-religioso
[2] https://medium.com/@ericaprado/margaret-atwood-o-conto-da-aia-a-marcha-das-mulheres-direitos-de-pessoas-trans-e-mais-e61993b3732b
[3] https://www.youtube.com/watch?v=C0rRgyMMSZM
[4] http://www.bbc.com/portuguese/internacional-40910927
[5] https://www.facebook.com/CamaradaRosa/photos/a.321310404956135.1073741829.311130325974143/348081862278989/?type=3&theater
[6] https://www.youtube.com/watch?v=uTs1JPQEkSg
[7] https://www.wired.com/2017/05/handmaids-tale-recap-6/
[8] http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2017/01/obama-e-as-ilusoes-do-simbolico.html
[9] https://www.youtube.com/watch?v=lyhADZjmJwg
[10] http://www.huffpostbrasil.com/2017/07/21/homens-cristaos-sao-mais-hipocritas-sobre-pornografia-diz-estud_a_23042044/
[11] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/06/19/O-que-os-dados-de-uma-década-dizem-sobre-o-consumo-de-pornô-na-internet
[12] http://www.esquerdadiario.com.br/Vamos-falar-sobre-o-tesao-com-travestis
[13] https://www.marxists.org/portugues/lenin/1919/11/06.htm

Fonte: https://www.facebook.com/CamaradaRosa/photos/a.321312588289250.1073741831.311130325974143/371007956653046/?type=3&theater

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Finalmente livre



Vem chuva
Lave a minha alma
Corra com meus medos
E deixe-os passar.

Olhe nos meus olhos
Sinta o meu sorriso
Veja o quanto é lindo
O recomeçar.

Pode vir com o tempo
Não tenho mais medo
Nem vejo perigo
Em me aproximar.

Percebo uma presença
Que um dia cortou-me a alma
Mas depois de anos
Não vale o meu chorar.

Estranhamente livre
Com a felicidade
Indescritível em meu peito
Para me encontrar.

Angela Natel – 12/01/2014

terça-feira, 10 de julho de 2018

Fênix



Um livro novo
Tira-me um sorriso
Um medo vencido
Enche-me de prazer.

Sou carta marcada
Pelos meus sonhos
Sou vida esmagada
Que bom vinho produz.

Dor que não me deixa dormir
Contos que me fazem sorrir
Impaciência ao responder
Quem insiste em não entender.

Não vou discutir
Sou paga prá explicar
Não vou nem mentir
Esforço por terminar.

Vencer o medo da pressa
E da ansiedade
Pisar sobre as brasas
Que queimam a vaidade.

A fênix que se ergue das chamas
Puxa o ar para dentro de si
E clama, e clama.

Pedi por socorro, agora me calo.
Sou livro aberto,
Eu mudo, não paro.

Aprendo com tudo
O que vejo ao redor.
Não tenho medo de nada
Posso ser sempre melhor.

A dor me impulsiona
A impaciência não.
Remédios diários
Não me colocam no chão.

Exponho minha vida
Prá quem quiser ver.
Se as portas se fecham
Eu pago prá ver.

Não devo um caminho
Planejo, sou livre,
Nunca sozinho
Amigos? Já tive.

O que devo, eu pago,
Dinheiro, amor,
Com o tempo ao meu lado
Ao meu dispor.

Por isso é possível
Sonhar acordada
Sou invencível
Não sou limitada.

Angela Natel – 07/01/2014

Sangue de barata



Olhei, olhei e não vi
a pessoa que no chão dormia.
andei, olhei e andei
mas compaixão não sentia.

Gastei, gastei tudo ali
onde a propaganda mandou.
Gastei, gastei, nem sofri
pelo que de fome chorou.

Neguei, neguei a visita
ao preso em sua solidão.
Andei e segui em minha vida
Longe de toda confusão.

Parei, parei de viver
preocupado com o que não me mata.
não vejo no outro o sofrer
porque tenho sangue de barata.

( Angela Natel - inspirado na leitura do livro 'Sangue de Barata', de Christian David - 15/02/2014)

Lições



Aprendi a dar nome às minhas qualidades
Porque conheço de cor meus defeitos
Aprendi a encontrar complementaridade
Mesmo sem conhecer os sujeitos.

Não me prendo à falsa humildade
De ter pena de quem tem valor
Percebo a humanidade
Em cada linha, em cada cor.

Aprendo de dia a me olhar no espelho
E ver o que posso mudar adiante
De noite na cama eu me ajoelho
E graças eu dou por estar tão distante.

Não me sinto culpada pelas coisas que tenho
Pelo que desejo e ainda vou ter
Em repartir e dar me empenho
Relatório de tudo nunca vão ver.

Nem sempre estou certa quando me expresso
Nem sempre agrado no jeito de ser
Mesmo que um dia eu vire do avesso
Por certo a alguém vou sempre dever.

Por isso não busque em mim ser completo
Nem pense que posso te satisfazer
Sou poeta que vive de sonhos repleto
 Aluno que um dia também vai morrer.

Angela Natel – 02/02/2014

O cara



Como vou saber se encontrei ‘o cara’?
Se encontrar alguém por quem meu coração dispara
Se encontrar um amigo que me completa por inteiro
Ou aquele que chega em mim primeiro?

Como saber se minha busca chegou ao fim
Se a vida é nova ao olhar prá mim
Se o caminho é cor que me ilumina
Se a palavra é doce e me anima?

Como ter certeza de que me completa
Se me deixa sempre uma porta aberta
Se aguenta o tranco em minha crise
Se vier ao meu auxilio sem que alguém avise?

Há algum sinal prá me avisar
Que encontrei aquele que vai me amar
Em carne, osso, alma e entendimento,
Que vai marcar minha vida e ser meu alimento?

Será que é pedir muito,
por demais a expectativa,
Que ninguém se habilite,
que não haja alternativa?

Ou será que o escolhido
deva somente ser
antes de ser um bom marido
aquele sem o qual eu não consiga viver?

Angela Natel – 24/01/2014

Apologia



Eu só leio pelo espelho
De quem concorda comigo
Não aprendo, só releio
Nos braços de meu amigo.

A prostituta eu desrespeito
Porque não merece meu apoio
Ignoro o direito
De quem considero joio.

Só ouço a quem se parece
Com o que penso e o que sou
Quem fala a verdade, mas não merece
Não perca tempo com o seu show.

Não me interessa se tem razão
Se fala uma verdade
Julgo e rotulo, não abro mão
Não aprendo nem ouço com humildade.

Aliás, sou como deus
Determino o pecado mais perigoso
Se concordar eu abomino
O meu erro é pequeno, comparado aos seus.

Angela Natel – 18/01/2014

O Conto da Aia: Um manual para entender o fascismo


Por A Rosa

O livro “O Conto da Aia” (“The Handmaid’s Tale”, no original) de 1985 foi escrito por Margaret Atwood e adaptado para o cinema na década de 90. Recentemente, tornou-se o centro de diversos debates com a sua nova adaptação no formato de série. Nessa história, o mundo está enfrentando uma crise de infertilidade. Os EUA são tomados por um regime fascista chamado Gilead. Basicamente, a extrema-direita conservadora tomou o poder. Assim surge a República de Gilead. Sociedades distópicas ou pós-apocalípticas não são novidade. Ainda assim, “O Conto da Aia” obteve grande repercussão. A série chamou a atenção por dialogar tão bem com nossa História, tanto passada quanto atual. [1] Na verdade, é difícil assistir algum dos episódios e não sentir aquele frio subindo seu corpo. É uma distopia tão real ao ponto de causar desconforto. Enquanto assistia a série, não teve um momento sequer em que pensei, aliviada, “é apenas ficção”. Em menor ou maior escala, dependendo do contexto histórico, político e social, a sociedade apresentada em “O Conto da Aia” não apenas já existiu, como ainda existe. A autora pesquisou sobre acontecimentos reais para escrever a obra, capturando também o espírito reacionário da época e que perdura até os dias atuais, como revelou em entrevista. [2]

A série elabora um passo a passo de como o regime teocrático e patriarcal de Gilead nasceu e cresceu até tomar o poder. [3] Além disso, relembra o perigo de ignorar a ameaça fascista, acreditando que isso não poderia acontecer nos dias de hoje. Pode e está acontecendo. [4] Não se trata de algo do passado distante, muito pelo contrário, esse tipo de pensamento é justamente o deslize do qual o fascismo se aproveita. Pode parecer um absurdo agora, mas dada as necessárias circunstâncias, o fascismo vai se enraizando até tornar-se algo normal, que é justamente a transição apresentada pela série. As pessoas não perceberão até que seja tarde demais. O fascismo surge em momentos de crise, buscando retornar ao que era considerado a “ordem natural” da sociedade. Minorias sociais e pessoas que não se conformam com o regime são “degenerados” no olhar de Gilead, assim como na Alemanha nazista. [5] Na entrevista citada anteriormente, a autora também comenta sobre as injustiças sofridas pelas mulheres e LGBTs e como isso reflete em sua obra. Essas pessoas são vistas como uma categoria de subgente, ou sequer são vistas como seres humanos, logo não precisam de direitos, incluindo o direito à vida. Esse tipo de regime é uma versão mais radical do sistema de exploração em que vivemos, onde minorias já são tratadas como subgente. [6]

A série também lembra da importância da consciência de classe. A personagem Serena Joy Waterford encontra-se cerceada pelo mesmo regime que ajudou a criar. [7] Por ser uma mulher, ela também é afetada pela sociedade patriarcal de Gilead e por isso é possível sentir empatia por ela em determinados momentos. Entretanto, ela também é uma integrante da classe dominante. Inclusive, orquestrou junto com o marido os ataques terroristas que levaram à ascensão da República de Gilead. Ela e as outras mulheres da classe dominante demonstram sem remorso seu poder de classe, contribuindo tanto indiretamente quando diretamente aos abusos físicos e psicológicos sofridos pelas aias. É a luta de classes dentro desse universo. Não existe sororidade entre burguesa e proletária. Essas pessoas trabalham ativamente pela manutenção da classe dominante, pois é a classe da qual fazem parte. Seriam as equivalentes à Hillary Clinton, Margaret Thatcher, Fernando Holliday, Barack Obama, entre outras pessoas que, apesar de fazerem parte de minorias sociais, trabalham a favor da ideologia dominante. Servem como uma representação simbólica, mas não substantiva. [8] [9] É verdade que nunca se deve colocar as opressões em segundo plano, como muitos ditos “revolucionários” o fazem, mas ao mesmo tempo é um erro fatal acreditar numa suposta representatividade sem substância real. Essas análises devem ser feitas em conjunto. A consciência de classe precisa andar de mãos dadas com as outras opressões, levando em conta todo um contexto histórico e político.

Além disso, a ideologia Gilead é apresentada como sendo tão hipócrita quanto a ideologia burguesa da nossa sociedade. Os homens da classe dominante entregam-se de braços abertos aos mesmos atos que consideram como degeneração: tendo relações com diversas mulheres em bordéis, fora do casamento, às vezes engajando num relacionamento com a própria aia, além de usarem drogas, assim como os defensores dos “valores tradicionais” e da “família tradicional” em nossa realidade. A hipocrisia da ideologia dominante pode ser exposta com uma rápida pesquisa. [10] [11] [12] Contudo, esses fatos não deveriam causar surpresa ou espanto, pois Lenin já vem nos avisando há um século: “A que ponto os mentirosos e os hipócritas, os imbecis e os cegos, os burgueses e seus defensores enganam o povo falando-lhe de liberdade, de igualdade, de democracia em geral!”. [13]

Por fim, as pessoas vão se revoltar contra o regime fascista. Assim como na História os soviéticos lutaram contra os nazistas, os cubanos contra os imperialistas norte-americanos e os africanos contra os colonialitas, as aias e outros rebeldes uniram-se e organizaram-se para construir sua própria rede de resistência. Como a personagem principal, “Offred”, apontou em um dos episódios: "A culpa é deles. Nunca deveriam ter nos dado uniformes se não queriam que fôssemos um exército".

“O Conto da Aia” é muito mais do que uma lição sobre a ascensão do fascismo, é um aviso.

Nolite te Bastardes Carborundorum.

NOTAS

[1] http://www.inannaeducacao.com/single-post/2017/08/18/O-conto-da-Aia-e-o-fundamentalismo-político-religioso
[2] https://medium.com/@ericaprado/margaret-atwood-o-conto-da-aia-a-marcha-das-mulheres-direitos-de-pessoas-trans-e-mais-e61993b3732b
[3] https://www.youtube.com/watch?v=C0rRgyMMSZM
[4] http://www.bbc.com/portuguese/internacional-40910927
[5] https://www.facebook.com/CamaradaRosa/photos/a.321310404956135.1073741829.311130325974143/348081862278989/?type=3&theater
[6] https://www.youtube.com/watch?v=uTs1JPQEkSg
[7] https://www.wired.com/2017/05/handmaids-tale-recap-6/
[8] http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2017/01/obama-e-as-ilusoes-do-simbolico.html
[9] https://www.youtube.com/watch?v=lyhADZjmJwg
[10] http://www.huffpostbrasil.com/2017/07/21/homens-cristaos-sao-mais-hipocritas-sobre-pornografia-diz-estud_a_23042044/
[11] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/06/19/O-que-os-dados-de-uma-década-dizem-sobre-o-consumo-de-pornô-na-internet
[12] http://www.esquerdadiario.com.br/Vamos-falar-sobre-o-tesao-com-travestis
[13] https://www.marxists.org/portugues/lenin/1919/11/06.htm

Fonte: https://www.facebook.com/CamaradaRosa/photos/a.321312588289250.1073741831.311130325974143/371007956653046/?type=3&theater

Finalmente livre



Vem chuva
Lave a minha alma
Corra com meus medos
E deixe-os passar.

Olhe nos meus olhos
Sinta o meu sorriso
Veja o quanto é lindo
O recomeçar.

Pode vir com o tempo
Não tenho mais medo
Nem vejo perigo
Em me aproximar.

Percebo uma presença
Que um dia cortou-me a alma
Mas depois de anos
Não vale o meu chorar.

Estranhamente livre
Com a felicidade
Indescritível em meu peito
Para me encontrar.

Angela Natel – 12/01/2014

Fênix



Um livro novo
Tira-me um sorriso
Um medo vencido
Enche-me de prazer.

Sou carta marcada
Pelos meus sonhos
Sou vida esmagada
Que bom vinho produz.

Dor que não me deixa dormir
Contos que me fazem sorrir
Impaciência ao responder
Quem insiste em não entender.

Não vou discutir
Sou paga prá explicar
Não vou nem mentir
Esforço por terminar.

Vencer o medo da pressa
E da ansiedade
Pisar sobre as brasas
Que queimam a vaidade.

A fênix que se ergue das chamas
Puxa o ar para dentro de si
E clama, e clama.

Pedi por socorro, agora me calo.
Sou livro aberto,
Eu mudo, não paro.

Aprendo com tudo
O que vejo ao redor.
Não tenho medo de nada
Posso ser sempre melhor.

A dor me impulsiona
A impaciência não.
Remédios diários
Não me colocam no chão.

Exponho minha vida
Prá quem quiser ver.
Se as portas se fecham
Eu pago prá ver.

Não devo um caminho
Planejo, sou livre,
Nunca sozinho
Amigos? Já tive.

O que devo, eu pago,
Dinheiro, amor,
Com o tempo ao meu lado
Ao meu dispor.

Por isso é possível
Sonhar acordada
Sou invencível
Não sou limitada.

Angela Natel – 07/01/2014