terça-feira, 11 de abril de 2023

Marcos Bagno sobre linguagem neutra

 


1) Até o séc. 16 existia em português o adjetivo “dino”, escrito assim e pronunciado assim. Em dado momento, porém, filólogos e outros humanistas, querendo reaproximar o português do latim, passaram a escrever “digno”, com um “g” que tinha desaparecido ao longo do tempo. Com isso, o que era mero enfeite gráfico se transformou em pronúncia real, de modo que até hoje pronunciamos “digno” (ou, melhor “díguinu”), com um “g” bem audível. E é a única forma admitida pela norma. A grafia, portanto, gerou um fato fonético.

2) Por alguma razão misteriosa, talvez para se diferenciar do sempre temido espanhol, os grafólogos e gramáticos portugueses impuseram a letra “m” no final das palavras, em lugar do “n”. Sabemos que esse “m” final não se pronuncia, servindo apenas como elemento de um dígrafo que representa, de fato, uma vogal nasal. Assim, o numeral “um” se pronuncia [ũ]. Na forma do feminino, porém, “uma”, cuja pronúncia deveria ser [ũa] (como é em galego e em muitas variedades nordestinas), o “m” é pronunciado, por mera servidão à forma escrita. De novo, a grafia gerou um fato fonético. (Vejam, porém, o comentário de Xoán Carlos Lagares abaixo a respeito deste fenômeno.)

3) Em inglês, até por volta do séc. 16, existia a palavra “luve”. Para que não se confundissem, na escrita manual, o “u” e o “v”, passou-se a escrever “love”. O que era um simples artifício gráfico gerou, mais uma vez, uma palavra nova com nova fonação.

4) Até dada época da história do português existiam construções deste tipo: “El-Rei tem conquistadas muitas terras”. O sentido da frase era: “O rei possui muitas terras que foram conquistadas por ele”. Aos poucos, no entanto, os falantes foram interpretando a locução “ter + particípio passado” como um novo tempo verbal, uma forma de passado, porque para que o rei possua as terras elas tiveram de ser conquistadas no passado. Essa reanálise acabou sendo absorvida pela tradição normativa, que reconheceu o surgimento de um novo tempo verbal. A pressão do uso sobre o sistema provocou uma reformulação da norma, e a forma sem concordância com o particípio (concordância que até hoje existe em francês e italiano) é a única aceita e a única, de fato, usada.

5) No português europeu, até recentemente, existiam verdadeiras letras “mudas”, que não eram pronunciadas, mas serviam como indicadoras de que a vogal precedente era aberta. Assim, por exemplo, “adoptar” se pronunciava “adòtar”. Com o Acordo Ortográfico 90, esse “p” (e outras consoantes mudas) foi eliminado, se passou a escrever “adotar” (como no Brasil). Algumas pessoas, no entanto, já começam a pronunciar “adutar” (e não mais “adòtar”) porque, no português europeu, na grande maioria dos casos, o “o” átono se pronuncia “u”. Temos aqui uma intervenção consciente, a reformulação ortográfica, que está levando a uma provável alteração nas regras fonéticas (e até fonológicas) da língua.

6) Tal como no primeiro exemplo, os humanistas portugueses do Renascimento, querendo reaproximar o latim do português, impuseram as formas “flauta”, “planta”, “floco” onde eram mais comuns “frauta”, “pranta” e “froco” (assim aparecem n’Os Lusíadas, por exemplo). Hoje, as formas “frauta”, “pranta” e “froco” são consideradas “erradas”, fala de gente sem instrução, embora ainda aparecessem em textos escritos formais no séc. 19. De novo, uma intervenção consciente gerou novos fatos fonéticos.

7) Em diversas culturas linguísticas, os nomes das entidades sobrenaturais (boas ou más) são evitados, seja por dogma religioso (“não usarás o nome de Deus em vão”) ou para impedir malefícios. Assim, por exemplo, no Brasil, temos os eufemismos “diacho”, “desgrama” e “azeite”, para não dizer “diabo”, “desgraça” e “azar”. Em inglês, temos “Gosh” e “Jeez” para “God” e “Jesus”, além de outros. Em francês, a exclamação “parbleu!” em lugar de “par Dieu!”. São os eufemismos e os tabus linguísticos, muito estudados pelos antropólogos. Em inúmeras culturas tradicionais ameríndias, africanas, asiáticos e oceânicas há palavras que só podem ser ditas uma vez por ano, ou só por homens (tendo as mulheres que substituí-las por outras) etc. São usos coletivos, mas exigem uma consciência clara das proibições.

No espírito do “politicamente correto”, diversas palavras e expressões têm deixado de ser conscientemente usadas por causa de seu caráter (supostamente) ideológico indicador de opressão, discriminação etc. Recentemente, por exemplo, muitas pessoas deixaram de dizer “escravo”/“escrava” e passaram a usar (eu mesmo) “escravizado”/“escravizada”. São incontáveis os exemplos. Mas cito mais um: o povo tradicionalmente chamado “cigano” agora é chamado “rom” (plural “roma”), por causa da forte carga pejorativa que pesa sobre “cigano” há séculos.

Os exemplos acima mostram intervenções conscientes (aquilo que a linguista inglesa Deborah Cameron chama de “higiene verbal”) na língua. No caso das prescrições vindas do alto (academias, gramáticos etc.), é a posição hierárquica superior que levou ao sucesso dessas intervenções. Nos eufemismos, é a força da religião. Se as soluções atualmente propostas para uma linguagem inclusiva, não-sexista, terão sucesso ou não, tudo depende das dinâmicas sociais. Mulheres, pessoas negras, LGBTQI+, indígenas etc. estivemos sempre em posição subalterna, debaixo do tacão da dominância masculina, branca e (supostamente) heterossexual. Por isso, para muita gente, as propostas de linguagem inclusiva são “aberrações”, “irracionalidades”, “inutilidades” etc. Mas quando um professor de português branco famoso na mídia diz que o certo é “alugam-se salas” e não “aluga-se salas”, todo mundo se prostra e corre para obedecer. Tudo depende, enfim, de quem diz o quê e a quem, do lugar que a pessoa que fala ocupa na ordem do discurso (um conceito que acho mais interessante do que o enxovalhado “lugar de fala”). Se essa pessoa é mulher, negra, indígena, pobre, LBGTQI+ etc., seu lugar nessa ordem não lhe permite lançar propostas que sejam de imediato aceitas por todo mundo. Afinal, não basta ter o que dizer: é preciso poder dizer.

Texto de Marcos Bagno

Fonte: https://www.facebook.com/100000237745159/posts/pfbid0gHLf1qTQcfWqroABPT5fvsr52jmmXrJBTRhfDwi9NykMaep2mxQxhMCk4PbPSdBhl/?app=fbl


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Marcos Bagno sobre linguagem neutra

 


1) Até o séc. 16 existia em português o adjetivo “dino”, escrito assim e pronunciado assim. Em dado momento, porém, filólogos e outros humanistas, querendo reaproximar o português do latim, passaram a escrever “digno”, com um “g” que tinha desaparecido ao longo do tempo. Com isso, o que era mero enfeite gráfico se transformou em pronúncia real, de modo que até hoje pronunciamos “digno” (ou, melhor “díguinu”), com um “g” bem audível. E é a única forma admitida pela norma. A grafia, portanto, gerou um fato fonético.

2) Por alguma razão misteriosa, talvez para se diferenciar do sempre temido espanhol, os grafólogos e gramáticos portugueses impuseram a letra “m” no final das palavras, em lugar do “n”. Sabemos que esse “m” final não se pronuncia, servindo apenas como elemento de um dígrafo que representa, de fato, uma vogal nasal. Assim, o numeral “um” se pronuncia [ũ]. Na forma do feminino, porém, “uma”, cuja pronúncia deveria ser [ũa] (como é em galego e em muitas variedades nordestinas), o “m” é pronunciado, por mera servidão à forma escrita. De novo, a grafia gerou um fato fonético. (Vejam, porém, o comentário de Xoán Carlos Lagares abaixo a respeito deste fenômeno.)

3) Em inglês, até por volta do séc. 16, existia a palavra “luve”. Para que não se confundissem, na escrita manual, o “u” e o “v”, passou-se a escrever “love”. O que era um simples artifício gráfico gerou, mais uma vez, uma palavra nova com nova fonação.

4) Até dada época da história do português existiam construções deste tipo: “El-Rei tem conquistadas muitas terras”. O sentido da frase era: “O rei possui muitas terras que foram conquistadas por ele”. Aos poucos, no entanto, os falantes foram interpretando a locução “ter + particípio passado” como um novo tempo verbal, uma forma de passado, porque para que o rei possua as terras elas tiveram de ser conquistadas no passado. Essa reanálise acabou sendo absorvida pela tradição normativa, que reconheceu o surgimento de um novo tempo verbal. A pressão do uso sobre o sistema provocou uma reformulação da norma, e a forma sem concordância com o particípio (concordância que até hoje existe em francês e italiano) é a única aceita e a única, de fato, usada.

5) No português europeu, até recentemente, existiam verdadeiras letras “mudas”, que não eram pronunciadas, mas serviam como indicadoras de que a vogal precedente era aberta. Assim, por exemplo, “adoptar” se pronunciava “adòtar”. Com o Acordo Ortográfico 90, esse “p” (e outras consoantes mudas) foi eliminado, se passou a escrever “adotar” (como no Brasil). Algumas pessoas, no entanto, já começam a pronunciar “adutar” (e não mais “adòtar”) porque, no português europeu, na grande maioria dos casos, o “o” átono se pronuncia “u”. Temos aqui uma intervenção consciente, a reformulação ortográfica, que está levando a uma provável alteração nas regras fonéticas (e até fonológicas) da língua.

6) Tal como no primeiro exemplo, os humanistas portugueses do Renascimento, querendo reaproximar o latim do português, impuseram as formas “flauta”, “planta”, “floco” onde eram mais comuns “frauta”, “pranta” e “froco” (assim aparecem n’Os Lusíadas, por exemplo). Hoje, as formas “frauta”, “pranta” e “froco” são consideradas “erradas”, fala de gente sem instrução, embora ainda aparecessem em textos escritos formais no séc. 19. De novo, uma intervenção consciente gerou novos fatos fonéticos.

7) Em diversas culturas linguísticas, os nomes das entidades sobrenaturais (boas ou más) são evitados, seja por dogma religioso (“não usarás o nome de Deus em vão”) ou para impedir malefícios. Assim, por exemplo, no Brasil, temos os eufemismos “diacho”, “desgrama” e “azeite”, para não dizer “diabo”, “desgraça” e “azar”. Em inglês, temos “Gosh” e “Jeez” para “God” e “Jesus”, além de outros. Em francês, a exclamação “parbleu!” em lugar de “par Dieu!”. São os eufemismos e os tabus linguísticos, muito estudados pelos antropólogos. Em inúmeras culturas tradicionais ameríndias, africanas, asiáticos e oceânicas há palavras que só podem ser ditas uma vez por ano, ou só por homens (tendo as mulheres que substituí-las por outras) etc. São usos coletivos, mas exigem uma consciência clara das proibições.

No espírito do “politicamente correto”, diversas palavras e expressões têm deixado de ser conscientemente usadas por causa de seu caráter (supostamente) ideológico indicador de opressão, discriminação etc. Recentemente, por exemplo, muitas pessoas deixaram de dizer “escravo”/“escrava” e passaram a usar (eu mesmo) “escravizado”/“escravizada”. São incontáveis os exemplos. Mas cito mais um: o povo tradicionalmente chamado “cigano” agora é chamado “rom” (plural “roma”), por causa da forte carga pejorativa que pesa sobre “cigano” há séculos.

Os exemplos acima mostram intervenções conscientes (aquilo que a linguista inglesa Deborah Cameron chama de “higiene verbal”) na língua. No caso das prescrições vindas do alto (academias, gramáticos etc.), é a posição hierárquica superior que levou ao sucesso dessas intervenções. Nos eufemismos, é a força da religião. Se as soluções atualmente propostas para uma linguagem inclusiva, não-sexista, terão sucesso ou não, tudo depende das dinâmicas sociais. Mulheres, pessoas negras, LGBTQI+, indígenas etc. estivemos sempre em posição subalterna, debaixo do tacão da dominância masculina, branca e (supostamente) heterossexual. Por isso, para muita gente, as propostas de linguagem inclusiva são “aberrações”, “irracionalidades”, “inutilidades” etc. Mas quando um professor de português branco famoso na mídia diz que o certo é “alugam-se salas” e não “aluga-se salas”, todo mundo se prostra e corre para obedecer. Tudo depende, enfim, de quem diz o quê e a quem, do lugar que a pessoa que fala ocupa na ordem do discurso (um conceito que acho mais interessante do que o enxovalhado “lugar de fala”). Se essa pessoa é mulher, negra, indígena, pobre, LBGTQI+ etc., seu lugar nessa ordem não lhe permite lançar propostas que sejam de imediato aceitas por todo mundo. Afinal, não basta ter o que dizer: é preciso poder dizer.

Texto de Marcos Bagno

Fonte: https://www.facebook.com/100000237745159/posts/pfbid0gHLf1qTQcfWqroABPT5fvsr52jmmXrJBTRhfDwi9NykMaep2mxQxhMCk4PbPSdBhl/?app=fbl