A fixação em
cenas pode acontecer em muitos contextos e de muitas formas, algumas podem ser
resultado de adoecimentos, outras não.
Na paixão, por exemplo, é comum que algumas cenas sejam mais revisitadas que
outras, em uma repetição que pode ser bastante prazerosa. A depender de nossa
edição, roteiro e trama, colocamos zoom em algum olhar, som, sorriso, sensação.
Como se curadores de uma exposição particular, colocamos ao longo de nossa
memória a seleção das cenas que mais nos marcaram.
Também quando passamos por alguma violência é comum que a repetição de
determinadas cenas nos atordoe e angustie, como se estivéssemos em um labirinto
sem saída.
Para conseguir sair desse tipo de fixidez em muitos casos precisaremos de
ajuda, de apoio e amparo.
É importante nos lembrarmos que, ao contrário da fixação nas cenas, sejam quais
forem, nossa saúde está no movimento.
Há melodia antes e depois do trecho que o pensamento insiste em reprisar da
mesma música, há outras versões, há outras músicas possíveis.
A fixação em um certo tempo, cena ou pessoa é um lembrete de que algo ali
enroscou nossos pés de seguir o caminho.
E uma elaboração, um trabalho cuidadoso nos auxilia a acolher nossas pausas.
Assim como o artista que, diante de dezenas de quadros seleciona apenas alguns
para sua mostra, que a gente possa retornar para o compilado de memórias de
nossas vidas e observar se dentre aquilo que descartamos não há também coisas
bonitas.
Se ali onde colocamos ênfase em nossa insuficiência não há também registros do
quanto fizemos a partir do que nos era possível.
Reescrever nossas trajetórias, relações e histórias à luz de outras
perspectivas não apaga nem anula as violências vividas, mas pode nos trazer
vias que não sejam tão marcadas pela culpa e pelo ressentimento.
Que em lugar das fixações, consigamos fazer pausas pelo caminho, admirando,
ponderando, lamentando, sentindo, mas permitindo seguir em movimento.
Amores não estáticos convidam sempre ao movimento. Que possamos recontar nossas
historias partindo de outros lugares.
Era uma vez... duas vezes, quantas forem.
Geni Nuñez -
@genipapos no Instagram
Assista a live “Descatequizar para descolonizar”, com Geni Nuñez em meu canal
no Youtube (Angela Natel) -
https://www.youtube.com/watch?v=mhtXVH-kO3I&t=2113s

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