terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Criamos monstros para transferir a eles nossas próprias monstruosidades.



Foi a mulher que me deste.
Foi a serpente vil.
Foi da vontade celeste
foi a puta que o pariu.

Foi o diabo que me tentou.
Foi o político que extorquiu.
Foi o juiz que roubou.
Foi o outro que mentiu

Foi ele que começou.
Foi o pastor que mandou.
Foi ela que provocou.
Foi a mídia que divulgou.

Foi o banco que não facilitou.
Foi ela que se perdeu.
Foi o pai, a mãe, que não ensinou.
Foi o outro carro que bateu.

Foi a instituição que errou.
Foi a multa que venceu.
Foi o $ que ele não depositou
Foi o excesso que ele comeu.

Foi o filme que ela assistiu.
Foi a comida que estava estragada.
Foi a música que ela ouviu.
Foi porque ela não estava acostumada.

Foi Judas que traiu.
Foi Pedro que negou.
Foi a Bíblia que proibiu.
Foi Deus que criou.

Assim criamos para nós mesmos
nossos próprios bodes expiatórios
para transferir culpas e medos
mantendo o ciclo acusatório.

Angela Natel - 07/02/2017

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Cão que late...


pois é, não morde.
É muita gente publicando suas contas em dia
Enquanto chega atrasado em compromisso.
Muita gente buscando quem lhe sorria
Mas deixando de estender o braço amigo.
Muita gente fazendo doutorado
e ignorando o próximo (ô, gente ignorante!).
É muito orientador desorientado
Mais interesseiro do que interessante.
Muita gente arrotando uma lagosta,
Enquanto se entope de sardinha.
É muito vídeo e imagem tosca
Prá quem se acha top de linha.
É muito show prá quem logo esmorece,
Muita propaganda de papel higiênico.
É muito cobertor que não aquece,
Muita doçura para um gole de arsênico.
É muito elogio prá depois vir jogar pedra.
Muita criatividade lançada pela janela.
É muito encanto que facilmente quebra
É muita escuridão prá tão pouca vela.
É muito abuso querendo consertar os outros
Da parte de quem nunca se conserta.
É muita gente querendo receber os louros
do trabalho de pouca gente alerta.
É muito rótulo prá pouco produto,
Muito barulho por nada.
É muito acessório num único adulto,
muito carro prá pouca vaga.
É muita expectativa em cima mim,
prá pouca cooperação alheia.
É muito pé descalço por aí
prá tão pouca meia.
O que estou dizendo pode parecer absurdo,
Mas vai ver só, esse é o mundo:
Cão que late, esnoba, coloca na vitrine
Não morde, não fede e nem cheira,
Não há quem o ensine.
Angela Natel - Parte integrante do livro 'As fontes que habitam em mim', disponível em e-book em https://www.amazon.com.br/fontes-que-habitam-…/…/ref=sr_1_1…



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Amizade verdadeira

Como ter certeza de que se encontrou um amigo verdadeiro?
Vale a pena a reflexão.
De que maneira entenderei que posso confiar
E encontrar apoio e compreensão?

Como saber se o cuidado não é tentativa de controle
E me sentir livre ao me expressar?
De que forma sei que não serei de primeira condenada
Ao me despir das máscaras de verdadeiramente me mostrar?

Como falar do que me inquieta
Sem ser de cara rechaçada?
Como compartilhar coisas que amo
E ainda ser incentivada?

E, ao trabalhar, será que serei respeitada
Em meu silêncio e necessidade de isolamento?
Será que preciso o tempo todo ser disponibilizada
e ter que concordar em qualquer momento?

Amigos verdadeiros são raros de encontrar
Mesmo que alguns pensem que não.
Quem acha ser amigo precisa, então, pensar
Se reclamam de tudo mas exigem aceitação.

Por isso o que penso ser um amigo de verdade
Gira em torno de muito respeito
Um apreciar do outro a singularidade
E não impôr-se do seu modo e do seu jeito.

Nesse sentido, cada um tem seu limite
De tempo, espaço e emoções
Cada um busca alguém que o abrigue
Diferentes, porém companheiros corações.

Angela Natel – 18/01/2017.
https://www.facebook.com/angelanatel.escritora/

sábado, 31 de dezembro de 2016

Algumas das lições que (re)aprendi em 2016:


1. Bandido bom não é bandido morto. Cada um de nós carrega o potencial criminoso, uma vez que nascemos com uma natureza corrupta e destinada à destruição. Bandido bom é aquele a quem é dada a chance e as condições para uma nova vida.
2. De nada vale estar em um "ministério" ou posição de influência, se não trato com respeito e dignidade a todos os que me cercam ou tenho contato.
3. Ninguém precisa de minha esmola. Dar do que me sobra não faz de mim uma pessoa melhor - só revela a ganância que habita em mim. O verdadeiro sacrifício é repartir do que tenho, mesmo que não me sobre. Uma atitude assim me ensina que somos todos iguais e carentes da mesma graça.
4. Ao proferir condenação a outro coloco-me em posição superior e reconheço que meus erros e pecados são de menor valor. Isso deflagra uma atitude hipócrita e moralista de quem vê o cisco do olho alheio sem se importar com a própria trave.
5. Convivo com a tentação de, caso erre, culpar o diabo e, caso acerte, dizer que foi Deus. Com isso, acabo não assumindo responsabilidade sobre meus atos, muito menos sobre suas consequências. Além disso, corro o sério risco de não reconhecer a ação de Deus por trás de toda e qualquer situação, inclusive das que me fazem sofrer.
6. Tenho a tendência de emitir julgamento a respeito de qualquer coisa sem refletir sobre as complexidades da vida e do ser humano. Isso pode causar distanciamento das pessoas com as quais posso aprender e a quem posso ajudar e servir. Lidar com situações de forma generalizada me tira da realidade e me faz exigir dos outros o que não podem oferecer.
7. Educação sem pensamento crítico é adestramento. Ensinar não é dar respostas prontas, mas caminhar junto e trocar vida e experiência.
8. Lidar com as questões da vida em termos de bem e mal, numa polarização extrema, é ignorar a própria vida e Aquele que é o verdadeiro protagonista dela em todas as suas dimensões.
9. Sempre procurarei um bode expiatório, um elemento que chamarei de "mau" para culpar por aquilo que considero a causa de meu sofrimento no momento. Isso é uma atitude natural a cada um de nós, o que não a justifica.
10. Vivemos em busca de heróis, salvadores da Pátria, pessoas que encarnem a libertação de nossos problemas. Isso porque possivelmente nosso inconsciente tente nos avisar dessa maneira o quanto somos impotentes diante dos desafios da vida. Entretanto, nenhuma pessoa neste mundo poderá encarnar a salvação de que realmente necessitamos, uma vez que isso já foi realizado há mais de dois mil anos atrás. Expectativas demais sobre qualquer outra pessoa nesse sentido só trarão inevitáveis frustrações e podem sobrecarregar quem for seu alvo.
11. Rótulos, estigmas e comparações são extremamente nocivos a qualquer pessoa. Nenhum nome, rótulo, designação é capaz de representar adequada e completamente a complexidade humana.
12. Somos todos iguais, independentemente de nossa condição, qualquer que seja. Privilégios podem ser agradáveis para quem os recebe, mas causam mais mal do que bem.
13. Não, não há oportunidades iguais para as mulheres, e isso sinto na pele, seja como linguista, teóloga, professora, escritora ou qualquer outra função que ocupe, em qualquer lugar. Títulos falam alto, mas se um homem tiver um título terá a preferência (e às vezes terá a preferência mesmo sem titulo, apenas por ser homem). Para conquistar um espaço sem ser indicado por alguém já consagrado, as mulheres precisam ralar muito mais do que os homens.
14. Caso alguém confesse que tem alguma doença mental (transtornos, psicoses, etc), mesmo sendo tratado e em perfeitas condições de trabalho, será discriminado, não importa a instituição.
15. Um evangelho que não tenha como referência a pessoa de Jesus Cristo é falso. Doutrinas e ritos ou qualquer manifestação religiosa não substitui a pessoa de Cristo, Sua obra e referência.
16. A indústria da moda (vestuário, em sua maioria) não está preocupada em atender adequadamente pessoas que não se encaixem no padrão de beleza instituído culturalmente. Por isso não me importo de preferir roupas e calçados masculinos quando estes atendem ao meu tamanho e preferência.
17. Não existe 'chamado missionário'. A responsabilidade em participar da Missão de Deus em revelar a pessoa de Jesus ao mundo é de todo cristão, da Igreja como um todo. Não é possível terceirizar o trabalho missionário me contentando em orar por missões ou sustentar financeiramente algum missionário sem fugir dessa responsabilidade que é de cada um de nós.
18. Prefiro morrer do que matar. Nesse sentido, não consigo, por respeito à minha própria consciência, concordar com o porte de armas ou seu uso. Ainda tenho dificuldades em conciliar a ideia de ser cristã e apoiar o uso de armas, porém reconheço que sou limitada, mas assim como respeito quem pensa diferente, espero que respeitem meu pensamento também.
19. Definitivamente, a gente não colhe o que planta. Conhecendo-me como me conheço sei do que sou capaz e do que já pensei, falei ou fiz nesta vida. Minha consciência (de que o que todos os seres humanos naturalmente merecem seja o inferno) não me permite entender que qualquer coisa boa que me sobrevenha eu tenha sido capaz de gerar por mim mesma. Entendo também que o texto bíblico utilizado de forma generalizada para embasar a ideia de que colhemos o que plantamos tem sido interpretado fora de seu contexto e de maneira equivocada por muitos. Assim, entendo que tudo o que é bom e/ou proveitoso é resultado única e exclusivamente da graça de Deus sobre nós.
20. Corremos o risco de tentar gerenciar a obra e a missão de Deus. Isso quando tentamos controlar o que e como Deus faz as coisas na vida de outras pessoas, também na tentativa de reproduzirmos o que nos acontece em outrem. Porém isso pode cegar nosso entendimento quanto à multiforme graça de Deus e o tratar personalizado na vida de cada um. Ao tentar determinar como e quando as pessoas devem agir em sua vida diária em seu ministério, tento me colocar no lugar de Deus ou como gerente de Sua ação. Nesse sentido, ainda que justifiquemos que estamos cuidando uns dos outros, a linha tênue entre cuidado e controle pode ser ultrapassada, causando um grande equívoco em nossa verdadeira vocação e podendo arruinar e oprimir a vida de outras pessoas.
21. Discordar não significa não saber ser contrariado.
22. Nenhuma autoridade está acima da lei.
Puxa! 2016 foi um ano de muitas lições. Com certeza ainda tenho muito a aprender. Talvez eu mude de ideia, talvez não. O mais importante é não ficar parado, buscar o aprendizado, nunca deixar de caminhar.
Tenham um feliz ano novo!
Grande abraço
Angela Natel
www.facebook.com/angelanatel.escritora

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Pronta para uma nova vida!


Com a aproximação da virada de mais um ano somos conduzidos pelos canais televisivos a acompanhar retrospectivas do ano que passou e previsões para o próximo. Apesar de muita coisa ter nos acontecido e esperarmos tanto para os dias que virão, creio que o mais propício para nós seja tomarmos um tempo de gratidão a Deus por termos chegado até aqui e, ao mesmo tempo, deixar a ansiedade e a preocupação de lado para descansar na expectativa das surpresas que nos aguardam em 2017.
Mais do que previsões e planos, desejo estar bem e preparada para ser cada vez mais parecida com Cristo em minha vida, atitudes e posturas para com meus relacionamentos.
De nada adianta sair, pregar, ensinar e proclamar a mensagem do Evangelho e da libertação em Cristo se não me prontifico a refletir seu amor nos pequenos gestos e relacionamentos que cultivo no dia-a-dia. Aqueles que nos são mais próximos acabam por ser o termômetro de nossa disposição em refletir Cristo ao mundo. Com esse pensamento, podemos indagar até que ponto nossos familiares e amigos mais chegados percebem atitudes como as de Cristo em nós? Será que temos deixado água na boca daqueles que conosco interagem para que desejem conhecer Aquele que tem nos transformado? Ou apenas temos sido um barulho incômodo que de nada serve além de um mau testemunho, uma pregação desconexa com nossa realidade?
Por isso, apesar dos inúmeros desafios que temos pela frente, das frustrações e perdas que tivemos de enfrentar no ano que passou, dos planos que inevitavelmente passarão por nossa mente, que nos dobremos ante nossas limitações, nos arrependamos das posturas egoístas e insensatas para com aqueles que nos cercam. É preciso que desçamos do nosso pedestal, reconhecendo que em nada somos melhores do que qualquer outra pessoa, independentemente de sua condição. A partir disso, nos será possível olharmos nos olhos do outro e compartilharmos do Pão do céu que diariamente tem nos alimentado, nos será possível ouvir o outro com atenção mais do que simplesmente tentando rebater sua fala, será possível, como Cristo, tomarmos o fardo pesado que oprime nosso semelhante e com ele compartilhar nosso descanso.
Sim, que estejamos abertos para a novidade, mas também para a simplicidade da rotina que temos ignorado. Que estejamos prontos para perder tudo por amor a Cristo, e repartir o que Ele tem nos dado a todo o necessitado que surgir em nosso caminho. Não tenhamos medo de perder, de chorar, de sofrer ou sentir dor. Que nosso maior medo seja o de permanecermos os mesmos, indiferentes ao outro, presos em nossas desculpas.
É por isso que me levanto neste fim de 2016 grata a Deus por cada passo da caminhada até aqui, temerosa em perder lições fundamentais do esculpir do caráter de Cristo em mim e na expectativa de poder me gastar, repartir e me doar cada vez mais a todos os que eu encontrar pelo caminho, até que eu não seja mais encontrada em mim.
Que nossa nova vida diária seja reconhecida como uma verdadeira bênção a todos os que nos cercam, para a glória de Cristo Jesus.
Feliz vida nova, amigos.
Angela Natel

sábado, 24 de dezembro de 2016

Não sou uma boa menina


Acho que não tenho sido uma boa menina...
Tenho sido a menina má da Teologia,
provocado a ira e a indignação dos acomodados.
Tenho saído constantemente de minha caixinha
E dado voz aos marginalizados.
É, não tenho sido uma boa menina,
mas não se preocupe em trazer-me um presente
Porque meu prazer está em presentear
aquele que nos discursos religiosos se faz ausente.
Na verdade, não quero ser uma boa menina,
contanto que deixe um pedaço de mim
na vida e no coração dos que eu encontrar.
Em Cristo minha vida encontra seu fim
Seu amor e graça importa eu revelar.
Angela Natel - 24/12/2016


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Quando o Natal é todo dia



Realmente temos alguma razão para tratar o Natal com tanta diferença de outras datas como estamos acostumados a fazer?
Será que temos bases suficientes para combater o consumismo nessa época e rebatermos qualquer mensagem ou personagem que tome o lugar da pessoa de Cristo no centro das celebrações natalinas?
Perguntas que me chegam à mente nestes dias que antecedem as comemorações de fim de ano, em meio ao trabalho, ao cansaço de um ano repleto de mudanças e muitas incertezas pela frente.
Como cristã, creio ser inútil defender uma mensagem de paz, esperança, luz, comunhão, perdão e salvação nessa época se não o fazemos durante todo o ano, no dia-a-dia, da mesma maneira que qualquer demonstração de preocupação para com a vida alheia num momento específico – seja num momento extremo ou apenas por causa de uma festa – enquanto se vive como se o outro não existisse no resto do tempo.
Outra questão é a atitude de reverência inusitada que surge por causa de uma data que - sabido dos que conhecem as Escrituras – não difere em nada das demais. Entendo o valor da cultura e da tradição, principalmente como metodologia de ensino, porém não deixa de parecer hipocrisia tentar corrigir a reverência do outro mesmo que isso possa ferí-lo ou afastá-lo. Muito se fala em nome da verdade sem que haja compreensão e sensibilidade, porém o que se vê é pouco de Cristo nas atitudes que se mostram.
Com isso, quero te convidar a refletir comigo sobre a pessoa de Jesus Cristo, a razão de nossa existência e trabalho, por quem vivemos, a quem dobramos todas as certezas que podemos obter. Cristo, o autor e consumador de nossa fé, a razão de estarmos onde estamos, de recebermos de Deus a graça e a misericórdia de que necessitamos.
E essa graça e misericórdia é o que precisamos viver e compartilhar todos os dias do ano, em cada palavra, mensagem e atitude. Cristo, ao andar por essa terra, olhava para as pessoas e transmitia mais do que uma mensagem: Ele era a mensagem, a aceitação de Deus, o olhar de misericórdia, a vida que poderia saciar a sede de todo e qualquer que dEle se aproximasse. Que desafio ser como Cristo!
De que vale o trabalho, o ministério, a empatia, o serviço, se o trato com o outro não reflete a mão estendida de Cristo? Que mérito uma grande obra pode trazer, que alegria a realização de um grande ministério pode gerar se não poderia estar mais distante da imagem de Cristo que precisamos refletir?
É por isso que mais uma vez desejo me aquietar nestes dias de tanta agitação, e escolho olhar para Jesus, de quem procedem as fontes da vida eterna, para dEle receber a compreensão, o alívio e o descanso de que tanto necessito. Olho para Jesus e sou salva, salva de mim mesma, de minhas decepções, das rejeições e tristezas que me acometeram durante o ano, dos erros e impotências que inevitavelmente afloraram em minha caminhada.
É por isso que não consigo boicotar Papai Noel, principalmente porque tenho consciência de que de forma alguma ele poderia ser uma ameaça ao centro da mensagem do evangelho, que é a pessoa de Jesus Cristo. Não é possível tal competição, não há o que possa ofuscar Sua verdadeira obra em nossa vida, obra tal que pode ser percebida todos os dias do ano, e não apenas em dezembro.
Que privilégio não estarmos presos a um calendário para podermos viver e refletir tão preciosa salvação! Que Jesus Cristo continue sendo engrandecido, seja em nossa vida, seja em nossa morte, em meio a alegrias e sofrimentos, com dúvidas ou certezas, e que aqueles que nos cercam percebam Sua vida, atitudes e presença todos os dias do ano em nós, para a glória única e exclusiva de Deus.
Feliz Natal, queridos!
Angela Natel – 22/12/2016.

Criamos monstros para transferir a eles nossas próprias monstruosidades.



Foi a mulher que me deste.
Foi a serpente vil.
Foi da vontade celeste
foi a puta que o pariu.

Foi o diabo que me tentou.
Foi o político que extorquiu.
Foi o juiz que roubou.
Foi o outro que mentiu

Foi ele que começou.
Foi o pastor que mandou.
Foi ela que provocou.
Foi a mídia que divulgou.

Foi o banco que não facilitou.
Foi ela que se perdeu.
Foi o pai, a mãe, que não ensinou.
Foi o outro carro que bateu.

Foi a instituição que errou.
Foi a multa que venceu.
Foi o $ que ele não depositou
Foi o excesso que ele comeu.

Foi o filme que ela assistiu.
Foi a comida que estava estragada.
Foi a música que ela ouviu.
Foi porque ela não estava acostumada.

Foi Judas que traiu.
Foi Pedro que negou.
Foi a Bíblia que proibiu.
Foi Deus que criou.

Assim criamos para nós mesmos
nossos próprios bodes expiatórios
para transferir culpas e medos
mantendo o ciclo acusatório.

Angela Natel - 07/02/2017

Cão que late...


pois é, não morde.
É muita gente publicando suas contas em dia
Enquanto chega atrasado em compromisso.
Muita gente buscando quem lhe sorria
Mas deixando de estender o braço amigo.
Muita gente fazendo doutorado
e ignorando o próximo (ô, gente ignorante!).
É muito orientador desorientado
Mais interesseiro do que interessante.
Muita gente arrotando uma lagosta,
Enquanto se entope de sardinha.
É muito vídeo e imagem tosca
Prá quem se acha top de linha.
É muito show prá quem logo esmorece,
Muita propaganda de papel higiênico.
É muito cobertor que não aquece,
Muita doçura para um gole de arsênico.
É muito elogio prá depois vir jogar pedra.
Muita criatividade lançada pela janela.
É muito encanto que facilmente quebra
É muita escuridão prá tão pouca vela.
É muito abuso querendo consertar os outros
Da parte de quem nunca se conserta.
É muita gente querendo receber os louros
do trabalho de pouca gente alerta.
É muito rótulo prá pouco produto,
Muito barulho por nada.
É muito acessório num único adulto,
muito carro prá pouca vaga.
É muita expectativa em cima mim,
prá pouca cooperação alheia.
É muito pé descalço por aí
prá tão pouca meia.
O que estou dizendo pode parecer absurdo,
Mas vai ver só, esse é o mundo:
Cão que late, esnoba, coloca na vitrine
Não morde, não fede e nem cheira,
Não há quem o ensine.
Angela Natel - Parte integrante do livro 'As fontes que habitam em mim', disponível em e-book em https://www.amazon.com.br/fontes-que-habitam-…/…/ref=sr_1_1…



Amizade verdadeira

Como ter certeza de que se encontrou um amigo verdadeiro?
Vale a pena a reflexão.
De que maneira entenderei que posso confiar
E encontrar apoio e compreensão?

Como saber se o cuidado não é tentativa de controle
E me sentir livre ao me expressar?
De que forma sei que não serei de primeira condenada
Ao me despir das máscaras de verdadeiramente me mostrar?

Como falar do que me inquieta
Sem ser de cara rechaçada?
Como compartilhar coisas que amo
E ainda ser incentivada?

E, ao trabalhar, será que serei respeitada
Em meu silêncio e necessidade de isolamento?
Será que preciso o tempo todo ser disponibilizada
e ter que concordar em qualquer momento?

Amigos verdadeiros são raros de encontrar
Mesmo que alguns pensem que não.
Quem acha ser amigo precisa, então, pensar
Se reclamam de tudo mas exigem aceitação.

Por isso o que penso ser um amigo de verdade
Gira em torno de muito respeito
Um apreciar do outro a singularidade
E não impôr-se do seu modo e do seu jeito.

Nesse sentido, cada um tem seu limite
De tempo, espaço e emoções
Cada um busca alguém que o abrigue
Diferentes, porém companheiros corações.

Angela Natel – 18/01/2017.
https://www.facebook.com/angelanatel.escritora/

Algumas das lições que (re)aprendi em 2016:


1. Bandido bom não é bandido morto. Cada um de nós carrega o potencial criminoso, uma vez que nascemos com uma natureza corrupta e destinada à destruição. Bandido bom é aquele a quem é dada a chance e as condições para uma nova vida.
2. De nada vale estar em um "ministério" ou posição de influência, se não trato com respeito e dignidade a todos os que me cercam ou tenho contato.
3. Ninguém precisa de minha esmola. Dar do que me sobra não faz de mim uma pessoa melhor - só revela a ganância que habita em mim. O verdadeiro sacrifício é repartir do que tenho, mesmo que não me sobre. Uma atitude assim me ensina que somos todos iguais e carentes da mesma graça.
4. Ao proferir condenação a outro coloco-me em posição superior e reconheço que meus erros e pecados são de menor valor. Isso deflagra uma atitude hipócrita e moralista de quem vê o cisco do olho alheio sem se importar com a própria trave.
5. Convivo com a tentação de, caso erre, culpar o diabo e, caso acerte, dizer que foi Deus. Com isso, acabo não assumindo responsabilidade sobre meus atos, muito menos sobre suas consequências. Além disso, corro o sério risco de não reconhecer a ação de Deus por trás de toda e qualquer situação, inclusive das que me fazem sofrer.
6. Tenho a tendência de emitir julgamento a respeito de qualquer coisa sem refletir sobre as complexidades da vida e do ser humano. Isso pode causar distanciamento das pessoas com as quais posso aprender e a quem posso ajudar e servir. Lidar com situações de forma generalizada me tira da realidade e me faz exigir dos outros o que não podem oferecer.
7. Educação sem pensamento crítico é adestramento. Ensinar não é dar respostas prontas, mas caminhar junto e trocar vida e experiência.
8. Lidar com as questões da vida em termos de bem e mal, numa polarização extrema, é ignorar a própria vida e Aquele que é o verdadeiro protagonista dela em todas as suas dimensões.
9. Sempre procurarei um bode expiatório, um elemento que chamarei de "mau" para culpar por aquilo que considero a causa de meu sofrimento no momento. Isso é uma atitude natural a cada um de nós, o que não a justifica.
10. Vivemos em busca de heróis, salvadores da Pátria, pessoas que encarnem a libertação de nossos problemas. Isso porque possivelmente nosso inconsciente tente nos avisar dessa maneira o quanto somos impotentes diante dos desafios da vida. Entretanto, nenhuma pessoa neste mundo poderá encarnar a salvação de que realmente necessitamos, uma vez que isso já foi realizado há mais de dois mil anos atrás. Expectativas demais sobre qualquer outra pessoa nesse sentido só trarão inevitáveis frustrações e podem sobrecarregar quem for seu alvo.
11. Rótulos, estigmas e comparações são extremamente nocivos a qualquer pessoa. Nenhum nome, rótulo, designação é capaz de representar adequada e completamente a complexidade humana.
12. Somos todos iguais, independentemente de nossa condição, qualquer que seja. Privilégios podem ser agradáveis para quem os recebe, mas causam mais mal do que bem.
13. Não, não há oportunidades iguais para as mulheres, e isso sinto na pele, seja como linguista, teóloga, professora, escritora ou qualquer outra função que ocupe, em qualquer lugar. Títulos falam alto, mas se um homem tiver um título terá a preferência (e às vezes terá a preferência mesmo sem titulo, apenas por ser homem). Para conquistar um espaço sem ser indicado por alguém já consagrado, as mulheres precisam ralar muito mais do que os homens.
14. Caso alguém confesse que tem alguma doença mental (transtornos, psicoses, etc), mesmo sendo tratado e em perfeitas condições de trabalho, será discriminado, não importa a instituição.
15. Um evangelho que não tenha como referência a pessoa de Jesus Cristo é falso. Doutrinas e ritos ou qualquer manifestação religiosa não substitui a pessoa de Cristo, Sua obra e referência.
16. A indústria da moda (vestuário, em sua maioria) não está preocupada em atender adequadamente pessoas que não se encaixem no padrão de beleza instituído culturalmente. Por isso não me importo de preferir roupas e calçados masculinos quando estes atendem ao meu tamanho e preferência.
17. Não existe 'chamado missionário'. A responsabilidade em participar da Missão de Deus em revelar a pessoa de Jesus ao mundo é de todo cristão, da Igreja como um todo. Não é possível terceirizar o trabalho missionário me contentando em orar por missões ou sustentar financeiramente algum missionário sem fugir dessa responsabilidade que é de cada um de nós.
18. Prefiro morrer do que matar. Nesse sentido, não consigo, por respeito à minha própria consciência, concordar com o porte de armas ou seu uso. Ainda tenho dificuldades em conciliar a ideia de ser cristã e apoiar o uso de armas, porém reconheço que sou limitada, mas assim como respeito quem pensa diferente, espero que respeitem meu pensamento também.
19. Definitivamente, a gente não colhe o que planta. Conhecendo-me como me conheço sei do que sou capaz e do que já pensei, falei ou fiz nesta vida. Minha consciência (de que o que todos os seres humanos naturalmente merecem seja o inferno) não me permite entender que qualquer coisa boa que me sobrevenha eu tenha sido capaz de gerar por mim mesma. Entendo também que o texto bíblico utilizado de forma generalizada para embasar a ideia de que colhemos o que plantamos tem sido interpretado fora de seu contexto e de maneira equivocada por muitos. Assim, entendo que tudo o que é bom e/ou proveitoso é resultado única e exclusivamente da graça de Deus sobre nós.
20. Corremos o risco de tentar gerenciar a obra e a missão de Deus. Isso quando tentamos controlar o que e como Deus faz as coisas na vida de outras pessoas, também na tentativa de reproduzirmos o que nos acontece em outrem. Porém isso pode cegar nosso entendimento quanto à multiforme graça de Deus e o tratar personalizado na vida de cada um. Ao tentar determinar como e quando as pessoas devem agir em sua vida diária em seu ministério, tento me colocar no lugar de Deus ou como gerente de Sua ação. Nesse sentido, ainda que justifiquemos que estamos cuidando uns dos outros, a linha tênue entre cuidado e controle pode ser ultrapassada, causando um grande equívoco em nossa verdadeira vocação e podendo arruinar e oprimir a vida de outras pessoas.
21. Discordar não significa não saber ser contrariado.
22. Nenhuma autoridade está acima da lei.
Puxa! 2016 foi um ano de muitas lições. Com certeza ainda tenho muito a aprender. Talvez eu mude de ideia, talvez não. O mais importante é não ficar parado, buscar o aprendizado, nunca deixar de caminhar.
Tenham um feliz ano novo!
Grande abraço
Angela Natel
www.facebook.com/angelanatel.escritora

Pronta para uma nova vida!


Com a aproximação da virada de mais um ano somos conduzidos pelos canais televisivos a acompanhar retrospectivas do ano que passou e previsões para o próximo. Apesar de muita coisa ter nos acontecido e esperarmos tanto para os dias que virão, creio que o mais propício para nós seja tomarmos um tempo de gratidão a Deus por termos chegado até aqui e, ao mesmo tempo, deixar a ansiedade e a preocupação de lado para descansar na expectativa das surpresas que nos aguardam em 2017.
Mais do que previsões e planos, desejo estar bem e preparada para ser cada vez mais parecida com Cristo em minha vida, atitudes e posturas para com meus relacionamentos.
De nada adianta sair, pregar, ensinar e proclamar a mensagem do Evangelho e da libertação em Cristo se não me prontifico a refletir seu amor nos pequenos gestos e relacionamentos que cultivo no dia-a-dia. Aqueles que nos são mais próximos acabam por ser o termômetro de nossa disposição em refletir Cristo ao mundo. Com esse pensamento, podemos indagar até que ponto nossos familiares e amigos mais chegados percebem atitudes como as de Cristo em nós? Será que temos deixado água na boca daqueles que conosco interagem para que desejem conhecer Aquele que tem nos transformado? Ou apenas temos sido um barulho incômodo que de nada serve além de um mau testemunho, uma pregação desconexa com nossa realidade?
Por isso, apesar dos inúmeros desafios que temos pela frente, das frustrações e perdas que tivemos de enfrentar no ano que passou, dos planos que inevitavelmente passarão por nossa mente, que nos dobremos ante nossas limitações, nos arrependamos das posturas egoístas e insensatas para com aqueles que nos cercam. É preciso que desçamos do nosso pedestal, reconhecendo que em nada somos melhores do que qualquer outra pessoa, independentemente de sua condição. A partir disso, nos será possível olharmos nos olhos do outro e compartilharmos do Pão do céu que diariamente tem nos alimentado, nos será possível ouvir o outro com atenção mais do que simplesmente tentando rebater sua fala, será possível, como Cristo, tomarmos o fardo pesado que oprime nosso semelhante e com ele compartilhar nosso descanso.
Sim, que estejamos abertos para a novidade, mas também para a simplicidade da rotina que temos ignorado. Que estejamos prontos para perder tudo por amor a Cristo, e repartir o que Ele tem nos dado a todo o necessitado que surgir em nosso caminho. Não tenhamos medo de perder, de chorar, de sofrer ou sentir dor. Que nosso maior medo seja o de permanecermos os mesmos, indiferentes ao outro, presos em nossas desculpas.
É por isso que me levanto neste fim de 2016 grata a Deus por cada passo da caminhada até aqui, temerosa em perder lições fundamentais do esculpir do caráter de Cristo em mim e na expectativa de poder me gastar, repartir e me doar cada vez mais a todos os que eu encontrar pelo caminho, até que eu não seja mais encontrada em mim.
Que nossa nova vida diária seja reconhecida como uma verdadeira bênção a todos os que nos cercam, para a glória de Cristo Jesus.
Feliz vida nova, amigos.
Angela Natel

Não sou uma boa menina


Acho que não tenho sido uma boa menina...
Tenho sido a menina má da Teologia,
provocado a ira e a indignação dos acomodados.
Tenho saído constantemente de minha caixinha
E dado voz aos marginalizados.
É, não tenho sido uma boa menina,
mas não se preocupe em trazer-me um presente
Porque meu prazer está em presentear
aquele que nos discursos religiosos se faz ausente.
Na verdade, não quero ser uma boa menina,
contanto que deixe um pedaço de mim
na vida e no coração dos que eu encontrar.
Em Cristo minha vida encontra seu fim
Seu amor e graça importa eu revelar.
Angela Natel - 24/12/2016


Quando o Natal é todo dia



Realmente temos alguma razão para tratar o Natal com tanta diferença de outras datas como estamos acostumados a fazer?
Será que temos bases suficientes para combater o consumismo nessa época e rebatermos qualquer mensagem ou personagem que tome o lugar da pessoa de Cristo no centro das celebrações natalinas?
Perguntas que me chegam à mente nestes dias que antecedem as comemorações de fim de ano, em meio ao trabalho, ao cansaço de um ano repleto de mudanças e muitas incertezas pela frente.
Como cristã, creio ser inútil defender uma mensagem de paz, esperança, luz, comunhão, perdão e salvação nessa época se não o fazemos durante todo o ano, no dia-a-dia, da mesma maneira que qualquer demonstração de preocupação para com a vida alheia num momento específico – seja num momento extremo ou apenas por causa de uma festa – enquanto se vive como se o outro não existisse no resto do tempo.
Outra questão é a atitude de reverência inusitada que surge por causa de uma data que - sabido dos que conhecem as Escrituras – não difere em nada das demais. Entendo o valor da cultura e da tradição, principalmente como metodologia de ensino, porém não deixa de parecer hipocrisia tentar corrigir a reverência do outro mesmo que isso possa ferí-lo ou afastá-lo. Muito se fala em nome da verdade sem que haja compreensão e sensibilidade, porém o que se vê é pouco de Cristo nas atitudes que se mostram.
Com isso, quero te convidar a refletir comigo sobre a pessoa de Jesus Cristo, a razão de nossa existência e trabalho, por quem vivemos, a quem dobramos todas as certezas que podemos obter. Cristo, o autor e consumador de nossa fé, a razão de estarmos onde estamos, de recebermos de Deus a graça e a misericórdia de que necessitamos.
E essa graça e misericórdia é o que precisamos viver e compartilhar todos os dias do ano, em cada palavra, mensagem e atitude. Cristo, ao andar por essa terra, olhava para as pessoas e transmitia mais do que uma mensagem: Ele era a mensagem, a aceitação de Deus, o olhar de misericórdia, a vida que poderia saciar a sede de todo e qualquer que dEle se aproximasse. Que desafio ser como Cristo!
De que vale o trabalho, o ministério, a empatia, o serviço, se o trato com o outro não reflete a mão estendida de Cristo? Que mérito uma grande obra pode trazer, que alegria a realização de um grande ministério pode gerar se não poderia estar mais distante da imagem de Cristo que precisamos refletir?
É por isso que mais uma vez desejo me aquietar nestes dias de tanta agitação, e escolho olhar para Jesus, de quem procedem as fontes da vida eterna, para dEle receber a compreensão, o alívio e o descanso de que tanto necessito. Olho para Jesus e sou salva, salva de mim mesma, de minhas decepções, das rejeições e tristezas que me acometeram durante o ano, dos erros e impotências que inevitavelmente afloraram em minha caminhada.
É por isso que não consigo boicotar Papai Noel, principalmente porque tenho consciência de que de forma alguma ele poderia ser uma ameaça ao centro da mensagem do evangelho, que é a pessoa de Jesus Cristo. Não é possível tal competição, não há o que possa ofuscar Sua verdadeira obra em nossa vida, obra tal que pode ser percebida todos os dias do ano, e não apenas em dezembro.
Que privilégio não estarmos presos a um calendário para podermos viver e refletir tão preciosa salvação! Que Jesus Cristo continue sendo engrandecido, seja em nossa vida, seja em nossa morte, em meio a alegrias e sofrimentos, com dúvidas ou certezas, e que aqueles que nos cercam percebam Sua vida, atitudes e presença todos os dias do ano em nós, para a glória única e exclusiva de Deus.
Feliz Natal, queridos!
Angela Natel – 22/12/2016.