quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Enganada


Você já foi enganado por alguém? Já experimentou essa sensação?
É um sentimento amargo que se forma na alma, gosto de mentira, gosto de traição.
No meu caso, acho que foi pior. Eu fui feita pelas mãos de Deus, de uma parte de um homem. Eu sou a primeira mulher, uma novidade, criada para completar, ajudar e caminhar lado a lado com Adão, para juntos cuidarmos da criação de Deus, termos filhos e dominarmos os animais.
Era realmente o paraíso, no pleno sentido da palavra. Mas foi bem no meio desse cenário que aconteceu... fui enganada!
É triste só de lembrar, me causa indignação.
Depois de ser criada, fui recebida com romantismo e paixão. Logo depois, Adão me repassou as ordens que tinha recebido de Deus sobre não comer do fruto de certa árvore. Prá mim, parecia simples, até o dia em que uma serpente apareceu com uma conversa estranha que me confundiu. Ela estava contradizendo o que Adão tinha falado que era a ordem de Deus mas, como ele estava comigo e não a desmentiu, julguei ter ouvido mal, e assim fui entrando no papo, ora respondendo, ora me contradizendo e... já que Adão, que estava ao meu lado, não se manifestou, aceitei comer daquele fruto, o da árvore proibida, e também entreguei a Adão, que comeu sem problemas.
Deus, mais tarde, veio e nos corrigiu, mostrando as conseqüências de nossa desobediência, do nosso erro.
Fui enganada... seja pela omissão de meu marido, seja pelas palavras distorcidas da serpente, seja pela falta de contato direto com Deus.
Sim, porque desde então vivemos tão distantes de Deus e um do outro... sofrendo, esperando ver nossos filhos crescerem e, quem sabe um dia, vencer a serpente.
Adaptação de Angela Natel.
Baseada nos textos bíblicos de Gênesis capítulos 2 e 3 e 1ª Timóteo 2:14 e no livro “O silêncio de Adão”, de Larry Crabb.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A pior dança da minha vida

A pior dança da minha vida
(Angela Natel)
Tudo começou com uma dança numa balada em minha casa.
Foi a pior dança da minha vida. Não que eu fosse uma jovem reprimida, minha mãe me apoiava sempre, me fazia ver que meu corpo foi feito prá ser admirado e desejado pelos outros caras. Meu pai? Não vivia mais com a gente há muito tempo, desde que minha mãe o trocou pelo meu tio, autoridade máxima em nosso Estado. Não sei se foi pelo poder ou pelo dinheiro, ou pelos dois.
Foi aí que apareceu o boato espalhado por um maluco, difamando minha família e nos incomodando. Afinal, o que os outros tem a ver com nossas escolhas? Cada um sabe de si, ninguém tem nada a ver com isso.
Então minha mãe, toda cheia de querer mostrar o quanto é descolada, deu a festa em casa no aniversário de meu padrasto e decidiu me fazer estrela. Dancei sensualmente, contagiando e chamando a atenção de todos no salão, até que percebi os olhos de meu padrasto sobre meu corpo. Eu podia sentir o desejo dele me envolvendo e não quis parar, apesar de lá no fundo parecer errado.
Foi aí que ele mandou parar a música e, publicamente, me fez uma proposta: ‘Eu vou te dar o que você pedir por causa dessa dança’.
Eu podia imaginar qualquer coisa, era uma oferta mágica, invejável, sem limites de possibilidades, um sonho para qualquer um. O que eu podia pedir?
Corri para minha mãe, minha guru e amiga, esperançosa por uma idéia que me satisfizesse. Então me surpreendi, quando ela me tocou nas mãos e convenceu-me a pedir, numa bandeja de prata, a cabeça daquele agitador espalhador de boatos que na época se encontrava preso.
A cabeça de um homem? Poder, vingança, emoção, surpresa, e a adrenalina começou a fluir em meu corpo em todo o caminho que fiz ao atravessar o salão para pronunciar minha resposta.
O rosto pálido de meu padrasto selou o destino daquele maluco que um dia decidiu condenar a atitude de minha família. Em seguida, uma bandeja de prata foi trazida com uma cabeça repousada sobre uma poça de sangue, cujo cheiro me embrulhou o estômago. Levei-a à minha mãe, quase correndo, e torcendo para não derrubar em público aquele objeto nojento.
Entreguei a bandeja, mas não tive permissão para me retirar. Ainda havia outras danças, e esperavam que eu continuasse a brilhar.
Texto Bíblico: Marcos 6:14 a 29

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Madonna... "Mas ela é uma prostituta!"



Algumas pessoas já me perguntaram se nunca me envolvi em um relacionamento virtual.
Bem, após tudo o que me aconteceu nesses últimos dez anos, tornei-me um tipo de 'gato escaldado' - uma pessoa cada vez mais desconfiada dos outros e de mim mesma, de meus próprios instintos e intuições.
Não gosto de falar ao telefone. Não sei o porquê disso, mas conversas ao telefone e bate-papos via chat me causam irritação, uma sensação de incapacidade, talvez impotência. Até hoje não consigo receber bem a substituição da presença de uma pessos por uma conversa à distância. É por isso que costumo usar os meios de comunicação (redes sociais, principalmente), para produzir arte, mandar informação e resolver problemas, nunca para manter um relacionamento. A meu ver, certas coisas são insubstituíveis, mas podem ser mascaradas com algum tipo de placebo virtual.
Mesmo assim, há mais de dois anos acabei mantendo conversa com alguém via inbox no Facebook, alguém que puxou papo e, dentro do que eu entendo como respeitoso, tentou se aproximar.
Mesmo sabendo de todas as coisas que podem ser mascaradas pela internet, fui conversando diariamente, aos poucos com essa pessoa, percebendo suas tentativas de demonstrar carinho e chamar minha atenção.
De fato, não acreditava como alguém poderia me elogiar tanto sem me conhecer o mínimo mas, enfim, deixei que meu ego fosse massageado por algum tempo.
As conversas diárias continuaram até o dia em que começamos a falar de gosto musical. Ao revelar que sou fã de carteirinha (e desde a infância) de Madonna, a frase digitada do outro lado foi: "mas ela é uma prostituta!" Tentei conversar e ver o que exatamente ele queria dizer com isso, até compreender que era exatamente o que tinha afirmado.
Para mim, aquele foi o momento exato do fim desse relacionamento que mal começara. Interessante lembrar disso e tentar entender o que foi processado dentro de mim, que atitude extrema essa simples afirmação causou que não pudesse ser revertida, trabalhada.
Talvez porque eu tenha ignorado tantos sinais em meu período de namoro e noivado, que antecederam meu traumático casamento marcado por violência e abuso, talvez porque eu tenha me tornado outra após tantas decepções, de qualquer maneira uma afirmação tão contundente sobre alguém com quem não se tem muito contato foi como um sinal de alerta piscando em minha cabeça.
"Mas ela é uma prostituta!" - Como afirmar isso a respeito de alguém? E se for? O que isso afeta em sua humanidade, criatividade e qualidade artística? O que me coloca no direito de rejeitar alguém ou seu trabalho com tal justificativa?
Apesar de ser fã de carteirinha e de seguir Madonna na maior parte das redes sociais, duvido muito que ela tenha consciência de minha existência. Portanto, nada do que eu fale ou faça terá alguma influência sobre sua vida. Não me sinto no dever de defendê-la, muito menos julgá-la.
O que se rompeu dentro de mim naquele dia, ao ler a frase daquele relacionamento em potencial foi a esperança de encontrar nele uma certa coerência de vida para uma postura que se dizia valorizar as pessoas e buscar o melhor para elas.
Sim, Madonna salvou-me de mais uma cilada. E ainda que ela nem saiba que existo, creio que olhar para as pessoas com honestidade e respeito é uma lição que todos poderiam aprender com ela, principalmente aquela criatura do relacionamento virtual, de quem nunca mais ouvi falar.

Angela Natel - 20/12/2016.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Tudo tem limite


Sim, meus amigos, tudo na vida tem limite: o saldo na sua conta bancária, a sua paciência, os livros em sua estante, o cartão de crédito (‘Malditos Ewoks’), a sua estabilidade emocional, a disposição em ouvir e sorrir educadamente para seu interlocutor, o número de vezes que se vê na mesma situação tendo que oferecer as mesmas explicações somente para manter a paz e a harmonia neste planeta...
Pena que quando o limite está fora de nós, temos de nos virar nos trinta e seja o que Deus quiser, já que a situação foge ao nosso controle, ainda que possivelmente faça parte de consequências diretas ou indiretas de decisões, palavras e/ou ações nossas, i.e., de nossa responsabilidade.
Mas, quando o limite expirado está em nós, e nos vemos engalfinhados numa luta previamente perdida, ridicularizados por nossa própria falta de controle, expostos, trazidos à realidade por choques letais de adrenalina que a pressão geralmente tende a nos aplicar de vez em quando, por vezes nos encontramos num ponto em que desejamos correr, gritar ou somente tatuar bem no meio da testa alheia a frase: ‘tudo tem limite’.
Este mês o dinheiro apertou, o jogo de cintura foi grande, mas as coisas foram sendo levadas. Aparentemente tudo bem, até um momento (nem sei determinar bem quando, nem sei bem onde), quando o limite acabou. Trabalhar de graça foi um fenômeno muito comum durante um período que durou em torno de vinte anos de minha vida. E muitas pessoas ainda me diziam: ‘mas a Igreja te pagava’, ‘a Missão tal te sustentava’, ‘as pessoas te davam oferta’, e tantas outras coisas eu ouvi como se nunca tivesse movido uma palha, como se não tivesse estudado, trabalhado e nem me esforçado, e ainda assim vivia como que constantemente pedindo ‘esmola’ para viver, ouvindo reclamações de um lado, que não tinham obrigações a meu respeito, pedindo, insinuando, dependendo, controlando para ‘não esbanjar dinheiro alheio’, como que constantemente prestando contas e relatórios, ao ponto de chegar a colecionar envelopes e mais envelopes de recibos de tudo o que eu comprava, de tudo o que eu comia. As neuroses começaram a se multiplicar e as recriminações também. É claro que os inúmeros cursos de administração financeira surgiram (a um preço, obviamente), e me vi num ciclo vicioso de pedir, anotar procedência, somar, utilizar, anotar gastos e comprovantes, prestar contas, fotografar para comprovar, e assim sucessivamente, para evitar desconfianças.
E foi assim que iniciei minhas barganhas, trocando valores calóricos de minha alimentação por material escolar aos alunos, invertendo papéis, sustentando o insustentável, adoecendo e finalmente descobrindo que minha saúde também tem limite. E como tem. Limites e mais limites que me desafiam diariamente na postura da vítima/não vítima das circunstâncias. Ora tenho que me posicionar e não me dar por vencida, me fazer de forte, fazer meu trabalho a despeito da dor física ou na alma, ora tentando impor os limites ao redor para me dar o direito de me prostrar, pedir ajuda, pedir um tempo, pedir socorro, apenas pedir, sem ter que me explicar.
E nesse redemoinho de limitações físicas e emocionais ainda ter de ouvir certas coisas, ter de manter o sorriso amigável, os compromissos assumidos, vestir o papel de ignorante e seguir em frente como se nada estivesse acontecendo, como se andar mais uma milha fosse coisa passageira, quando o que, na verdade se percebe, é que a luz no fim do túnel não existe, bem como a previsão de chegada, mesmo que tudo tenha limite nesta vida.
Pensei ter vencido a etapa dos limites financeiros quando ganhei a bolsa do Mestrado, mas o que encontrei foram novos limites aos quais preciso me adaptar para viver, novas disciplinas, novos horizontes e novos planos. São desafios constantes para que eu não caia nos mesmos erros do passado, com o diferencial de que não preciso ‘mendigar’ valores que me são prometidos em contrato, ainda que de vez em quando tenha de lembrar das datas de vencimento. Pensei estar alargando limites ao, esporadicamente, ofertar aulas particulares de língua estrangeira, cursos livres, prestar serviços aqui e ali sem vínculo empregatício, mas os limites são tantos que já me vejo num deja vu dos tempos em que me prometeram uma coisa e fizeram outra, como se essa lição eu não tivesse aprendido e estivesse em plena prova de recuperação.
São horas de trabalho que ainda não me trazem retorno financeiro, são compromissos assumidos, planos de aula jogados no lixo porque cancelaram em cima da hora, não dava para marcar outra coisa, tempo e dinheiro desperdiçados, saúde que escorre pelo ralo, e não há como me fazer entender quando os limites são meus, inteiramente meus.
E quando se projetam os valores para o macro, é um casamento que não consegui manter, um filho que ainda não consegui ter, uma casa que não consigo comprar, uma conta que não deu prá pagar, uma noite atrás da outra que não consigo dormir, e a voz vai me sumindo porque um segundo siso na boca vai surgindo e, sabe lá Deus o porquê de tudo isso, como um elástico me vejo esticada, com medo de ser solta e levar comigo muita gente machucada. Meu Deus, tudo tem limite.
Eu sei que tudo o que existe neste mundo tem limite. E posso atentar filosoficamente para o fato de que Deus simplesmente não existe, Ele é, acima de tudo e de todos, e que por esse motivo é ilimitado em si mesmo. Sei que tudo o que tenho e ainda sou não é fruto de minhas limitações, é graça ilimitada desse mesmo Deus.
Por isso, apesar de desejar ardentemente escrever uma crônica mais alegre, ainda me encontro cercada numa visão um tanto quanto limitada da vida, esperançosa de um dia expandir os horizontes e ser bem mais otimista ao escrever. Por hora, faço-me de desentendida de mim mesma, limitada em minha paciência e condição física. A asma que limita até o ar que eu respiro me lembra do quão valiosos são os momentos que passo chorando de tanto rir em família, ou de quão maravilhoso é o semblante do aluno que acabou de ter uma descoberta pessoal em meio à enchente de palavras que acabei de derramar em sua cabeça – essa é a prova de que não há limites para as misericórdias de Deus, que insiste em agir em ambientes tão limitados como a vida de um ser humano tão miserável como o que sou.
Angela Natel
Crônicas de uma Divorciada - Abril de 2014

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Você se acostuma


Hoje acordei com o corpo pesado, talvez porque finalmente consegui relaxar, após uma semana de substituição de aulas na Faculdade, meu siso nascendo, dor de garganta, febre e, para fechar a semana com chave de ouro: Show do Guns N’ Roses em Curitiba (debaixo de chuva).
Ainda cambaleando, me arrastei para fora da cama, obrigando-me a acordar. Dor pelo corpo, peso na cabeça, sono sem fim. Tem coisas que a gente passa e nem sabe bem o porquê, então ouve alguém dizer: ‘Você se acostuma’. Essa frase se encaixa em qualquer situação, talvez como um tipo de prêmio de consolação, talvez não. Só sei que já ouvi isso muitas vezes, de pessoas e em lugares bem diferentes.
Hoje é primeiro de Abril, o famoso ‘dia da mentira’, em que as pessoas se dividem nas opiniões e manifestações pelas redes sociais. Há os que aproveitam e brincam à bessa. É divertido. Você se acostuma rápido. A mentira é tida como um ato de liberdade humana, parte da natureza. Há os que levantam a bandeira contra o ‘pai da mentira’, num discurso farisaico de que esse dia não será entregue em suas mãos. Você se acostuma com os versículos bíblicos que exaltam a verdade e condenam a mentira, citados aos montes em sua timeline.
Há a ação dos ‘justiceiros’, que ainda mostra resquícios nas menções de falta de postes diante das injustiças. Você se acostuma a ver as imagens de pessoas amarradas como animais nesses postes, de sangue no asfalto, imagens de violência para pagar pela violência. Você se acostuma.
E agora a febre do momento é a indignação contra ideia que por muito tempo se manteve velada a respeito da culpabilidade das vítimas de estupro. Você se acostuma a pensar e a repetir o discurso, sem pensar em suas implicações, sem levar em conta o ser humano dentro de cada casca, você simplesmente se acostuma.
E o princípio atinge as camadas mais pessoais da minha vida, quando as pessoas fazem seus comentários preconceituosos do tipo ‘ela só quer aparecer’, ou ‘é bipolar’ após um comentário ou exposição de minha parte. Você se acostuma.
Você se acostuma a ser cobrado por coisas que não são fundamentais na vida, se acostuma a viver tentando suprir as expectativas da maioria, a trabalhar para preencher vazios cuja procedência nada nem ninguém consegue explicar.
Você se acostuma com a injustiça, com a falta de misericórdia, com dois pesos, duas medidas, se acostuma a procurar sempre uma explicação plausível prá tudo, sem levar em conta a singularidade do momento, das pessoas, das circunstâncias. É fácil se acostumar com bordões numa época como a nossa: “Deus me falou”, “eu profetizo na tua vida”, “tudo vai acabar bem”, “tudo coopera para o seu bem”, justificando nossos desejos, anseios, esperanças e o peso de nossa alma em palavras vazias de sentido, pois não expressam mais o mesmo de suas fontes.
E você se acostuma a receber tudo pronto, seja da TV, aula ou microondas, sem questionar o que se ouve nos púlpitos e palanques da vida. Você se acostuma a não ser compreendido e se cala, num mar de desilusão.
Hoje li que “Pior do que contar uma mentira é viver uma mentira” (Hermes Carvalho Fernandes), e fui repentinamente chacoalhada por dentro desse marasmo interior. Não quero e não vou me acostumar.
Não vou me acostumar a ser pau mandado, nem papagaio num mar de discursos desconexos. Não vou me acostumar a ser parasita religioso, sugando ideias, doutrinas, vida dos que bebem diretamente das fontes da salvação.
Não quero e não vou me acostumar com a injustiça, com os rótulos, com o descaso diante da desumanidade de quem pode e deve se posicionar. Não vou me acostumar a ser silenciada só porque acham que quero aparecer quando manifesto opinião, quando coloco minha posição ou decido me expor. Não sou vítima das situações, quero ser agente coerente e responsável, que olha o nu e decide agir em favor, não contra, que entende que a “ira do homem não opera a justiça de Deus” (Tiago 1:20).
Não vou me acostumar com cobranças inúteis que não me ajudam a melhorar, só acrescentam mais peso sobre meus ombros, um peso morto que não estou disposta a carregar.
Como se vê, nem sempre acordo com o melhor dos humores, e num dia pesado como este, em que meu corpo não responde tão rápido como eu desejaria, quando o cansaço decide mostrar sua verdadeira face, quando me sinto exausta de tentar dar tanta explicação, decido não me acostumar com nada disso, e melhor do que falar a verdade quero vivê-la, nem que prá isso eu tenha por companheiro um eterno desconforto.
Angela Natel
Crônicas de uma Divorciada - Abril de 2014

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Sou ninguém

Sou ninguém
Em busca de sentido
De vida, de sangue vertido.
Sou ninguém.
A quem muitos buscam
Atrás de conselho, verdade,
Mas apenas encontram
Humanidade.
Olhos que veem o injusto
com capa de humildade
Fazendo-se deus
em nome de Deus.
Pés machucados das pedras que se lhe impuseram no caminho.
Pássaro fora do ninho.
Leão que ruge em derredor
Lobo voraz, Veado veloz.
Abraço de urso a me esmagar
Serpente atroz.
Mãos estendidas tentando ajudar
Não sou ninguém
Prá que se importar?
Dor que cala a voz da razão
Me ponho em chamas
Tal qual um dragão.
Uma guerra travada em meu coração
Ou ganho ou morro
Não há exceção.
Angela Natel

Enganada


Você já foi enganado por alguém? Já experimentou essa sensação?
É um sentimento amargo que se forma na alma, gosto de mentira, gosto de traição.
No meu caso, acho que foi pior. Eu fui feita pelas mãos de Deus, de uma parte de um homem. Eu sou a primeira mulher, uma novidade, criada para completar, ajudar e caminhar lado a lado com Adão, para juntos cuidarmos da criação de Deus, termos filhos e dominarmos os animais.
Era realmente o paraíso, no pleno sentido da palavra. Mas foi bem no meio desse cenário que aconteceu... fui enganada!
É triste só de lembrar, me causa indignação.
Depois de ser criada, fui recebida com romantismo e paixão. Logo depois, Adão me repassou as ordens que tinha recebido de Deus sobre não comer do fruto de certa árvore. Prá mim, parecia simples, até o dia em que uma serpente apareceu com uma conversa estranha que me confundiu. Ela estava contradizendo o que Adão tinha falado que era a ordem de Deus mas, como ele estava comigo e não a desmentiu, julguei ter ouvido mal, e assim fui entrando no papo, ora respondendo, ora me contradizendo e... já que Adão, que estava ao meu lado, não se manifestou, aceitei comer daquele fruto, o da árvore proibida, e também entreguei a Adão, que comeu sem problemas.
Deus, mais tarde, veio e nos corrigiu, mostrando as conseqüências de nossa desobediência, do nosso erro.
Fui enganada... seja pela omissão de meu marido, seja pelas palavras distorcidas da serpente, seja pela falta de contato direto com Deus.
Sim, porque desde então vivemos tão distantes de Deus e um do outro... sofrendo, esperando ver nossos filhos crescerem e, quem sabe um dia, vencer a serpente.
Adaptação de Angela Natel.
Baseada nos textos bíblicos de Gênesis capítulos 2 e 3 e 1ª Timóteo 2:14 e no livro “O silêncio de Adão”, de Larry Crabb.

A pior dança da minha vida

A pior dança da minha vida
(Angela Natel)
Tudo começou com uma dança numa balada em minha casa.
Foi a pior dança da minha vida. Não que eu fosse uma jovem reprimida, minha mãe me apoiava sempre, me fazia ver que meu corpo foi feito prá ser admirado e desejado pelos outros caras. Meu pai? Não vivia mais com a gente há muito tempo, desde que minha mãe o trocou pelo meu tio, autoridade máxima em nosso Estado. Não sei se foi pelo poder ou pelo dinheiro, ou pelos dois.
Foi aí que apareceu o boato espalhado por um maluco, difamando minha família e nos incomodando. Afinal, o que os outros tem a ver com nossas escolhas? Cada um sabe de si, ninguém tem nada a ver com isso.
Então minha mãe, toda cheia de querer mostrar o quanto é descolada, deu a festa em casa no aniversário de meu padrasto e decidiu me fazer estrela. Dancei sensualmente, contagiando e chamando a atenção de todos no salão, até que percebi os olhos de meu padrasto sobre meu corpo. Eu podia sentir o desejo dele me envolvendo e não quis parar, apesar de lá no fundo parecer errado.
Foi aí que ele mandou parar a música e, publicamente, me fez uma proposta: ‘Eu vou te dar o que você pedir por causa dessa dança’.
Eu podia imaginar qualquer coisa, era uma oferta mágica, invejável, sem limites de possibilidades, um sonho para qualquer um. O que eu podia pedir?
Corri para minha mãe, minha guru e amiga, esperançosa por uma idéia que me satisfizesse. Então me surpreendi, quando ela me tocou nas mãos e convenceu-me a pedir, numa bandeja de prata, a cabeça daquele agitador espalhador de boatos que na época se encontrava preso.
A cabeça de um homem? Poder, vingança, emoção, surpresa, e a adrenalina começou a fluir em meu corpo em todo o caminho que fiz ao atravessar o salão para pronunciar minha resposta.
O rosto pálido de meu padrasto selou o destino daquele maluco que um dia decidiu condenar a atitude de minha família. Em seguida, uma bandeja de prata foi trazida com uma cabeça repousada sobre uma poça de sangue, cujo cheiro me embrulhou o estômago. Levei-a à minha mãe, quase correndo, e torcendo para não derrubar em público aquele objeto nojento.
Entreguei a bandeja, mas não tive permissão para me retirar. Ainda havia outras danças, e esperavam que eu continuasse a brilhar.
Texto Bíblico: Marcos 6:14 a 29

Madonna... "Mas ela é uma prostituta!"



Algumas pessoas já me perguntaram se nunca me envolvi em um relacionamento virtual.
Bem, após tudo o que me aconteceu nesses últimos dez anos, tornei-me um tipo de 'gato escaldado' - uma pessoa cada vez mais desconfiada dos outros e de mim mesma, de meus próprios instintos e intuições.
Não gosto de falar ao telefone. Não sei o porquê disso, mas conversas ao telefone e bate-papos via chat me causam irritação, uma sensação de incapacidade, talvez impotência. Até hoje não consigo receber bem a substituição da presença de uma pessos por uma conversa à distância. É por isso que costumo usar os meios de comunicação (redes sociais, principalmente), para produzir arte, mandar informação e resolver problemas, nunca para manter um relacionamento. A meu ver, certas coisas são insubstituíveis, mas podem ser mascaradas com algum tipo de placebo virtual.
Mesmo assim, há mais de dois anos acabei mantendo conversa com alguém via inbox no Facebook, alguém que puxou papo e, dentro do que eu entendo como respeitoso, tentou se aproximar.
Mesmo sabendo de todas as coisas que podem ser mascaradas pela internet, fui conversando diariamente, aos poucos com essa pessoa, percebendo suas tentativas de demonstrar carinho e chamar minha atenção.
De fato, não acreditava como alguém poderia me elogiar tanto sem me conhecer o mínimo mas, enfim, deixei que meu ego fosse massageado por algum tempo.
As conversas diárias continuaram até o dia em que começamos a falar de gosto musical. Ao revelar que sou fã de carteirinha (e desde a infância) de Madonna, a frase digitada do outro lado foi: "mas ela é uma prostituta!" Tentei conversar e ver o que exatamente ele queria dizer com isso, até compreender que era exatamente o que tinha afirmado.
Para mim, aquele foi o momento exato do fim desse relacionamento que mal começara. Interessante lembrar disso e tentar entender o que foi processado dentro de mim, que atitude extrema essa simples afirmação causou que não pudesse ser revertida, trabalhada.
Talvez porque eu tenha ignorado tantos sinais em meu período de namoro e noivado, que antecederam meu traumático casamento marcado por violência e abuso, talvez porque eu tenha me tornado outra após tantas decepções, de qualquer maneira uma afirmação tão contundente sobre alguém com quem não se tem muito contato foi como um sinal de alerta piscando em minha cabeça.
"Mas ela é uma prostituta!" - Como afirmar isso a respeito de alguém? E se for? O que isso afeta em sua humanidade, criatividade e qualidade artística? O que me coloca no direito de rejeitar alguém ou seu trabalho com tal justificativa?
Apesar de ser fã de carteirinha e de seguir Madonna na maior parte das redes sociais, duvido muito que ela tenha consciência de minha existência. Portanto, nada do que eu fale ou faça terá alguma influência sobre sua vida. Não me sinto no dever de defendê-la, muito menos julgá-la.
O que se rompeu dentro de mim naquele dia, ao ler a frase daquele relacionamento em potencial foi a esperança de encontrar nele uma certa coerência de vida para uma postura que se dizia valorizar as pessoas e buscar o melhor para elas.
Sim, Madonna salvou-me de mais uma cilada. E ainda que ela nem saiba que existo, creio que olhar para as pessoas com honestidade e respeito é uma lição que todos poderiam aprender com ela, principalmente aquela criatura do relacionamento virtual, de quem nunca mais ouvi falar.

Angela Natel - 20/12/2016.

Tudo tem limite


Sim, meus amigos, tudo na vida tem limite: o saldo na sua conta bancária, a sua paciência, os livros em sua estante, o cartão de crédito (‘Malditos Ewoks’), a sua estabilidade emocional, a disposição em ouvir e sorrir educadamente para seu interlocutor, o número de vezes que se vê na mesma situação tendo que oferecer as mesmas explicações somente para manter a paz e a harmonia neste planeta...
Pena que quando o limite está fora de nós, temos de nos virar nos trinta e seja o que Deus quiser, já que a situação foge ao nosso controle, ainda que possivelmente faça parte de consequências diretas ou indiretas de decisões, palavras e/ou ações nossas, i.e., de nossa responsabilidade.
Mas, quando o limite expirado está em nós, e nos vemos engalfinhados numa luta previamente perdida, ridicularizados por nossa própria falta de controle, expostos, trazidos à realidade por choques letais de adrenalina que a pressão geralmente tende a nos aplicar de vez em quando, por vezes nos encontramos num ponto em que desejamos correr, gritar ou somente tatuar bem no meio da testa alheia a frase: ‘tudo tem limite’.
Este mês o dinheiro apertou, o jogo de cintura foi grande, mas as coisas foram sendo levadas. Aparentemente tudo bem, até um momento (nem sei determinar bem quando, nem sei bem onde), quando o limite acabou. Trabalhar de graça foi um fenômeno muito comum durante um período que durou em torno de vinte anos de minha vida. E muitas pessoas ainda me diziam: ‘mas a Igreja te pagava’, ‘a Missão tal te sustentava’, ‘as pessoas te davam oferta’, e tantas outras coisas eu ouvi como se nunca tivesse movido uma palha, como se não tivesse estudado, trabalhado e nem me esforçado, e ainda assim vivia como que constantemente pedindo ‘esmola’ para viver, ouvindo reclamações de um lado, que não tinham obrigações a meu respeito, pedindo, insinuando, dependendo, controlando para ‘não esbanjar dinheiro alheio’, como que constantemente prestando contas e relatórios, ao ponto de chegar a colecionar envelopes e mais envelopes de recibos de tudo o que eu comprava, de tudo o que eu comia. As neuroses começaram a se multiplicar e as recriminações também. É claro que os inúmeros cursos de administração financeira surgiram (a um preço, obviamente), e me vi num ciclo vicioso de pedir, anotar procedência, somar, utilizar, anotar gastos e comprovantes, prestar contas, fotografar para comprovar, e assim sucessivamente, para evitar desconfianças.
E foi assim que iniciei minhas barganhas, trocando valores calóricos de minha alimentação por material escolar aos alunos, invertendo papéis, sustentando o insustentável, adoecendo e finalmente descobrindo que minha saúde também tem limite. E como tem. Limites e mais limites que me desafiam diariamente na postura da vítima/não vítima das circunstâncias. Ora tenho que me posicionar e não me dar por vencida, me fazer de forte, fazer meu trabalho a despeito da dor física ou na alma, ora tentando impor os limites ao redor para me dar o direito de me prostrar, pedir ajuda, pedir um tempo, pedir socorro, apenas pedir, sem ter que me explicar.
E nesse redemoinho de limitações físicas e emocionais ainda ter de ouvir certas coisas, ter de manter o sorriso amigável, os compromissos assumidos, vestir o papel de ignorante e seguir em frente como se nada estivesse acontecendo, como se andar mais uma milha fosse coisa passageira, quando o que, na verdade se percebe, é que a luz no fim do túnel não existe, bem como a previsão de chegada, mesmo que tudo tenha limite nesta vida.
Pensei ter vencido a etapa dos limites financeiros quando ganhei a bolsa do Mestrado, mas o que encontrei foram novos limites aos quais preciso me adaptar para viver, novas disciplinas, novos horizontes e novos planos. São desafios constantes para que eu não caia nos mesmos erros do passado, com o diferencial de que não preciso ‘mendigar’ valores que me são prometidos em contrato, ainda que de vez em quando tenha de lembrar das datas de vencimento. Pensei estar alargando limites ao, esporadicamente, ofertar aulas particulares de língua estrangeira, cursos livres, prestar serviços aqui e ali sem vínculo empregatício, mas os limites são tantos que já me vejo num deja vu dos tempos em que me prometeram uma coisa e fizeram outra, como se essa lição eu não tivesse aprendido e estivesse em plena prova de recuperação.
São horas de trabalho que ainda não me trazem retorno financeiro, são compromissos assumidos, planos de aula jogados no lixo porque cancelaram em cima da hora, não dava para marcar outra coisa, tempo e dinheiro desperdiçados, saúde que escorre pelo ralo, e não há como me fazer entender quando os limites são meus, inteiramente meus.
E quando se projetam os valores para o macro, é um casamento que não consegui manter, um filho que ainda não consegui ter, uma casa que não consigo comprar, uma conta que não deu prá pagar, uma noite atrás da outra que não consigo dormir, e a voz vai me sumindo porque um segundo siso na boca vai surgindo e, sabe lá Deus o porquê de tudo isso, como um elástico me vejo esticada, com medo de ser solta e levar comigo muita gente machucada. Meu Deus, tudo tem limite.
Eu sei que tudo o que existe neste mundo tem limite. E posso atentar filosoficamente para o fato de que Deus simplesmente não existe, Ele é, acima de tudo e de todos, e que por esse motivo é ilimitado em si mesmo. Sei que tudo o que tenho e ainda sou não é fruto de minhas limitações, é graça ilimitada desse mesmo Deus.
Por isso, apesar de desejar ardentemente escrever uma crônica mais alegre, ainda me encontro cercada numa visão um tanto quanto limitada da vida, esperançosa de um dia expandir os horizontes e ser bem mais otimista ao escrever. Por hora, faço-me de desentendida de mim mesma, limitada em minha paciência e condição física. A asma que limita até o ar que eu respiro me lembra do quão valiosos são os momentos que passo chorando de tanto rir em família, ou de quão maravilhoso é o semblante do aluno que acabou de ter uma descoberta pessoal em meio à enchente de palavras que acabei de derramar em sua cabeça – essa é a prova de que não há limites para as misericórdias de Deus, que insiste em agir em ambientes tão limitados como a vida de um ser humano tão miserável como o que sou.
Angela Natel
Crônicas de uma Divorciada - Abril de 2014

Você se acostuma


Hoje acordei com o corpo pesado, talvez porque finalmente consegui relaxar, após uma semana de substituição de aulas na Faculdade, meu siso nascendo, dor de garganta, febre e, para fechar a semana com chave de ouro: Show do Guns N’ Roses em Curitiba (debaixo de chuva).
Ainda cambaleando, me arrastei para fora da cama, obrigando-me a acordar. Dor pelo corpo, peso na cabeça, sono sem fim. Tem coisas que a gente passa e nem sabe bem o porquê, então ouve alguém dizer: ‘Você se acostuma’. Essa frase se encaixa em qualquer situação, talvez como um tipo de prêmio de consolação, talvez não. Só sei que já ouvi isso muitas vezes, de pessoas e em lugares bem diferentes.
Hoje é primeiro de Abril, o famoso ‘dia da mentira’, em que as pessoas se dividem nas opiniões e manifestações pelas redes sociais. Há os que aproveitam e brincam à bessa. É divertido. Você se acostuma rápido. A mentira é tida como um ato de liberdade humana, parte da natureza. Há os que levantam a bandeira contra o ‘pai da mentira’, num discurso farisaico de que esse dia não será entregue em suas mãos. Você se acostuma com os versículos bíblicos que exaltam a verdade e condenam a mentira, citados aos montes em sua timeline.
Há a ação dos ‘justiceiros’, que ainda mostra resquícios nas menções de falta de postes diante das injustiças. Você se acostuma a ver as imagens de pessoas amarradas como animais nesses postes, de sangue no asfalto, imagens de violência para pagar pela violência. Você se acostuma.
E agora a febre do momento é a indignação contra ideia que por muito tempo se manteve velada a respeito da culpabilidade das vítimas de estupro. Você se acostuma a pensar e a repetir o discurso, sem pensar em suas implicações, sem levar em conta o ser humano dentro de cada casca, você simplesmente se acostuma.
E o princípio atinge as camadas mais pessoais da minha vida, quando as pessoas fazem seus comentários preconceituosos do tipo ‘ela só quer aparecer’, ou ‘é bipolar’ após um comentário ou exposição de minha parte. Você se acostuma.
Você se acostuma a ser cobrado por coisas que não são fundamentais na vida, se acostuma a viver tentando suprir as expectativas da maioria, a trabalhar para preencher vazios cuja procedência nada nem ninguém consegue explicar.
Você se acostuma com a injustiça, com a falta de misericórdia, com dois pesos, duas medidas, se acostuma a procurar sempre uma explicação plausível prá tudo, sem levar em conta a singularidade do momento, das pessoas, das circunstâncias. É fácil se acostumar com bordões numa época como a nossa: “Deus me falou”, “eu profetizo na tua vida”, “tudo vai acabar bem”, “tudo coopera para o seu bem”, justificando nossos desejos, anseios, esperanças e o peso de nossa alma em palavras vazias de sentido, pois não expressam mais o mesmo de suas fontes.
E você se acostuma a receber tudo pronto, seja da TV, aula ou microondas, sem questionar o que se ouve nos púlpitos e palanques da vida. Você se acostuma a não ser compreendido e se cala, num mar de desilusão.
Hoje li que “Pior do que contar uma mentira é viver uma mentira” (Hermes Carvalho Fernandes), e fui repentinamente chacoalhada por dentro desse marasmo interior. Não quero e não vou me acostumar.
Não vou me acostumar a ser pau mandado, nem papagaio num mar de discursos desconexos. Não vou me acostumar a ser parasita religioso, sugando ideias, doutrinas, vida dos que bebem diretamente das fontes da salvação.
Não quero e não vou me acostumar com a injustiça, com os rótulos, com o descaso diante da desumanidade de quem pode e deve se posicionar. Não vou me acostumar a ser silenciada só porque acham que quero aparecer quando manifesto opinião, quando coloco minha posição ou decido me expor. Não sou vítima das situações, quero ser agente coerente e responsável, que olha o nu e decide agir em favor, não contra, que entende que a “ira do homem não opera a justiça de Deus” (Tiago 1:20).
Não vou me acostumar com cobranças inúteis que não me ajudam a melhorar, só acrescentam mais peso sobre meus ombros, um peso morto que não estou disposta a carregar.
Como se vê, nem sempre acordo com o melhor dos humores, e num dia pesado como este, em que meu corpo não responde tão rápido como eu desejaria, quando o cansaço decide mostrar sua verdadeira face, quando me sinto exausta de tentar dar tanta explicação, decido não me acostumar com nada disso, e melhor do que falar a verdade quero vivê-la, nem que prá isso eu tenha por companheiro um eterno desconforto.
Angela Natel
Crônicas de uma Divorciada - Abril de 2014

Sou ninguém

Sou ninguém
Em busca de sentido
De vida, de sangue vertido.
Sou ninguém.
A quem muitos buscam
Atrás de conselho, verdade,
Mas apenas encontram
Humanidade.
Olhos que veem o injusto
com capa de humildade
Fazendo-se deus
em nome de Deus.
Pés machucados das pedras que se lhe impuseram no caminho.
Pássaro fora do ninho.
Leão que ruge em derredor
Lobo voraz, Veado veloz.
Abraço de urso a me esmagar
Serpente atroz.
Mãos estendidas tentando ajudar
Não sou ninguém
Prá que se importar?
Dor que cala a voz da razão
Me ponho em chamas
Tal qual um dragão.
Uma guerra travada em meu coração
Ou ganho ou morro
Não há exceção.
Angela Natel