No início das relações amorosas é comum que se busque coincidências entre as pessoas. Quando encontradas, são muito festejadas como um tipo de confirmação:
- Você também gosta de café sem açúcar?!
- Nossa, esse era meu desenho favorito de infância!
- Eu também odiava fazer as aulas de educação física! Você também adorava as aulas de literatura?
- Você também amava aquela artista antes dela ser tão famosa?
- Bem na hora da sua mensagem eu estava pensando em você!
É como se na busca do (re)encontro perfeito, essas situações fossem comprovações de que se está seguindo o caminho certo, seja pela concordância, seja pelo seu oposto (a semelhança pela oposição).
Talvez encontrar no outro essas coincidências nos ajude também a ter mais carinho pelos nos próprios gostos e desgostos, uma vez que se alguém tão maravilhoso também tem as mesmas percepções, isso deve dizer algo positivo de nós mesmos.
Ignorando as tantas outras vezes em que se pensou na pessoa e não houve mensagem, esquecendo que um gosta do café sem açúcar mais fraco e outro mais forte, etc. o que vamos percebendo é que em cada semelhança também há um série de diferenças.
E que mais do que o destino, somos nós que fazemos esse fio de identificação acontecer.
E, não fossem as barreiras sociais, com muitas, muitas pessoas poderíamos ter algo em comum (em semelhança ou oposição) para construir uma narrativa, um laço.
"Vi tal coisa e lembrei de você", dissemos.
Mas não há nada no café, no vento, na música que, em si, nos faça associá-los a outras pessoas.
Quem fortalece esse fio de relações também são nossos afetos.
E é por isso que cada relação vai ter sua própria gramática, sua própria trilha sonora, aroma e textura.
Talvez amar seja a gente fazer esse tipo de bordado no cotidiano, juntando e afastando memórias, desejos e sonhos - um laço que acontece desde que haja um interesse em ajuntar pontas para fazer desse emaranhado uma rede, um desenho conjunto.
Daí o que antes era quase que tão somente um apanhado de coincidências, passa a ser um ativo desejo de construir memórias compartilhadas.
Que possamos convidar a quem amamos:
quer viver as coincidências comigo?
Geni Nuñez - @genipapos no Instagram
Assista a live “Descatequizar para descolonizar”, com Geni Nuñez em meu canal no Youtube (Angela Natel) -
https://www.youtube.com/watch?v=mhtXVH-kO3I&t=2113s

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