sexta-feira, 6 de março de 2020

Patriarcado, um violador em nosso caminho


Patriarcado, um violador em nosso caminho

5 de março de 2020

Um grito do Fórum de Gênero da Aliança de Batistas que chega às Igrejas
O patriarcado é um juiz
que nos julga por nascer,
e nosso castigo
é a violência que você não vê.
E a culpa não era minha,
nem onde estava,
nem como me vestia.
É feminicídio.
Impunidade para meu assassino.
É o desaparecimento.
É o estupro.
O violador era você. O violador é você.
São os policiais, os juízes, o estado, o Presidente. (1)
Esse foi o grito de um grupo de mulheres chilenas que ecoou em muitas partes do mundo em 2019. Na denúncia dos perpetuadores do patriarcado estão policiais, juízes, o Estado e o presidente.
E a Igreja, não deveria integrar essa lista? A Igreja tem sido mais violadora ou aliada das mulheres em suas lutas por igualdade, dignidade e direitos?
O patriarcado religioso que prevalece nas igrejas e estruturas cristãs é inimigo antigo que permanece aterrorizando a vida das mulheres. Talvez por isso gritava a escritora e artista Kate Millet: “O patriarcado tem Deus ao seu lado” (2). Historicamente, o cristianismo tem usado o nome de Deus para perpetuar e justificar o pecado do machismo e suas estruturas patriarcais.
Por isso, neste 08 de março, o Fórum de Gênero da Aliança de Batistas do Brasil faz desse dia de celebração um Grito!
“Eis que uma mulher cananeia, que tinha saído dessa região, começou a gritar…” Mateus 15:22
O grito das mulheres comprometidas com a fé cristã tem sido um grito profético de anúncio e denúncia.
Na América Latina cristã e cristianizada, o feminicídio (assassinato de mulheres por serem mulheres) mata 12 mulheres por dia, segundo dados da ONU. O Brasil tem a quinta maior taxa de feminicídio do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de assassinatos chega a uma taxa de 4,8 para cada 100 mil mulheres no país. A violência de gênero que atinge mulheres, principalmente mulheres pretas e periféricas, mulheres trans e a comunidade LGBTI+ continua crescente, expressando-se de diferentes formas tanto na sociedade quanto nas igrejas.
Como anunciar o reino de justiça e igualdade, se as igrejas e instituições cristãs ensinam e reproduzem um modelo de desigualdade entre homens e mulheres?
O uso constante de uma leitura patriarcal da Bíblia e da fé cristã pelas igrejas para marginalizar, excluir e silenciar as mulheres distorce e contradiz o princípio de igualdade entre mulheres e homens e não pode ser admitido como palavra autêntica de Deus. Trata-se, pelo contrário, de reflexo do pecado sexista e machista que atingiu as tradições interpretativas da Bíblia e da tradição cristã.
Por tudo isso, gritamos!
Esse grito ecoa desde as mulheres silenciadas ou ignoradas da Bíblia.
Em Isaías 42:14 as mulheres gritam: “Fomos mantidas muito tempo em silêncio, contidas, nos calaram. Mas, agora, como mulheres em trabalho de parto, gritamos, gememos e respiramos ofegante.”
Raquel e as mulheres de Ramá também gritam: “Ouve-se uma voz em Ramá, lamentação e amargo choro. É Raquel que chora por seus filhos e recusa-se a ser consolada!” (Jeremias 31:15).
“Eis que uma mulher cananeia, que tinha saído dessa região, começou a gritar”. (Mateus 15: 22): O grito dela constrange a Jesus, e denuncia que não há justiça e igualdade na mesa da religião onde mulheres sofrem com a violência do patriarcado disfarçado de doutrina, tratadas como “cachorrinhos”, aceitando as migalhas que caem da mesa religiosa do machismo institucional.
O nosso grito é o grito abafado da filha de Davi, violada pelo seu meio-irmão dentro de sua própria casa (2 Samuel 13:1-21).
O grito da injustiça sofrida por Tamar, que teve seus direitos negados sistematicamente pelos homens da família de Judá (Gênesis 38).
É também o grito e o pranto de Ana, que sofre as dores da humilhação perpetrada pela lei patriarcal que tratava as mulheres como meras máquinas de reprodução humana (1 Samuel 1:1-20).
O nosso grito se faz choro com as amigas da filha de Jefté que, chorando, denunciam o mal que homens cometem em nome da guerra (Juízes 11:1-40).
Gritamos e bradamos pela indefesa mulher do Levita que, assim como a filha de Jefté, teve seu corpo violado, assassinado no altar do sacrifício do patriarcado bíblico (Juízes 19).
Gritamos pela silenciada mulher acusada de adultério que depõe a hipocrisia dos seus acusadores que, escondendo seus próprios pecados, vivem de pedras na mão contra a vida das mulheres.
O grito dessas mulheres da Bíblia se junta ao grito de tantas mulheres de ontem e de hoje.
Ao grito impaciente e resistente de Rosa Parks, mulher negra e crente que com seu grito derrubou a lei segregacionista nos Estados Unidos da América.
Ao grito de Margarida Alves, que até hoje anima a luta das mulheres e homens do campo: “Medo nóis tem, mas nóis não usa!”.
Ao grito de tantas mulheres pobres, negras, nas periferias das cidades, camponesas, desde as fábricas até as academias que se unem num mesmo grito: “O patriarcado é um juiz que nos julga por nascer, e nosso castigo é a violência que você não quer ver”!
Como sociedade e Igreja, somos responsáveis e temos permitido e reproduzido um sistema patriarcal que tem gerado morte às mulheres de todas as classes, gênero, raça e religiões, com um terrível agravante da violência de gênero sofrida por meninas, mulheres negras, indígenas e trans.
Com muita indignação e vergonha, nos somamos a estes gritos que clamam por justiça de gênero, a começar pelas nossas igrejas. Diante do alarmante cenário que denuncia a conivência e negligência das instituições e igrejas cristãs, nós do Fórum de Gênero da Aliança de Batistas:
  • Pedimos perdão a todas as mulheres por ser parte do problema que atenta contra suas vidas, quando deveríamos como igrejas ser espaço de cuidado e apoio para o enfrentamento das violências perpetradas contra as mulheres.
  • Pedimos perdão a Deus pelo pecado do machismo patriarcal que predomina em nossas igrejas.
  • Convocamos a todas as igrejas cristãs, as comunidades de fé das distintas religiões e diversas expressões de espiritualidade a evocar a memória de todas as mulheres e grupos que foram e são vítimas da violência machista e patriarcal, e a nos somar ao grito delas que clama por justiça de gênero.
Finalizamos dando graças ao Deus que é espírito, vento e ventre criador de todas as coisas, que tem sustentado a fé e a esperança de todas as mulheres.
Que a nossa resistência seja alimentada pela fé e pela profecia das matriarcas Sara, Hagar e Raquel na busca de “uma terra prometida”, e que assim lutemos por outro mundo e outra igreja possível.
Que nosso grito seja fortalecido pelo testemunho de Maria de Nazaré, Maria Madalena e todas as mulheres do movimento de Jesus que caminham conosco até recuperarmos “a moeda perdida” por nós mulheres de fé cristã dentro da própria casa, a igreja, que deveria ser a comunidade de iguais inaugurada por Jesus.
E quem tem ouvido, ouça o que o Espírito diz às igrejas!
(1) Un Violador en Tu Camino”. Coletivo LasTesis, em ação pelo Dia do Combate à Violência Contra a Mulher, em 25 de novembro de 2019. Santiago do Chile.
(2) MILLET, Kate. Sexual Politics. Garden City: NY, Doubled Day & Company, 1970, p. 51.
acessado em 06/03/2020 às 09:03h

Ah, mas nem todo homem!


As estratégias de silenciamento do machismo contemporâneo




Descrição da imagem: Uma foto em preto e branco mostra uma mulher branca fazendo o gesto de silêncio com o dedo indicador na boca e com a boca coberta por dois esparadrapos em X. Foto de Kat Jayne — Pexels
acessado em 06/03/2020 às 08:59h

“nem todo homem”



um texto cínico para pedir perdão ao sexo masculino por ousarmos existir


não raro aparece alguém para dizer que a mulher deve se comportar para não acabar se insinuando para os outros e, com isso, não sofrer abusos. depois de ouvir frases como esta, confesso que revejo todos meus anos de vida e tenho muita vontade de pedir perdão.
pedir perdão ao médico que fez a primeira piada de ódio às mulheres quando me viu sair com uma vagina, da barriga de minha mãe. queria pedir perdão ao meu pai, por não ter nascido varão. pedir perdão aos meus avôs, que esperavam mais machos do que fêmeas, para discutir futebol, política e mulher nos almoços de domingo, com propriedade. aliás, queria pedir perdão a um dos meus avôs, especificamente, por passar com um pedaço da barriga aparecendo, na frente de seus amigos, aos 10 anos de idade, e incitá-los a comentar sobre meu corpo. perdão também, vô, por aquele dia de calor infernal que coloquei um short jeans e provoquei aquele outro amigo seu, velho nojento, pai de um colega de escola, a bater na minha bunda enquanto eu passava para visitar vovó. pelo menos sei que aqueles homens se divertiram.
pedir perdão pr’aquele médico famoso que dos sete aos 14 anos me apalpou a cada consulta, opinando sobre cada parte do meu corpo, tecendo comentários que variavam entre “elogios” e gordofobia. perdão a um menino mais velho, da cidade pequena, que, aos 15, me levou para um lugar escuro e disse que eu precisava perder a vergonha, colocando a mão dentro do meu short-saia, enquanto colegas da minha idade esperavam ansiosos para ouvir sobre a experiência que eu não queria ter vivido. perdão a todos os desgraçados que ao me conhecerem já avaliaram se sirvo pra transar ou pra casar. perdão, não deveria ter me insinuado para vocês.
perdão aos caras que tentaram — muitos conseguiram — transar comigo, com minhas irmãs e amigas, sem camisinha, dizendo que era a única vez, que éramos especiais, que camisinha machucava, que seria “só a cabecinha” ou que gozariam fora. perdão por termos sido burras e acreditado em vocês. perdão por termos abortado o filho de vocês.
perdão a cada homem que me olhou com nojo, ódio ou desejo me imaginando nua, magra, loira, de biquíni, de joelhos, amarrada, com outra mulher ou qualquer fetiche que o valha: eu provavelmente pedi isso. perdão aos caras que me abordaram, quando andava abraçada com uma amiga ou namorada, perguntando se não faltava um homem entre nós. perdão aos homens que perseguiram e espancaram e estupraram minhas amigas e namoradas por elas se negarem a relacionarem-se com eles. perdão aos homens que eu disse não, inclusive àqueles que acabei cedendo, de tanta pressão e insistência.
perdão por sentir medo e atravessar a rua quando vejo vocês, homens, passarem. mesmo quando vocês só iam olhar meu corpo, falar uma gracinha. perdão aos homens que vi abandonarem suas famílias, provavelmente essas mulheres escolheram criar seus filhos sozinhas. afinal, elas tinham mães e avós para ajudar. perdão por ter deixado aquele infeliz de merda me dizer como eu deveria me comportar, falar, andar, me vestir, se quisesse continuar com ele. perdão por ter insistido no término e ter te obrigado a levantar a voz e a mão para mim. sem contar as vezes que te fiz me perseguir no trabalho. perdão por ter caído no conto do professor apaixonado, pedófilo e sedutor, me dizendo que eu era diferente das meninas da minha idade. perdão por não ter percebido que eu era tão adolescente quanto elas.
perdão por generalizar homens. é que a minha experiência e a das mulheres que conheço não ajuda muito. mas, olha, estamos sempre dispostas a dar colher de chá: para vermos mais de nós assediadas. mais de nós estupradas. mais de nós mortas. não, claro que nem todo homem. nem todo homem. mas, necessariamente, toda mulher experienciou violência masculina.
cada vez que escrevo sobre algo que aconteceu comigo, ou com alguma mulher que conheço, por responsabilidade de uma pessoa do sexo masculino, é uma chuva de comentários de homens dizendo que nem todo homem é assim. toda vez. todas as vezes que denunciamos violência masculina e misógina. não somos obrigadas a responder a essas mensagens individualmente, e não vamos. sabe por quê?
não importa o que eu penso sobre homens. não importa se você conhece um homem diferente de todos os outros homens. eu não estou preocupada com isso. eu escrevo sobre coisas que aconteceram, por acreditar que é importante que pessoas saibam o que acontece com mulheres por responsabilidade dos homens. isto importa: que mulheres saibam que outras mulheres estão passando pela mesma coisa que elas, simplesmente pelo fato de serem mulheres.
se essas agressões são majoritariamente perpetradas por homens, essa conta fecha. gostaria que as pessoas se poupassem de constranger feministas e mulheres que ousam contar o que aconteceu e acontece a elas, e gastassem energia tentando não fazer a mesma coisa. se for para constranger alguém, que constranjam seus amigos homens a não fazerem a mesma coisa.
o que você pensa do relato individual das mulheres não é importante. o que eu penso sobre homens não é importante. desconfiar publicamente do relato de mulheres é, sim, desrespeitoso, e diminui o peso do testemunho. é uma tentativa de esvaziar politicamente o testemunho. preferir desconfiar de mulheres e priorizar homens é um risco absurdo, e uma hora essa bosta vai resvalar na sua bunda. se você se acha diferente, siga sendo diferente e não esqueça: uma hora o relato pode ser sobre você. tentar me explicar que nem todo homem é assim é perda de tempo.

Ardeth Platte




Ardeth Platte (nascida em 10 de abril de 1936)!
#Freira dominicana. Ativista anti-guerra. Ativista antinuclear. Membro do movimento de resistência Ploughhares. Presa muitas vezes. Residente de Jonah House em Baltimore, Maryland. Em 2000, a irmã Platte e duas irmãs (Jackie Hudson e Carol Gilbert) invadiram a Base da Força Aérea de Peterson, perto de Colorado Springs, Colorado, e pulverizaram um avião de combate com seu próprio sangue. Em 2002, as mesmas três mulheres invadiram um silo de mísseis Minuteman III no Colorado, onde novamente derramaram seu próprio sangue no local. A irmã Platte chama essas ações de "ministérios missionários". Ela foi considerada terrorista pela Polícia Estadual de Maryland. Em 1999, ela foi incluída no Hall da Fama das Mulheres de Michigan. Nasceu em Lansing, Michigan.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Rebecca Alpert




Rebecca Alpert (nascida em 12 de abril de 1950)!
#Rabina #Feminista
 Professora de Religião e Estudos da Mulher na Temple University. Autora de "Como Pão na Placa do Seder: Lésbicas Judaicas e a Transformação da Tradição" (Columbia University Press, 1997), "De quem é a Torá? Um Guia Conciso para o Judaísmo Progressista" (The New Press, 2008) e "Fora da Esquerda Campo: Judeus e Beisebol Negro "(Oxford University Press, 2011). Nascida em Brooklyn, Nova York.

Patriarcado, um violador em nosso caminho


Patriarcado, um violador em nosso caminho

5 de março de 2020

Um grito do Fórum de Gênero da Aliança de Batistas que chega às Igrejas
O patriarcado é um juiz
que nos julga por nascer,
e nosso castigo
é a violência que você não vê.
E a culpa não era minha,
nem onde estava,
nem como me vestia.
É feminicídio.
Impunidade para meu assassino.
É o desaparecimento.
É o estupro.
O violador era você. O violador é você.
São os policiais, os juízes, o estado, o Presidente. (1)
Esse foi o grito de um grupo de mulheres chilenas que ecoou em muitas partes do mundo em 2019. Na denúncia dos perpetuadores do patriarcado estão policiais, juízes, o Estado e o presidente.
E a Igreja, não deveria integrar essa lista? A Igreja tem sido mais violadora ou aliada das mulheres em suas lutas por igualdade, dignidade e direitos?
O patriarcado religioso que prevalece nas igrejas e estruturas cristãs é inimigo antigo que permanece aterrorizando a vida das mulheres. Talvez por isso gritava a escritora e artista Kate Millet: “O patriarcado tem Deus ao seu lado” (2). Historicamente, o cristianismo tem usado o nome de Deus para perpetuar e justificar o pecado do machismo e suas estruturas patriarcais.
Por isso, neste 08 de março, o Fórum de Gênero da Aliança de Batistas do Brasil faz desse dia de celebração um Grito!
“Eis que uma mulher cananeia, que tinha saído dessa região, começou a gritar…” Mateus 15:22
O grito das mulheres comprometidas com a fé cristã tem sido um grito profético de anúncio e denúncia.
Na América Latina cristã e cristianizada, o feminicídio (assassinato de mulheres por serem mulheres) mata 12 mulheres por dia, segundo dados da ONU. O Brasil tem a quinta maior taxa de feminicídio do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de assassinatos chega a uma taxa de 4,8 para cada 100 mil mulheres no país. A violência de gênero que atinge mulheres, principalmente mulheres pretas e periféricas, mulheres trans e a comunidade LGBTI+ continua crescente, expressando-se de diferentes formas tanto na sociedade quanto nas igrejas.
Como anunciar o reino de justiça e igualdade, se as igrejas e instituições cristãs ensinam e reproduzem um modelo de desigualdade entre homens e mulheres?
O uso constante de uma leitura patriarcal da Bíblia e da fé cristã pelas igrejas para marginalizar, excluir e silenciar as mulheres distorce e contradiz o princípio de igualdade entre mulheres e homens e não pode ser admitido como palavra autêntica de Deus. Trata-se, pelo contrário, de reflexo do pecado sexista e machista que atingiu as tradições interpretativas da Bíblia e da tradição cristã.
Por tudo isso, gritamos!
Esse grito ecoa desde as mulheres silenciadas ou ignoradas da Bíblia.
Em Isaías 42:14 as mulheres gritam: “Fomos mantidas muito tempo em silêncio, contidas, nos calaram. Mas, agora, como mulheres em trabalho de parto, gritamos, gememos e respiramos ofegante.”
Raquel e as mulheres de Ramá também gritam: “Ouve-se uma voz em Ramá, lamentação e amargo choro. É Raquel que chora por seus filhos e recusa-se a ser consolada!” (Jeremias 31:15).
“Eis que uma mulher cananeia, que tinha saído dessa região, começou a gritar”. (Mateus 15: 22): O grito dela constrange a Jesus, e denuncia que não há justiça e igualdade na mesa da religião onde mulheres sofrem com a violência do patriarcado disfarçado de doutrina, tratadas como “cachorrinhos”, aceitando as migalhas que caem da mesa religiosa do machismo institucional.
O nosso grito é o grito abafado da filha de Davi, violada pelo seu meio-irmão dentro de sua própria casa (2 Samuel 13:1-21).
O grito da injustiça sofrida por Tamar, que teve seus direitos negados sistematicamente pelos homens da família de Judá (Gênesis 38).
É também o grito e o pranto de Ana, que sofre as dores da humilhação perpetrada pela lei patriarcal que tratava as mulheres como meras máquinas de reprodução humana (1 Samuel 1:1-20).
O nosso grito se faz choro com as amigas da filha de Jefté que, chorando, denunciam o mal que homens cometem em nome da guerra (Juízes 11:1-40).
Gritamos e bradamos pela indefesa mulher do Levita que, assim como a filha de Jefté, teve seu corpo violado, assassinado no altar do sacrifício do patriarcado bíblico (Juízes 19).
Gritamos pela silenciada mulher acusada de adultério que depõe a hipocrisia dos seus acusadores que, escondendo seus próprios pecados, vivem de pedras na mão contra a vida das mulheres.
O grito dessas mulheres da Bíblia se junta ao grito de tantas mulheres de ontem e de hoje.
Ao grito impaciente e resistente de Rosa Parks, mulher negra e crente que com seu grito derrubou a lei segregacionista nos Estados Unidos da América.
Ao grito de Margarida Alves, que até hoje anima a luta das mulheres e homens do campo: “Medo nóis tem, mas nóis não usa!”.
Ao grito de tantas mulheres pobres, negras, nas periferias das cidades, camponesas, desde as fábricas até as academias que se unem num mesmo grito: “O patriarcado é um juiz que nos julga por nascer, e nosso castigo é a violência que você não quer ver”!
Como sociedade e Igreja, somos responsáveis e temos permitido e reproduzido um sistema patriarcal que tem gerado morte às mulheres de todas as classes, gênero, raça e religiões, com um terrível agravante da violência de gênero sofrida por meninas, mulheres negras, indígenas e trans.
Com muita indignação e vergonha, nos somamos a estes gritos que clamam por justiça de gênero, a começar pelas nossas igrejas. Diante do alarmante cenário que denuncia a conivência e negligência das instituições e igrejas cristãs, nós do Fórum de Gênero da Aliança de Batistas:
  • Pedimos perdão a todas as mulheres por ser parte do problema que atenta contra suas vidas, quando deveríamos como igrejas ser espaço de cuidado e apoio para o enfrentamento das violências perpetradas contra as mulheres.
  • Pedimos perdão a Deus pelo pecado do machismo patriarcal que predomina em nossas igrejas.
  • Convocamos a todas as igrejas cristãs, as comunidades de fé das distintas religiões e diversas expressões de espiritualidade a evocar a memória de todas as mulheres e grupos que foram e são vítimas da violência machista e patriarcal, e a nos somar ao grito delas que clama por justiça de gênero.
Finalizamos dando graças ao Deus que é espírito, vento e ventre criador de todas as coisas, que tem sustentado a fé e a esperança de todas as mulheres.
Que a nossa resistência seja alimentada pela fé e pela profecia das matriarcas Sara, Hagar e Raquel na busca de “uma terra prometida”, e que assim lutemos por outro mundo e outra igreja possível.
Que nosso grito seja fortalecido pelo testemunho de Maria de Nazaré, Maria Madalena e todas as mulheres do movimento de Jesus que caminham conosco até recuperarmos “a moeda perdida” por nós mulheres de fé cristã dentro da própria casa, a igreja, que deveria ser a comunidade de iguais inaugurada por Jesus.
E quem tem ouvido, ouça o que o Espírito diz às igrejas!
(1) Un Violador en Tu Camino”. Coletivo LasTesis, em ação pelo Dia do Combate à Violência Contra a Mulher, em 25 de novembro de 2019. Santiago do Chile.
(2) MILLET, Kate. Sexual Politics. Garden City: NY, Doubled Day & Company, 1970, p. 51.
acessado em 06/03/2020 às 09:03h

Ah, mas nem todo homem!


As estratégias de silenciamento do machismo contemporâneo




Descrição da imagem: Uma foto em preto e branco mostra uma mulher branca fazendo o gesto de silêncio com o dedo indicador na boca e com a boca coberta por dois esparadrapos em X. Foto de Kat Jayne — Pexels
acessado em 06/03/2020 às 08:59h

“nem todo homem”



um texto cínico para pedir perdão ao sexo masculino por ousarmos existir


não raro aparece alguém para dizer que a mulher deve se comportar para não acabar se insinuando para os outros e, com isso, não sofrer abusos. depois de ouvir frases como esta, confesso que revejo todos meus anos de vida e tenho muita vontade de pedir perdão.
pedir perdão ao médico que fez a primeira piada de ódio às mulheres quando me viu sair com uma vagina, da barriga de minha mãe. queria pedir perdão ao meu pai, por não ter nascido varão. pedir perdão aos meus avôs, que esperavam mais machos do que fêmeas, para discutir futebol, política e mulher nos almoços de domingo, com propriedade. aliás, queria pedir perdão a um dos meus avôs, especificamente, por passar com um pedaço da barriga aparecendo, na frente de seus amigos, aos 10 anos de idade, e incitá-los a comentar sobre meu corpo. perdão também, vô, por aquele dia de calor infernal que coloquei um short jeans e provoquei aquele outro amigo seu, velho nojento, pai de um colega de escola, a bater na minha bunda enquanto eu passava para visitar vovó. pelo menos sei que aqueles homens se divertiram.
pedir perdão pr’aquele médico famoso que dos sete aos 14 anos me apalpou a cada consulta, opinando sobre cada parte do meu corpo, tecendo comentários que variavam entre “elogios” e gordofobia. perdão a um menino mais velho, da cidade pequena, que, aos 15, me levou para um lugar escuro e disse que eu precisava perder a vergonha, colocando a mão dentro do meu short-saia, enquanto colegas da minha idade esperavam ansiosos para ouvir sobre a experiência que eu não queria ter vivido. perdão a todos os desgraçados que ao me conhecerem já avaliaram se sirvo pra transar ou pra casar. perdão, não deveria ter me insinuado para vocês.
perdão aos caras que tentaram — muitos conseguiram — transar comigo, com minhas irmãs e amigas, sem camisinha, dizendo que era a única vez, que éramos especiais, que camisinha machucava, que seria “só a cabecinha” ou que gozariam fora. perdão por termos sido burras e acreditado em vocês. perdão por termos abortado o filho de vocês.
perdão a cada homem que me olhou com nojo, ódio ou desejo me imaginando nua, magra, loira, de biquíni, de joelhos, amarrada, com outra mulher ou qualquer fetiche que o valha: eu provavelmente pedi isso. perdão aos caras que me abordaram, quando andava abraçada com uma amiga ou namorada, perguntando se não faltava um homem entre nós. perdão aos homens que perseguiram e espancaram e estupraram minhas amigas e namoradas por elas se negarem a relacionarem-se com eles. perdão aos homens que eu disse não, inclusive àqueles que acabei cedendo, de tanta pressão e insistência.
perdão por sentir medo e atravessar a rua quando vejo vocês, homens, passarem. mesmo quando vocês só iam olhar meu corpo, falar uma gracinha. perdão aos homens que vi abandonarem suas famílias, provavelmente essas mulheres escolheram criar seus filhos sozinhas. afinal, elas tinham mães e avós para ajudar. perdão por ter deixado aquele infeliz de merda me dizer como eu deveria me comportar, falar, andar, me vestir, se quisesse continuar com ele. perdão por ter insistido no término e ter te obrigado a levantar a voz e a mão para mim. sem contar as vezes que te fiz me perseguir no trabalho. perdão por ter caído no conto do professor apaixonado, pedófilo e sedutor, me dizendo que eu era diferente das meninas da minha idade. perdão por não ter percebido que eu era tão adolescente quanto elas.
perdão por generalizar homens. é que a minha experiência e a das mulheres que conheço não ajuda muito. mas, olha, estamos sempre dispostas a dar colher de chá: para vermos mais de nós assediadas. mais de nós estupradas. mais de nós mortas. não, claro que nem todo homem. nem todo homem. mas, necessariamente, toda mulher experienciou violência masculina.
cada vez que escrevo sobre algo que aconteceu comigo, ou com alguma mulher que conheço, por responsabilidade de uma pessoa do sexo masculino, é uma chuva de comentários de homens dizendo que nem todo homem é assim. toda vez. todas as vezes que denunciamos violência masculina e misógina. não somos obrigadas a responder a essas mensagens individualmente, e não vamos. sabe por quê?
não importa o que eu penso sobre homens. não importa se você conhece um homem diferente de todos os outros homens. eu não estou preocupada com isso. eu escrevo sobre coisas que aconteceram, por acreditar que é importante que pessoas saibam o que acontece com mulheres por responsabilidade dos homens. isto importa: que mulheres saibam que outras mulheres estão passando pela mesma coisa que elas, simplesmente pelo fato de serem mulheres.
se essas agressões são majoritariamente perpetradas por homens, essa conta fecha. gostaria que as pessoas se poupassem de constranger feministas e mulheres que ousam contar o que aconteceu e acontece a elas, e gastassem energia tentando não fazer a mesma coisa. se for para constranger alguém, que constranjam seus amigos homens a não fazerem a mesma coisa.
o que você pensa do relato individual das mulheres não é importante. o que eu penso sobre homens não é importante. desconfiar publicamente do relato de mulheres é, sim, desrespeitoso, e diminui o peso do testemunho. é uma tentativa de esvaziar politicamente o testemunho. preferir desconfiar de mulheres e priorizar homens é um risco absurdo, e uma hora essa bosta vai resvalar na sua bunda. se você se acha diferente, siga sendo diferente e não esqueça: uma hora o relato pode ser sobre você. tentar me explicar que nem todo homem é assim é perda de tempo.

Ardeth Platte




Ardeth Platte (nascida em 10 de abril de 1936)!
#Freira dominicana. Ativista anti-guerra. Ativista antinuclear. Membro do movimento de resistência Ploughhares. Presa muitas vezes. Residente de Jonah House em Baltimore, Maryland. Em 2000, a irmã Platte e duas irmãs (Jackie Hudson e Carol Gilbert) invadiram a Base da Força Aérea de Peterson, perto de Colorado Springs, Colorado, e pulverizaram um avião de combate com seu próprio sangue. Em 2002, as mesmas três mulheres invadiram um silo de mísseis Minuteman III no Colorado, onde novamente derramaram seu próprio sangue no local. A irmã Platte chama essas ações de "ministérios missionários". Ela foi considerada terrorista pela Polícia Estadual de Maryland. Em 1999, ela foi incluída no Hall da Fama das Mulheres de Michigan. Nasceu em Lansing, Michigan.

Rebecca Alpert




Rebecca Alpert (nascida em 12 de abril de 1950)!
#Rabina #Feminista
 Professora de Religião e Estudos da Mulher na Temple University. Autora de "Como Pão na Placa do Seder: Lésbicas Judaicas e a Transformação da Tradição" (Columbia University Press, 1997), "De quem é a Torá? Um Guia Conciso para o Judaísmo Progressista" (The New Press, 2008) e "Fora da Esquerda Campo: Judeus e Beisebol Negro "(Oxford University Press, 2011). Nascida em Brooklyn, Nova York.