terça-feira, 19 de setembro de 2023

A falta de resposta (ou sua demora): perspectivas para além da moralização.

 


Certamente há casos em que a não resposta ou a demora dela são atitudes marcadas por negligência emocional, falta de cuidado com o outro e afins.
Mas não me parece que afirmar que todos os casos ocorram dessa forma seja uma homogeneização justa.
Em relações abusivas, por exemplo, quando uma pessoa consegue deixar de responder, escutar ou interagir com o agressor, esse pode ser um grande passo em prol de sua própria saúde.
Sobretudo quando quem demanda essas respostas ocupa um lugar de poder (familiar, inclusive).
Há muitos casos em que a resposta que o outro pede já foi dita inúmeras vezes, mas como não foi a esperada, foi ativamente ignorada.
Diante disso, por não se sentir escutada das tantas vezes que explicou, a pessoa pode se sentir cansada e exausta de continuar nesse ciclo e finalmente consegue dar um basta neste desgaste sem fim.
Para quem afirma que toda demora de resposta ou ausência dela é um inequívoco sinal de falta de responsabilidade e individualismo, resta pensar se essa exigência, em alguns casos, não pode ser, também, sintoma desse mesmo problema.
Não me espantaria se, em outro cenário, essas pessoas fossem favoráveis a punições como multas e afins, caso não fossem respondidas quando e como quisessem.
Para estes, as relações amorosas se assemelham a serviços sobre os quais eles teriam legítimo direito de exigência de prestração de contas.
O fato é que, independente do motivo ser considerado justo ou não, haverá situações em que o outro não irá nos responder, ou não o fará da maneira como gostaríamos.
E nesse ponto, talvez seja mais pertinente um fortalecimento (coletivo) para termos as atitudes necessárias para nossa saúde, muito mais do que tentar convencer ou demover o outro de seu posicionamento.
O silêncio pode já ser um tipo de resposta, sim, mas há que se ter cuidado em preencher pelo outro o que ele não disse, afinal, a gente só sabe de si (e olhe lá).
Para seguir, às vezes é necessário parar de tentar descobrir todos os sentidos, não para inocentar o outro, mas para acolher a si mesmo.
A chantagem só funciona se a gente paga o resgate.

Geni Nuñez - @genipapos no Instagram
Assista a live “Descatequizar para descolonizar”, com Geni Nuñez em meu canal no Youtube (Angela Natel) -
https://www.youtube.com/watch?v=mhtXVH-kO3I&t=2113s


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A falta de resposta (ou sua demora): perspectivas para além da moralização.

 


Certamente há casos em que a não resposta ou a demora dela são atitudes marcadas por negligência emocional, falta de cuidado com o outro e afins.
Mas não me parece que afirmar que todos os casos ocorram dessa forma seja uma homogeneização justa.
Em relações abusivas, por exemplo, quando uma pessoa consegue deixar de responder, escutar ou interagir com o agressor, esse pode ser um grande passo em prol de sua própria saúde.
Sobretudo quando quem demanda essas respostas ocupa um lugar de poder (familiar, inclusive).
Há muitos casos em que a resposta que o outro pede já foi dita inúmeras vezes, mas como não foi a esperada, foi ativamente ignorada.
Diante disso, por não se sentir escutada das tantas vezes que explicou, a pessoa pode se sentir cansada e exausta de continuar nesse ciclo e finalmente consegue dar um basta neste desgaste sem fim.
Para quem afirma que toda demora de resposta ou ausência dela é um inequívoco sinal de falta de responsabilidade e individualismo, resta pensar se essa exigência, em alguns casos, não pode ser, também, sintoma desse mesmo problema.
Não me espantaria se, em outro cenário, essas pessoas fossem favoráveis a punições como multas e afins, caso não fossem respondidas quando e como quisessem.
Para estes, as relações amorosas se assemelham a serviços sobre os quais eles teriam legítimo direito de exigência de prestração de contas.
O fato é que, independente do motivo ser considerado justo ou não, haverá situações em que o outro não irá nos responder, ou não o fará da maneira como gostaríamos.
E nesse ponto, talvez seja mais pertinente um fortalecimento (coletivo) para termos as atitudes necessárias para nossa saúde, muito mais do que tentar convencer ou demover o outro de seu posicionamento.
O silêncio pode já ser um tipo de resposta, sim, mas há que se ter cuidado em preencher pelo outro o que ele não disse, afinal, a gente só sabe de si (e olhe lá).
Para seguir, às vezes é necessário parar de tentar descobrir todos os sentidos, não para inocentar o outro, mas para acolher a si mesmo.
A chantagem só funciona se a gente paga o resgate.

Geni Nuñez - @genipapos no Instagram
Assista a live “Descatequizar para descolonizar”, com Geni Nuñez em meu canal no Youtube (Angela Natel) -
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