sexta-feira, 15 de setembro de 2023

O binarismo é uma questão de fé.

 


A obsessão em transformar as partes em um todo coerente é central na tradição eurocristã hegemônica (embora também possa estar presente, de outras formas, em outras narrativas).
Essa vontade por estabilidade e imutabilidade cria a necessidade de um deus com essas características (supostamente perfeitas) que faltariam aos humanos (imperfeitos).
Essa busca tenta dar um sentido transcendental à existência, como se juntas, as partes obedecessem a um todo coerente que as organizasse.
É uma vontade que é fruto da dificuldade de sustentar a falta desse sentido, a falta de uma ordem, origem, destino, justiça ou predestinação.
E nisso se tenta acreditar que "tudo ocorre por um motivo" que estaria por trás e para além da compreensão humana.
Isso parece mais fácil que cogitar e afirmar que o sentido das coisas e do mundo, se é que existe, não é centrado no humano e muito menos é único.
Quando falamos sobre as identidades hegemônicas de gênero, acontece algo parecido.
Somos ensinados a congregar características físicas, comportamentais, etc. como pertencentes ao que seria masculino e outras que seriam referentes ao feminino.
Há alguns esforços em movimentar essas partes, dizendo que a cor rosa, por exemplo, não é apenas feminina, mas também masculina - que cabelos longos podem ser masculinos, etc. Mas ainda persiste a mesma rotulação.
Quando afirmo que não acredito nessa ideia de masculino e feminino, alguns argumentam: então você não acredita que exista esse e aquele comportamento?
E não se trata de negar a existência de preferências, atos, etc, mas de negar a conclusão de que essas particularidades seriam composições de um grande todo que lhes daria sentido (masculinidade/feminilidade).
Afirmar as partes sem o todo a que corresponderiam é uma maneira de não ser fiel à ideia de identidade, que faria justamente essa união.
Como diz Alberto Caeiro, creio que existam árvores, rios, matas, mas não acredito que exista natureza, como um todo que lhes dá sentido.
Recusar a ideia de todo explode o criacionismo e a necessidade de um todo/deus que lhes dê sentido prévio e pronto. Isso não é negar as diferenças, mas expandi-las.
Que sua fé seja laica.

Geni Nuñez - @genipapos no Instagram
Assista a live “Descatequizar para descolonizar”, com Geni Nuñez em meu canal no Youtube (Angela Natel) -
https://www.youtube.com/watch?v=mhtXVH-kO3I&t=2113s


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O binarismo é uma questão de fé.

 


A obsessão em transformar as partes em um todo coerente é central na tradição eurocristã hegemônica (embora também possa estar presente, de outras formas, em outras narrativas).
Essa vontade por estabilidade e imutabilidade cria a necessidade de um deus com essas características (supostamente perfeitas) que faltariam aos humanos (imperfeitos).
Essa busca tenta dar um sentido transcendental à existência, como se juntas, as partes obedecessem a um todo coerente que as organizasse.
É uma vontade que é fruto da dificuldade de sustentar a falta desse sentido, a falta de uma ordem, origem, destino, justiça ou predestinação.
E nisso se tenta acreditar que "tudo ocorre por um motivo" que estaria por trás e para além da compreensão humana.
Isso parece mais fácil que cogitar e afirmar que o sentido das coisas e do mundo, se é que existe, não é centrado no humano e muito menos é único.
Quando falamos sobre as identidades hegemônicas de gênero, acontece algo parecido.
Somos ensinados a congregar características físicas, comportamentais, etc. como pertencentes ao que seria masculino e outras que seriam referentes ao feminino.
Há alguns esforços em movimentar essas partes, dizendo que a cor rosa, por exemplo, não é apenas feminina, mas também masculina - que cabelos longos podem ser masculinos, etc. Mas ainda persiste a mesma rotulação.
Quando afirmo que não acredito nessa ideia de masculino e feminino, alguns argumentam: então você não acredita que exista esse e aquele comportamento?
E não se trata de negar a existência de preferências, atos, etc, mas de negar a conclusão de que essas particularidades seriam composições de um grande todo que lhes daria sentido (masculinidade/feminilidade).
Afirmar as partes sem o todo a que corresponderiam é uma maneira de não ser fiel à ideia de identidade, que faria justamente essa união.
Como diz Alberto Caeiro, creio que existam árvores, rios, matas, mas não acredito que exista natureza, como um todo que lhes dá sentido.
Recusar a ideia de todo explode o criacionismo e a necessidade de um todo/deus que lhes dê sentido prévio e pronto. Isso não é negar as diferenças, mas expandi-las.
Que sua fé seja laica.

Geni Nuñez - @genipapos no Instagram
Assista a live “Descatequizar para descolonizar”, com Geni Nuñez em meu canal no Youtube (Angela Natel) -
https://www.youtube.com/watch?v=mhtXVH-kO3I&t=2113s