"Um dos efeitos do monopólio da violência, como tentei demonstrar anteriormente, é não apenas o controle efetivo sobre o acesso às técnicas, ferramentas e dispositivos para performá-la, mas também o controle sobre os limites de sua definição – que implica, por exemplo, a representação das revistas constrangedoras e racistas da polícia (baculejos) como questão de segurança e das críticas contundentes de pessoas negras quanto ao racismo institucional e velado da branquitude no Brasil como agressividade – e, para além disso, sobre os limites do pensável em termos de violência. Assim, é absolutamente comum que sejamos bombardeadas com imagens e narrativas de violência performada por homens cis, bem como muitos dos processos sociais de elaboração da masculinidade passam por um aprendizado da virilidade que tende a confundir-se com o monopólio da violência e torna não só imaginável como plausível que a violência pensável seja sempre elaborada desde essa posição.
Em função disso, a simples evocação imaginativa de outras formas de violência tem já um efeito disruptivo sobre essa gramática que visa garantir a estabilidade da representação da violência masculina a partir de um paralelo negativo com as posições afeminadas – de mulheres cis, bichas, travestis e outras corporalidades marcadas como femininas e representadas como necessariamente frágeis e passivas frente a violência.
(...)
Se não pudermos ser violentas, não seremos capazes de desfazer as prisões e limites impostos à nossa experiência por efeito da distribuição social heteronormativa, branca, sexista e cissupremacista da violência. Se não pudermos ser violentas, nossas comunidades estarão fadadas ao assalto reiterado de nossas forças, saúdes, liberdades e potências. Se não pudermos ser violentas, seguiremos assombradas pela política do medo instituída como norma contra nós. Se não pudermos ser violentas, concentraremos em nossos corpos, afetos e coletividades o peso mortífero da violência normalizadora. E para aprendermos a performar nossa violência, precisaremos também ser capazes de imaginá-la, e de povoá-la com fantasias visionárias que rejeitem o modo como as coisas são e ousem conjurar, aqui e agora, uma presença que seja capaz de bater de volta em nossos agressores, matar nossos assassinos e escapar com vida para refazer o mundo."
Trecho de Rumo a uma redistribuição desobediente de gênero e anti-colonial da violência. Jota Mombaça via Sueli Feliziani
Acesse o texto na íntegra em http://imgs.fbsp.org.br/files/62cc76f73d2d77003436339c56954187.pdf


