Já que, neste fim de semana, celebra-se a suposta
ressurreição de um sábio itinerante vindo de uma província do Império Romano,
nada mais justo do que lembrar um colega que, com o passar dos séculos,
tornou-se menos popular do que Jesus de Nazaré.
A maioria das pessoas que reconhece o nome “Apolônio de
Tiana” provavelmente deve se lembrar dele como uma das atrações do circo mágico
que aparece no filme ‘As Sete Faces do Dr. Lao’, onde Apolônio é um
vidente amaldiçoado com dom de ver o futuro e descrevê-lo como realmente será –
não como seus clientes gostariam que fosse.
Antes de ser apropriado pelo cinema, no entanto, Apolônio
tinha sido um sábio da tradição pitagórica, que viveu mais ou menos na mesma
época de Jesus (se Jesus, de fato, existiu) e que chegou a ser considerado, nos
primeiros séculos do cristianismo, como um concorrente do messias.
Assim como os apóstolos de Cristo, Apolônio percorreu as
províncias orientais do Império Romano realizando milagres, curando os doentes,
exorcizando demônios e pregando caridade, amizade e piedade.
No que algumas pessoas do mundo moderno provavelmente
considerarão um ponto de superioridade ética em relação à pregação cristã,
Apolônio se opunha à morte de animais, ao consumo de carne e ao uso de roupas
de pele ou couro. Num tempo em que o sacrifício de animais aos deuses era
comum, ele defendia que as oferendas se limitassem materiais como mel e
incenso.
Acusado de traição pelos romanos, foi preso e julgado.
Depois de morto, seu corpo desapareceu e ele foi visto e conversou com
discípulos, antes de ascender aos céus.
Assim como nas narrativas sobre Jesus – cuja vida só é
conhecida por meio dos Evangelhos, escritos décadas após sua morte, por pessoas
que não tinham sido testemunhas oculares dos eventos – Apolônio só é conhecido
por uma biografia escrita cerca de um século após sua morte, de autoria do
sofista Lúcio Flávio Filostrato, ou Filostrato de Atenas.
A comparação entre Jesus e Apolônio sempre incomodou os
cristãos, por um lado, e deu munição aos críticos do cristianismo, por outro.
O bispo Eusébio de Cesareia, que viveu entre o final do
século III e o início do IV, produziu um tratado em ataque ao livro de
Filostrato. Por sua vez, Edward Gibbon, em sua monumental história do Império
Romano, escrita no século XVIII, diz em uma nota de rodapé que “Apolônio de
Tiana nasceu mais ou menos ao mesmo tempo que Jesus Cristo. Sua vida (como a de
Jesus) é narrada de forma tão fabulosa por discípulos fanáticos que não temos
como saber se era um sábio ou um impostor”.
A primeira tentativa de se traduzir a biografia escrita
por Filostrato, A Vida de Apolônio de Tiana, para o inglês foi
realizada no século XVII e “foi considerada (...) tão ofensiva para a religião
cristã que acabou rapidamente suprimida”. A primeira edição finalmente
publicada, em 1809, saiu repleta de notas de rodapé, onde clérigos da Igreja
Anglicana se esforçam para expor Apolônio, e os milagres atribuídos a ele, ao
ridículo e a tratar todo paralelo com a vida de Jesus como injusto ou
desonesto.
De todas as maravilhas atribuídas a Apolônio por
Filostrato, o poder de estar em dois lugares ao mesmo tempo – ou de desaparecer
de um local e aparecer imediatamente em outro – é a que se manifesta mais
vezes.
O mais espetacular teletransporte descrito por Filostrato
teria ocorrido durante o julgamento de Apolônio em Roma, diante da corte do
imperador Domiciano, que reinou de 81 a 96. De acordo com o biógrafo,
impedido de apresentar, na íntegra, seu discurso de defesa, Apolônio
desmaterializou-se diante do imperador pela manhã e apareceu, antes no
anoitecer, numa cidade localizada a três dias de viagem da capital.
A crítica cristã, tal como anexada à edição de 1809 (e
que soa perfeitamente razoável), é de que um desaparecimento tão maravilhoso,
diante da nata da elite romana, certamente teria sido registrado por outras
fontes. O mesmo, no entanto, pode ser dito dos fenômenos extraordinários que,
segundo Mateus e Lucas, seguiram-se à morte de Jesus.
É interessante notar que um tipo semelhante de milagre –
a bilocação, ou capacidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo – não é de
todo desconhecido na tradição cristã. Na Quinta-Feira Santa de 1226, Santo
Antônio de Pádua (que, a despeito da apelação italiana, era português) foi
visto rezando simultaneamente em dois pontos diametralmente opostos da cidade
francesa de Limoges: num monastério e na igreja Saint Pierre de Queyroix.
Um terceiro milagre de Apolônio foi testemunhar em Éfeso,
na Ásia Menor, o assassinato de Domiciano no instante em que era cometido, em
Roma. Nas palavras de Filostrato:
Apolônio estava caminhando e debatendo entre as árvores
(...) Primeiro, sua voz diminuiu, como se algo o alarmasse; ele então continuou
a conversar, mas num tom mais baixo que o normal, como uma pessoa cujos pensamentos
tratam de algo diverso do que se está falando; por fim, ficou em silêncio, como
se tivesse perdido o fio da conversa. Então, fixando os olhos firmemente na
terra, e avançando três ou quatro passos, gritou, “Ataque o tirano” – “Ataque –”
e isso fez, não como alguém que vê uma imagem num espelho, mas que literalmente
vê o feito, como se estivesse promovendo-o. Toda Éfeso ficou espantada com o
que ouvia (pois todos estavam presentes ao debate). Mas Apolônio, parando por
algum tempo, como quem aguarda o resultado de uma ação duvidosa, por fim
proclamou: “Alegrem-se, ó efésios! Pois neste dia o tirano é morto; e por que
digo eu, neste dia? Neste exato momento, enquanto as palavras estão em minha
boca, juro por Minerva, o feito se cumpriu”; depois disso, silenciou.
Por fim, resta a aparição de Apolônio ressuscitado aos
discípulos, após sua morte. Ela é narrada no capítulo XXXI do oitavo e último
livro da obra de Filostrato. Um neopitagórico, Apolônio acreditava da
imortalidade da alma e na reencarnação.
No entanto, após sua morte, um jovem discípulo passou a
duvidar da doutrina da imortalidade; e passou dez meses rezando para que a alma
de Apolônio lhe aparecesse e o convencesse da verdade. Sem que a prece fosse
atendida, o rapaz passou a tomar parte em debates argumentando contra a tese da
alma imortal.
Apolônio, então, teria aparecido para esse jovem,
enquanto ele se encontrava em meio a outros discípulos, causando sua imediata
conversão. Nenhum dos demais discípulos chegou a vê-lo, mas o discurso que o
jovem fez, transmitindo as palavras que Apolônio lhe revelava, foi tão
brilhante que todos se convenceram da presença do mestre.
O que fica sem ser dito é que um dos mais importantes
relatos de aparição do Cristo ressuscitado – o transe de Paulo a caminho de Damasco
– não é muito diferente da epifania do discípulo de Apolônio.
Fonte: http://carlosorsi.blogspot.com/2011/04/brinde-de-pascoa-ressurreicao-de.html
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