quinta-feira, 30 de julho de 2026

Monogamia cristã e capitalismo

 



Saiba sobre o que são e como funcionam as monoculturas em minha tese de doutorado.
Acesse pelo link da bio - https://angelanatel.wordpress.com/2025/02/25/pre-venda-do-livro-de-asherah-a-lo-ruchamah-tese-de-doutorado-de-angela-natel/

Leitura da semana: trecho de "O médico e o monstro: uma leitura do progressismo latino-americano"

 




Demônio

 



Confira este fragmento de marfim representando um demônio-grifo! A34397: marfim, Síria, Idade do Bronze Final (1600–1200 AEC.)

Lembrando que o conceito de demônio da antiguidade não é o mesmo conceito de demônio das sociedades ocidentais e ocidentalizadas, proveniente dos monoteísmos e emprestada às linhas ocultistas. Tome cuidado para não confundir.

Saiba mais na playlist da Deusa/Demônia Lamashtu - https://www.youtube.com/watch?v=2Fy0kCWBVNw&list=PLRrzcVW8BygGBXJDbN7EvXpu5Lsu6Cefo

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Um homem descomplicado por Emily Wilson – sobre A Odisseia, dirigido por Christopher Nolan.

 

Um homem descomplicado por Emily Wilson – sobre A Odisseia, dirigido por Christopher Nolan.

Traduzido por Angela Natel

 

A versão cinematográfica de ação de Christopher Nolan — com orçamento de 250 milhões de dólares — para o antigo poema grego de Homero é uma maneira divertida de escapar das altas temperaturas por algumas horas. As marcas registradas de Nolan — saltos e reviravoltas na estrutura narrativa — são relativamente fáceis de acompanhar e adequadas para “A Odisseia”, uma narrativa composta por histórias dentro de histórias. Meus filhos adolescentes se divertiram. Ao contrário de alguns outros filmes de Nolan, “A Odisseia” não é entediante, graças ao material de origem, que é impossível de estragar completamente. É um espetáculo audiovisual para toda a família, como uma elaborada queima de fogos de artifício de 4 de julho — e com praticamente o mesmo nível de profundidade narrativa e emocional.

Assim como em seus filmes anteriores, Nolan se interessa pelas descontinuidades de espaço e tempo, pela magia, pelos truques, pelo ofício, pela tecnologia, pela rivalidade, pela substituição, pelas máscaras, pelas falhas de comunicação, pelo que lembramos e pelo que escolhemos esquecer. Mais uma vez, a sobrevivência é retratada como uma espécie de triunfo. Mais uma vez, há cenas longas e claustrofóbicas de afogamento e quase afogamento, e sequências tecnicamente impressionantes em que edifícios são consumidos pelas chamas e veículos explodem. Mais uma vez, acompanhamos a busca desesperada de um personagem masculino para recuperar e/ou vingar uma mulher amada. Eu esperava que a afinidade de Nolan com esses temas homéricos o levasse a novos patamares criativos e lhe permitisse criar personagens mais verossímeis. Mas “A Odisseia” apresenta sua combinação habitual de grandiosidade e superficialidade. Sem um pote de cera para os ouvidos — recurso que Euríloco (interpretado pelo sempre ansioso Himesh Patel), o braço direito condenado de Odisseu, utiliza para passar em segurança pelas Sereias —, fiquei exposta a todo o estrondo de bastões, cajados, espadas e armaduras se chocando, raios, ondas quebrando, grunhidos, gritos, palácios desmoronando e templos em chamas. Mas, ao contrário de Matt Damon — o Odisseu sem cera que é amarrado ao mastro enquanto passa pelas Sereias (mulheres nuas reclinadas em rochas de aparência desconfortável) —, contemplei os naufrágios e as carnificinas sem qualquer angústia emocional. Meus olhos permaneceram secos, até mesmo diante de Argos, o cachorro — cuja fofura de filhote é previsivelmente intensificada para agradar aos nossos tempos de amor pelos animais. Quem dera os personagens humanos tivessem recebido tamanha atenção e seriedade. A epopeia homérica já era, por si só, uma adaptação. O poema utilizava uma tecnologia relativamente nova — o alfabeto escrito — para reelaborar tradições míticas preexistentes, remodelando a história do retorno de um veterano para que ressoasse com as preocupações complexas dos gregos do período arcaico, uma era de migração, colonização e urbanização. Algumas comunidades gregas do século VII AEC. eram governadas por uma oligarquia; outras, por um único homem. O poema retrata a tensão entre as necessidades e os desejos de grupos de homens — os companheiros de Odisseu ou os pretendentes de sua esposa, Penélope — e os de um único homem poderoso e astuto, que deseja governar a todos e conquistar fama eterna para si mesmo. Em um período de transformações culturais e tecnológicas, a obra explora a fantasia de retroceder tanto no tempo quanto no espaço, ao mesmo tempo que evidencia os perigos e os custos dessa jornada. O poema aborda os desafios de encontrar estranhos, de entrar em suas casas e de acolhê-los ou rejeitá-los em seu próprio lar. As ressonâncias com a atualidade são evidentes, e o filme de Nolan sugere algumas delas, de maneiras interessantes, ainda que dispersas. No entanto, a visão do filme é confusa demais, e seus personagens, pouco desenvolvidos, para concretizar o que ele sugere vagamente em termos de grandes ideias — embora seja muito eficiente ao retratar grandes explosões e gigantes colossais.

Adaptações não precisam — nem devem — seguir o original com algo que se assemelhe à exatidão de uma tradução. Algumas das melhores transformam radicalmente ou resistem ao material de origem, oferecendo o que Harold Bloom chamou de "fortes más leituras" de seus predecessores. As respostas criativas mais memoráveis ​​à *Odisseia* como “Helena”, de Eurípides; a “Eneida”, de Virgílio; “O Paraíso Perdido”, de Milton; “Ulysses”, de Joyce; “Omeros”, de Walcott; “A Odisseia de Penélope”, de Atwood; “Circe”, de Madeline Miller; ou a peça de Lisa Peterson ambientada em um campo moderno de migrantes — reavaliam a estrutura, a narrativa e os valores do poema. Em teoria, Nolan parece compreender a tarefa e os riscos que ela envolve. Seu primeiro longa-metragem, “Following” (1998), foi um “thriller” poderoso em preto e branco sobre o fascínio e os perigos de seguir estranhos pelo espaço e pelo tempo. O caçador tem mais chances de se tornar a presa, sugere “Following”, se o aspirante a perseguidor carecer de uma identidade clara para além de uma crença equivocada em sua própria engenhosidade. Mas saber quais tentações devem ser evitadas não é o mesmo que evitá-las — como os homens de Odisseu descobrem da pior maneira ao matarem o gado sagrado do Sol. O Odisseu de Homero consegue voltar para casa porque é capaz, temporariamente, de reprimir seus próprios desejos: por carne e vinho, por sua esposa, pelo controle de seu lar e de suas terras, pela matança, pela vitória sobre o tempo e a ameaça do esquecimento, por um nome glorioso e eterno. No entanto, não há contenção na versão de Nolan para a “Odisseia”: cada segundo é repleto de acontecimentos, luzes e ruídos, e nada mantém uma escala humana.

O espetáculo de Nolan ameaça soterrar sua história, assim como as ondas gigantescas do mar cor de vinho — mais cinza do que púrpura — ameaçam submergir o navio de seu herói. Visualmente, esta “Odisseia” frequentemente remete a outras "épicas" das telas do século XXI, especialmente à trilogia “O Senhor dos Anéis”, de Peter Jackson. A visita à Terra dos Mortos lembrou-me das incursões para além da Muralha em “Game of Thrones”. Ao final do filme, um personagem parte para "navegar além do pôr do sol", e eu quase esperei que todos começassem a falar élfico. O filme não possui nada da sobriedade estilosa de “O retorno” (2024), de Uberto Pasolini, estrelado por um Ralph Fiennes marcado por cicatrizes, desesperado e quase nu, em conflito com seu retorno para casa e para uma Juliette Binoche visivelmente infeliz. Sem orçamento para deuses ou efeitos especiais, aquele filme nos convidava a refletir sobre o que resta da “Odisseia” e de seu herói quando reduzidos à sua essência bruta — à fibra muscular e ao coração faminto. Nolan, por sua vez, nos serve um banquete completo.

A escalação de elenco sem restrições raciais na “Odisseia” de Nolan foi, inevitavelmente, criticada por alguns setores. No entanto, não há nada de progressista nessa escolha. A maioria dos atores não brancos — Zendaya, Lupita Nyong’o, Himesh Patel, Corey Antonio Hawkins, Travis Scott — interpreta variações do clichê do "melhor amigo negro", cujo único papel no drama é prestar auxílio ao protagonista branco. Scott, no papel do bardo de Ítaca, Fêmio, grita algumas palavras e bate um bastão no chão, mas não chega a cantar, contar uma história ou tocar lira: a nota mais melódica da trilha sonora percussiva vem do som da corda do arco de Odisseu sendo puxada (uma bela imagem sonora do arqueiro como músico, extraída do poema). O papel duplo de Nyong’o como Helena e Clitemnestra é extremamente mal desenvolvido; ela dispõe de apenas alguns minutos em cena para encenar breves quadros de mulheres vítimas (a mãe enlutada e indignada, a esposa abusada, a adúltera arrependida).

Há mais personagens femininas do que na maioria dos filmes de Nolan, graças à obra original. Contudo, nenhuma delas tem muito a dizer, ao contrário de como são retratadas no poema. A Calipso de Homero profere um discurso operístico e de indignação admirável sobre os dois pesos e duas medidas dos deuses: deuses homens podem sequestrar e estuprar qualquer mortal que desejem, mas, quando uma deusa tenta fazer o mesmo, Zeus e seus comparsas frustram suas chances. É uma distorção engenhosa e cômica dos "fatos" mitológicos: quem ouve o poema sabe que é principalmente Atena (uma divindade feminina) quem está arrebatando de Calipso sua vítima mortal — sendo Hermes, a quem ela dirige suas queixas, apenas o mensageiro — e que Eos, a deusa da aurora, como nos foi lembrado poucas linhas antes, não foi proibida pelo patriarcado divino de manter Titono ao seu lado. A Calipso de Charlize Theron está deslumbrante, mas nunca demonstra raiva nem humor, não tem dotes retóricos e jamais é consumida pelo desejo por sua vítima mortal de aparência maltrapilha. Ela atua como uma terapeuta não remunerada, acalmando a alma de um Odisseu em frangalhos e atormentado pelo transtorno de estresse pós-traumático com o uso de drogas, enquanto ouve, com benevolência, seu relato desconexo de sofrimento.

Da mesma forma, a Penélope de Homero oferece a Odisseu, disfarçado, um relato incrivelmente vívido de um sonho que tivera sobre gansos em seu pátio sendo mortos por uma águia; a águia explicara que os gansos eram seus pretendentes, prestes a serem abatidos por seu marido que retornava. Mas, no sonho, Penélope chorava — sugerindo uma reação fascinantemente ambivalente ao retorno de Odisseu e ao fim iminente de seu longo período de espera, como uma noiva, pelo marido. A Penélope de Nolan não tem sonhos. O rosto de Anne Hathaway é tão expressivo quanto sempre, e ela parece bela e misteriosa, vista principalmente através do véu de uma cenografia engenhosa que separa os aposentos das mulheres do salão principal. Mas o roteiro não lhe dá nada para fazer além de ansiar por Matt Damon, por razões desconhecidas. O casal não tem química nem nada em comum. Ao longo de suas peregrinações, Odisseu — um marido devotado — apega-se a uma pequena estatueta, destinada a representar sua esposa (como o pião segurado por Leonardo DiCaprio em “A Origem”); a mulher real não é muito mais interessante.

É um desafio representar divindades no cinema sem cair na tolice de “Fúria de Titãs”, então Nolan pode ter agido com sensatez ao deixá-las de fora. Até mesmo a Atena de Zendaya, com um papel pouco desenvolvido, revela-se uma vítima vulnerável da guerra, ou talvez uma projeção da consciência de Odisseu — e não uma deusa da guerra sanguinária e cheia de estratagemas. Outras deusas aparecem em participações breves — Calipso, as Sereias com traços de foca, Circe, Cila e Caríbdis —, mas não há indício de que devamos perceber que são deusas. Poseidon, Hermes e Hélio não aparecem pessoalmente, embora haja algumas tempestades e naufrágios assustadores. Um dos meus momentos favoritos foi quando Zendaya garante a Damon que não é difícil para os mortais entenderem os deuses: "Quem não entende o trovão? O fogo?" Mas o filme tenta seguir dois caminhos ao mesmo tempo. Não há deuses e, no entanto, naufrágios e mortes são apresentados como a consequência inevitável de cegar o filho de Poseidon e devorar o Gado do Sol. A lei de Zeus é retratada como algo de importância crucial e, contudo, não há Zeus. A visão de mundo de Nolan não é ampla o suficiente para abarcar deuses reais ou pessoas reais que sejam diferentes de nós.

Há gigantes, incluindo Polifemo (aqui, um Ciclope solitário) e alguns Lestrigões vestidos de forma exagerada. Circe, interpretada com vigor telúrico por Samantha Morton, é uma espécie de Baba Yaga em uma cabana digna de João e Maria; ela utiliza um procedimento de cirurgia plástica trabalhoso para transformar os homens gananciosos de Odisseu nos porcos que eles, na verdade, já são. Há apenas um comedor de lótus, embora o tema da amnésia adquira um novo significado, como seria de esperar. Cenas famosas passam rapidamente: Cila e Caríbdis ameaçam o barco, Euricleia reconhece a cicatriz na perna de Odisseu, Antínoo arremessa um banquinho contra nosso herói disfarçado. Algumas sequências notáveis ​​do épico estão ausentes: o filme ignora a ilha de Esquéria, lar da prestativa princesa Nausícaa, onde o Odisseu de Homero narra suas aventuras fantásticas aos hospitaleiros feácios. Não há espaço, neste filme maximalista, para algo tão encantadoramente cotidiano e de pequena escala quanto a lavagem de roupas de Nausícaa e suas fantasias juvenis sobre um futuro marido. O Odisseu de Damon, com sua aparência envelhecida e rude, não é nem um grande contador de histórias nem um sedutor. Mais importante ainda: a inclusão de uma terra estrangeira amigável, rica e culta teria trazido mais confusão à premissa já confusa do filme — a de que essa versão hollywoodiana da Grécia micênica é a única "civilização" do mundo, o único lugar que ainda se lembra, ainda que vagamente, de que estranhos e mendigos devem ser acolhidos, conforme a lei de Zeus.

Os figurinos, as armaduras, os barcos e a arquitetura são uma mistura heterogênea, o que condiz com o poema de Homero — ele próprio fruto de muitas gerações de tradição oral, incorporando elementos de diferentes épocas, dialetos e tradições. Linguisticamente, o grego homérico também é uma composição híbrida — embora seja sempre poesia métrica, e não uma língua que alguém tenha realmente falado. Apesar da indignação fabricada na internet, não há nada inerentemente errado na tentativa do filme de se aproximar da fala estadunidense contemporânea. Se não se vai escrever um roteiro em grego homérico, ou mesmo em versos métricos em inglês, é melhor usar algo como o inglês estadunidense coloquial. Mas escrever diálogos não é um dos talentos de Nolan. A linguagem é implacavelmente expositiva, sem humor e monótona. Tentativas de uma fala vigorosa — "Meu pai está voltando para casa" ou "Vamos sair desta praia de merda" — soam estranhas ao lado de reflexões grandiosas: "Sim, minha rainha. A violação da lei de Zeus, espalhando-se como uma praga. Nossa Era do Bronze está ruindo, e talvez ele não suportasse ver as ruínas do que havia feito. Em qualquer lugar. Menos ainda, em sua própria casa."

 

Como dizem nas cerimônias de premiação, senti-me honrada ao saber que Nolan leu pelo menos o primeiro verso da minha tradução da “Odisseia” em pentâmetro iâmbico. Em pelo menos uma entrevista, ele citou a minha versão do primeiro verso do poema: "Fala-me de um homem complicado". Mas eu teria vergonha de ter escrito qualquer parte deste roteiro. Infelizmente, o Odisseu de Damon não é complicado, nem astuto, nem cheio de artimanhas. Um dos truques mais engraçados (e famosos) de Odisseu em Homero é dizer a Polifemo que seu nome é "Ninguém". Quando o gigante cegado grita por socorro aos vizinhos, os outros ciclopes ficam tranquilos ao saber que é "Ninguém" quem o está ferindo. No filme, Odisseu não precisa superar Polifemo pela inteligência, pois o ciclope é uma marionete desprovida de qualquer raciocínio. O gigante caolho de Nolan, que apenas grunhe, é tratado como um "isso", mal fala, não fica bêbado e não tem vizinhos nem uma ovelha favorita. Talvez de forma ainda mais surpreendente vindo do diretor de “Oppenheimer”, o Odisseu de Damon — um sujeito desajeitado e de movimentos pesados ​​ também parece carecer de inteligência técnica (“polymēchania”). Ele não constrói um leito nupcial a partir de uma árvore que cresce dentro de sua casa (seria um esforço inútil, já que ele raramente parece dormir ou fazer sexo). A jangada com a qual escapa de Calipso é improvisada a partir de alguns pedaços de madeira à deriva (em contraste com o trabalho elaborado de corte de madeira e construção naval descrito por Homero). Não vemos o projeto nem a construção do Cavalo de Troia; em vez disso, um cavalo de gosto duvidoso e mal projetado (sem rodas) surge na praia varrida pelo vento, como se tivesse sido deixado ali por um drone. As dificuldades de transportar objetos grandes e desajeitados por terrenos acidentados certamente passaram pela cabeça do diretor enquanto ele carregava suas câmeras IMAX pelos muitos locais desafiadores da filmagem.

A nova abordagem mais evidente que Nolan traz ao material de origem é uma subtrama baseada em uma história da “Eneida”, descrevendo como os troianos foram enganados para levar o Cavalo de Troia (uma invenção do "cruel Ulisses") para dentro da cidade, graças às maquinações de um agente duplo grego chamado Sinon (cujo nome significa "nocivo"). Em contraste com a representação relativamente positiva da inteligência astuta na “Odisseia” de Homero, Virgílio retrata Ulisses como cruel e predatório; Sinon é seu cúmplice enganador.

No filme de Nolan, Sinon é interpretado por Elliot Page e, longe de ser um vilão, ele é o centro moral da obra. Ele é recrutado para a Guerra de Troia ainda jovem e corajoso, devido às maquinações malignas de um adolescente que tenta escapar do alistamento, Antínoo (interpretado na vida adulta por um Robert Pattinson carismaticamente repulsivo). O principal arco emocional do filme gira em torno da constatação tardia de Odisseu de que ele foi cúmplice da exploração de Sinon, por não lhe ter dito a verdade sobre a trama do Cavalo de Troia. Ao recuperar a memória, Odisseu é consumido pela culpa. O filme não aborda os dilemas morais levantados por sua própria invenção narrativa — como, por exemplo, por que é tão importante saber se Batman contou toda a verdade ao valente Robin, visto que ele morreria instantaneamente de qualquer maneira; ou por que o inocente Sinon quer participar do plano, se o saque de Troia foi algo tão terrível quanto o filme sugere. A mentira de Odisseu para Sinon não desencadeia a Guerra de Troia, e os troianos provavelmente teriam levado o cavalo para a cidade de qualquer forma — como fazem na “Odisseia” de Homero. Essa subtrama confusa é imposta ao filme para servir à mensagem implacavelmente didática de Nolan sobre o mundo anglófono contemporâneo: a de que as mentiras e a xenofobia da Guerra ao Terror e do Brexit iniciaram um declínio cultural que agora destrói os valores que "nós" mais prezamos.

A outra grande adição de Nolan à narrativa de Homero é a referência recorrente a ameaças à "nossa civilização" por parte dos "Povos do Mar" — uma teoria do século XIX, hoje refutada, sobre povos marítimos que teriam atacado o Egito por volta de 1200 AEC. e que também teriam sido responsáveis ​​pelo colapso da cultura grega micênica, ocorrido aproximadamente na mesma época. "Nossa civilização está sob ataque", lamenta Penélope. Odisseu a consola dizendo que a "civilização da Idade do Bronze" incluindo a escrita renascerá das cinzas. O consenso atual, como Nolan certamente sabe, é que não existiram "Povos do Mar" como tais, e que a transição do mundo de língua grega saindo da cultura palaciana mais centralizada e letrada dos micênicos no século XI AEC. em direção às formações sociais fragmentadas do início da Idade do Ferro grega — foi causada por uma série de fatores, incluindo mudanças climáticas, terremotos e agitação interna. Nolan utiliza essas teorias históricas divergentes para criar uma reviravolta narrativa característica sobre a identidade dos "Povos do Mar" — algo que não vou revelar, embora você provavelmente consiga adivinhar.

A lei de Zeus é uma versão da “xênia” grega arcaica: as relações idealizadas entre estranhos, anfitriões e hóspedes, que devem tratar uns aos outros com respeito mútuo, formando assim laços multigeracionais entre famílias sem parentesco. No filme, a “xênia” é filtrada por ideias estadunidenses contemporâneas sobre a importância da caridade filantrópica: pessoas ricas devem ser benevolentes para com os pobres e famintos em seu meio (sem necessariamente fazer algo para mitigar a pobreza deles). Muitos dos valores implícitos do filme contradizem diretamente os do poema de Homero. O engano, o belicismo, o sexo extraconjugal, a crueldade com animais, o abuso de mulheres e a busca pela honra — coisas perfeitamente aceitáveis ​​no mundo de Homero são, nesta versão, muito condenáveis. Isso não é um problema em si, mas torna-se um se os valores e a visão do próprio filme não forem coerentes entre si, e se as motivações dos personagens não fizerem sentido dentro de sua própria lógica.

Na “Odisseia” de Nolan, o massacre de pessoas com o auxílio de artimanhas, tecnologia e armas é apresentado como algo negativo quando os gregos matam os troianos — que violaram a “xênia” (a lei da hospitalidade) —, mas como algo positivo quando Odisseu mata os pretendentes, que também violaram a “xênia”. Apossar-se de algo aparentemente abandonado por Odisseu e seus companheiros é natural e perdoável quando os troianos reivindicam o cavalo, mas antinatural e imperdoável quando os pretendentes reivindicam o palácio, a comida, o vinho e a esposa de Odisseu. Estranhos em Ítaca devem ser tratados com gentil hospitalidade, como possíveis deuses disfarçados; já estranhos em terras estrangeiras são, geralmente, vistos como monstros destinados a ser cegados, roubados e massacrados. Desafiar os deuses é um ato nobre e corajoso quando Odisseu cega Polifemo, filho de Poseidon; é um ato estúpido e ganancioso quando Euríloco devora o Gado do Sol. O engano é condenável quando Odisseu engana Sinon ou quando os pretendentes enganam Telêmaco, mas louvável quando Telêmaco e Odisseu enganam os pretendentes. Compartilhar é bom, e vemos Odisseu assumindo seu lugar no remo ao lado de seus homens; contudo, o governo de um só homem também é inequivocamente positivo, e aqueles que desafiam a monarquia ou a autocracia — ou tentam comer mais do que a sua porção estipulada — são vistos ou como malignos (os pretendentes) ou como tolos (Euríloco). Seja como for, eles precisam morrer. É condenável lutar e matar para acumular riqueza, como faz Agamêmnon; é louvável lutar e matar para preservar a riqueza já adquirida (mesmo que por meio da guerra). Qualquer uma dessas contradições morais poderia render um tema interessante e fértil para um filme, mas Nolan deixa os fragmentos de um conjunto incompleto de grandes ideias girarem no turbilhão épico, sem oferecer nenhuma tábua de experiência humana sólida e específica à qual possamos nos agarrar.

A “Odisseia” de Homero oferece um relato claro e comovente dos sentimentos, histórias e perspectivas de vários companheiros e subordinados de Odisseu, incluindo Euríloco e o porqueiro escravizado, Eumeu. Sequestrado, traficado e vendido como escravo ainda criança, Eumeu fantasia que seu antigo captor — Odisseu — um dia retornará e lhe dará um lar próprio. No filme, nenhum desses personagens secundários possui personalidade própria. Mentor (Ryan Hurst), que ajuda Telêmaco (Tom Holland), não é uma deusa disfarçada, mas um sujeito prestativo e barbudo; Euríloco não é um rival amargurado de Odisseu, mas outro sujeito prestativo e barbudo. John Leguizamo faz o que pode com o papel de Eumeu — agora acometido por catarata para garantir que ele não reconheça Odisseu até o momento certo —, mas o roteiro de Nolan não lhe dá nada com que trabalhar; o único desejo desse "servo" (termo preferido do filme para "escravo") é tornar a vida de Odisseu mais confortável. No entanto, o Odisseu de Damon continua infeliz enquanto caminha obstinadamente em direção à câmera, atravessando mais uma bela paisagem.

A Guerra de Troia é uma aberração, culpa do monstruoso e impessoal Agamenon (aquele com o traje estranho à la Darth Vader), que fracassou como um homem de família americano ao matar a própria filha. Odisseu é um líder idealizado que jamais colocaria seu povo em perigo por vontade própria: seus homens insistem tolamente em ir conferir a cabana de Circe por conta própria, e ele gentilmente vai buscá-los (sem parar para transar com a deusa nem por uma hora, muito menos por um ano mágico inteiro como Homero descreveu). O Odisseu de Damon é motivado principalmente pela ansiedade e pela culpa, embora também esteja ansioso para proteger seu filho (Holland é bom em interpretar um jovem de vinte anos com mentalidade de doze).

No entanto, a representação de Odisseu como um líder guerreiro relutante torna absurdo o mundo imaginado pelo filme. Não nos é mostrado que a guerra ou o ato de matar são coisas ruins, apenas que homens bons às vezes se sentem mal a esse respeito — uma questão bem diferente. Qualquer representação séria da violência, seja antiga ou moderna, deve mostrar as perspectivas tanto das vítimas quanto dos agressores — e os poemas homéricos superam esse desafio com facilidade —, mas Nolan não o faz. Os troianos são desumanizados por suas máscaras; não conhecemos nenhum deles pelo nome ou pelo rosto. As mãos de Odisseu e Telêmaco ficam sujas de sangue apenas através das formas mais "justas" de matar — típicas de jogos de computador —, e não sentimos pena nem horror diante da morte de suas vítimas, sejam elas troianos, gigantes, pretendentes ou escravos. Durante o saque de Troia — que ele supostamente organizou —, Odisseu olha ao redor com perplexidade e horror, como se nunca tivesse visto um massacre antes.

Ao mesmo tempo, somos convidados a desprezar o principal pretendente de Penélope, Antínoo (cujo nome significa "mente oposta"), por ser covarde, mentiroso e intrigante. O filme nos pede, simultaneamente, que nos horrorizemos com a guerra e que celebremos as sequências típicas de filmes de ação nas quais o guerreiro relutante finalmente empunha seu arco e o sangue começa a jorrar. O massacre dos pretendentes é, provavelmente, a sequência mais divertida do filme. O vilão exuberante Antínoo — Pattinson é a única pessoa no elenco que parece estar se divertindo — claramente merece ser morto a punhaladas com a adaga de Sinon, mas também merece um dos Oscars que certamente choverão sobre este filme como a chuva de ouro de Zeus.

A “Odisseia” de Nolan carece de muitos dos elementos que tornam o poema grandioso. O filme não tem nada de convincente a dizer sobre tempo, memória, história, guerra ou sobre a relação entre o retorno glorioso de um guerreiro e as vidas de sua família, adversários, companheiros, amigos e vizinhos. Falta-lhe profundidade psicológica, emocional, política e ética. Sua estrutura narrativa é baseada em artifícios superficiais. O roteiro é péssimo. Nenhum dos personagens apresenta motivação convincente para suas ações ou palavras. Não há cenas de sexo, e toda a comida parece horrível. O problema ético mais preocupante na “Odisseia” de Nolan diz respeito à decisão de filmar parte do longa no território ocupado do Saara Ocidental, normalizando, assim, a violência contínua contra o povo indígena saaraui. É particularmente revoltante que Nolan tenha usado essa terra simplesmente como um cenário visualmente impactante para um filme que centra, engrandece e redime o herói de uma guerra territorial, graças ao seu reconhecimento tardio e parcial da própria culpa.

Apesar de tudo isso, o lançamento de “A Odisseia” ainda é um evento a ser celebrado. Naquilo que chamam de era do streaming, essa obra épica está levando o público de volta aos cinemas. Em um momento que dizem ser de declínio da alfabetização e da "morte das humanidades", as traduções de “A Odisseia” — inclusive a minha — estão se esgotando rapidamente nas livrarias. Algumas das pessoas que compram o livro ou vão ao cinema para ver Tom Holland podem acabar estudando grego antigo. Talvez o filme convença alguns administradores universitários a não cortarem seus departamentos de literatura, línguas e história. Nolan, que estudou língua inglesa na University College London — onde os alunos ainda estudam “A Odisseia” como um "texto fundamental" no primeiro ano —, está fazendo o possível para incentivar o público em geral a ler novamente, e sou grata por isso.

 

The Odyssey by Homer, translated by Emily Wilson — Yellow Dog Bookshop

Tradução da Odisseia por Emily Wilson


Ouça Emily Wilson discutir este artigo com Thomas Jones no podcast da LRB.

https://www.lrb.co.uk/podcasts-and-videos/podcasts/the-lrb-podcast/nolan-v.-homer


Fonte da crítica original em inglês: https://www.lrb.co.uk/the-paper/v48/n14/emily-wilson/an-uncomplicated-man

Iconografia funerária filisteia

 


Polícia e racismo.

 



Polícia e racismo.

Saiba mais na live Zé Pilintra e a Malandragem no Brasil, com Inês Barreto. - https://www.youtube.com/watch?v=7qMba6L_Rx4&t=101s

Saiba mais na live MORTE PELA POLÍCIA COMO SACRIFÍCIO HUMANO RITUAL - https://www.youtube.com/watch?v=LrgvxaduLyo&t=47s

O nome da Rosa, de Umberto Eco

 



O nome da Rosa, de Umberto Eco
Saiba mais na live Bruxaria no Brasil, com Inês Barreto. - https://www.youtube.com/watch?v=nX0GUmY3zgI&t=168s

Monogamia cristã e capitalismo

 



Saiba sobre o que são e como funcionam as monoculturas em minha tese de doutorado.
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Leitura da semana: trecho de "O médico e o monstro: uma leitura do progressismo latino-americano"

 




Demônio

 



Confira este fragmento de marfim representando um demônio-grifo! A34397: marfim, Síria, Idade do Bronze Final (1600–1200 AEC.)

Lembrando que o conceito de demônio da antiguidade não é o mesmo conceito de demônio das sociedades ocidentais e ocidentalizadas, proveniente dos monoteísmos e emprestada às linhas ocultistas. Tome cuidado para não confundir.

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Um homem descomplicado por Emily Wilson – sobre A Odisseia, dirigido por Christopher Nolan.

 

Um homem descomplicado por Emily Wilson – sobre A Odisseia, dirigido por Christopher Nolan.

Traduzido por Angela Natel

 

A versão cinematográfica de ação de Christopher Nolan — com orçamento de 250 milhões de dólares — para o antigo poema grego de Homero é uma maneira divertida de escapar das altas temperaturas por algumas horas. As marcas registradas de Nolan — saltos e reviravoltas na estrutura narrativa — são relativamente fáceis de acompanhar e adequadas para “A Odisseia”, uma narrativa composta por histórias dentro de histórias. Meus filhos adolescentes se divertiram. Ao contrário de alguns outros filmes de Nolan, “A Odisseia” não é entediante, graças ao material de origem, que é impossível de estragar completamente. É um espetáculo audiovisual para toda a família, como uma elaborada queima de fogos de artifício de 4 de julho — e com praticamente o mesmo nível de profundidade narrativa e emocional.

Assim como em seus filmes anteriores, Nolan se interessa pelas descontinuidades de espaço e tempo, pela magia, pelos truques, pelo ofício, pela tecnologia, pela rivalidade, pela substituição, pelas máscaras, pelas falhas de comunicação, pelo que lembramos e pelo que escolhemos esquecer. Mais uma vez, a sobrevivência é retratada como uma espécie de triunfo. Mais uma vez, há cenas longas e claustrofóbicas de afogamento e quase afogamento, e sequências tecnicamente impressionantes em que edifícios são consumidos pelas chamas e veículos explodem. Mais uma vez, acompanhamos a busca desesperada de um personagem masculino para recuperar e/ou vingar uma mulher amada. Eu esperava que a afinidade de Nolan com esses temas homéricos o levasse a novos patamares criativos e lhe permitisse criar personagens mais verossímeis. Mas “A Odisseia” apresenta sua combinação habitual de grandiosidade e superficialidade. Sem um pote de cera para os ouvidos — recurso que Euríloco (interpretado pelo sempre ansioso Himesh Patel), o braço direito condenado de Odisseu, utiliza para passar em segurança pelas Sereias —, fiquei exposta a todo o estrondo de bastões, cajados, espadas e armaduras se chocando, raios, ondas quebrando, grunhidos, gritos, palácios desmoronando e templos em chamas. Mas, ao contrário de Matt Damon — o Odisseu sem cera que é amarrado ao mastro enquanto passa pelas Sereias (mulheres nuas reclinadas em rochas de aparência desconfortável) —, contemplei os naufrágios e as carnificinas sem qualquer angústia emocional. Meus olhos permaneceram secos, até mesmo diante de Argos, o cachorro — cuja fofura de filhote é previsivelmente intensificada para agradar aos nossos tempos de amor pelos animais. Quem dera os personagens humanos tivessem recebido tamanha atenção e seriedade. A epopeia homérica já era, por si só, uma adaptação. O poema utilizava uma tecnologia relativamente nova — o alfabeto escrito — para reelaborar tradições míticas preexistentes, remodelando a história do retorno de um veterano para que ressoasse com as preocupações complexas dos gregos do período arcaico, uma era de migração, colonização e urbanização. Algumas comunidades gregas do século VII AEC. eram governadas por uma oligarquia; outras, por um único homem. O poema retrata a tensão entre as necessidades e os desejos de grupos de homens — os companheiros de Odisseu ou os pretendentes de sua esposa, Penélope — e os de um único homem poderoso e astuto, que deseja governar a todos e conquistar fama eterna para si mesmo. Em um período de transformações culturais e tecnológicas, a obra explora a fantasia de retroceder tanto no tempo quanto no espaço, ao mesmo tempo que evidencia os perigos e os custos dessa jornada. O poema aborda os desafios de encontrar estranhos, de entrar em suas casas e de acolhê-los ou rejeitá-los em seu próprio lar. As ressonâncias com a atualidade são evidentes, e o filme de Nolan sugere algumas delas, de maneiras interessantes, ainda que dispersas. No entanto, a visão do filme é confusa demais, e seus personagens, pouco desenvolvidos, para concretizar o que ele sugere vagamente em termos de grandes ideias — embora seja muito eficiente ao retratar grandes explosões e gigantes colossais.

Adaptações não precisam — nem devem — seguir o original com algo que se assemelhe à exatidão de uma tradução. Algumas das melhores transformam radicalmente ou resistem ao material de origem, oferecendo o que Harold Bloom chamou de "fortes más leituras" de seus predecessores. As respostas criativas mais memoráveis ​​à *Odisseia* como “Helena”, de Eurípides; a “Eneida”, de Virgílio; “O Paraíso Perdido”, de Milton; “Ulysses”, de Joyce; “Omeros”, de Walcott; “A Odisseia de Penélope”, de Atwood; “Circe”, de Madeline Miller; ou a peça de Lisa Peterson ambientada em um campo moderno de migrantes — reavaliam a estrutura, a narrativa e os valores do poema. Em teoria, Nolan parece compreender a tarefa e os riscos que ela envolve. Seu primeiro longa-metragem, “Following” (1998), foi um “thriller” poderoso em preto e branco sobre o fascínio e os perigos de seguir estranhos pelo espaço e pelo tempo. O caçador tem mais chances de se tornar a presa, sugere “Following”, se o aspirante a perseguidor carecer de uma identidade clara para além de uma crença equivocada em sua própria engenhosidade. Mas saber quais tentações devem ser evitadas não é o mesmo que evitá-las — como os homens de Odisseu descobrem da pior maneira ao matarem o gado sagrado do Sol. O Odisseu de Homero consegue voltar para casa porque é capaz, temporariamente, de reprimir seus próprios desejos: por carne e vinho, por sua esposa, pelo controle de seu lar e de suas terras, pela matança, pela vitória sobre o tempo e a ameaça do esquecimento, por um nome glorioso e eterno. No entanto, não há contenção na versão de Nolan para a “Odisseia”: cada segundo é repleto de acontecimentos, luzes e ruídos, e nada mantém uma escala humana.

O espetáculo de Nolan ameaça soterrar sua história, assim como as ondas gigantescas do mar cor de vinho — mais cinza do que púrpura — ameaçam submergir o navio de seu herói. Visualmente, esta “Odisseia” frequentemente remete a outras "épicas" das telas do século XXI, especialmente à trilogia “O Senhor dos Anéis”, de Peter Jackson. A visita à Terra dos Mortos lembrou-me das incursões para além da Muralha em “Game of Thrones”. Ao final do filme, um personagem parte para "navegar além do pôr do sol", e eu quase esperei que todos começassem a falar élfico. O filme não possui nada da sobriedade estilosa de “O retorno” (2024), de Uberto Pasolini, estrelado por um Ralph Fiennes marcado por cicatrizes, desesperado e quase nu, em conflito com seu retorno para casa e para uma Juliette Binoche visivelmente infeliz. Sem orçamento para deuses ou efeitos especiais, aquele filme nos convidava a refletir sobre o que resta da “Odisseia” e de seu herói quando reduzidos à sua essência bruta — à fibra muscular e ao coração faminto. Nolan, por sua vez, nos serve um banquete completo.

A escalação de elenco sem restrições raciais na “Odisseia” de Nolan foi, inevitavelmente, criticada por alguns setores. No entanto, não há nada de progressista nessa escolha. A maioria dos atores não brancos — Zendaya, Lupita Nyong’o, Himesh Patel, Corey Antonio Hawkins, Travis Scott — interpreta variações do clichê do "melhor amigo negro", cujo único papel no drama é prestar auxílio ao protagonista branco. Scott, no papel do bardo de Ítaca, Fêmio, grita algumas palavras e bate um bastão no chão, mas não chega a cantar, contar uma história ou tocar lira: a nota mais melódica da trilha sonora percussiva vem do som da corda do arco de Odisseu sendo puxada (uma bela imagem sonora do arqueiro como músico, extraída do poema). O papel duplo de Nyong’o como Helena e Clitemnestra é extremamente mal desenvolvido; ela dispõe de apenas alguns minutos em cena para encenar breves quadros de mulheres vítimas (a mãe enlutada e indignada, a esposa abusada, a adúltera arrependida).

Há mais personagens femininas do que na maioria dos filmes de Nolan, graças à obra original. Contudo, nenhuma delas tem muito a dizer, ao contrário de como são retratadas no poema. A Calipso de Homero profere um discurso operístico e de indignação admirável sobre os dois pesos e duas medidas dos deuses: deuses homens podem sequestrar e estuprar qualquer mortal que desejem, mas, quando uma deusa tenta fazer o mesmo, Zeus e seus comparsas frustram suas chances. É uma distorção engenhosa e cômica dos "fatos" mitológicos: quem ouve o poema sabe que é principalmente Atena (uma divindade feminina) quem está arrebatando de Calipso sua vítima mortal — sendo Hermes, a quem ela dirige suas queixas, apenas o mensageiro — e que Eos, a deusa da aurora, como nos foi lembrado poucas linhas antes, não foi proibida pelo patriarcado divino de manter Titono ao seu lado. A Calipso de Charlize Theron está deslumbrante, mas nunca demonstra raiva nem humor, não tem dotes retóricos e jamais é consumida pelo desejo por sua vítima mortal de aparência maltrapilha. Ela atua como uma terapeuta não remunerada, acalmando a alma de um Odisseu em frangalhos e atormentado pelo transtorno de estresse pós-traumático com o uso de drogas, enquanto ouve, com benevolência, seu relato desconexo de sofrimento.

Da mesma forma, a Penélope de Homero oferece a Odisseu, disfarçado, um relato incrivelmente vívido de um sonho que tivera sobre gansos em seu pátio sendo mortos por uma águia; a águia explicara que os gansos eram seus pretendentes, prestes a serem abatidos por seu marido que retornava. Mas, no sonho, Penélope chorava — sugerindo uma reação fascinantemente ambivalente ao retorno de Odisseu e ao fim iminente de seu longo período de espera, como uma noiva, pelo marido. A Penélope de Nolan não tem sonhos. O rosto de Anne Hathaway é tão expressivo quanto sempre, e ela parece bela e misteriosa, vista principalmente através do véu de uma cenografia engenhosa que separa os aposentos das mulheres do salão principal. Mas o roteiro não lhe dá nada para fazer além de ansiar por Matt Damon, por razões desconhecidas. O casal não tem química nem nada em comum. Ao longo de suas peregrinações, Odisseu — um marido devotado — apega-se a uma pequena estatueta, destinada a representar sua esposa (como o pião segurado por Leonardo DiCaprio em “A Origem”); a mulher real não é muito mais interessante.

É um desafio representar divindades no cinema sem cair na tolice de “Fúria de Titãs”, então Nolan pode ter agido com sensatez ao deixá-las de fora. Até mesmo a Atena de Zendaya, com um papel pouco desenvolvido, revela-se uma vítima vulnerável da guerra, ou talvez uma projeção da consciência de Odisseu — e não uma deusa da guerra sanguinária e cheia de estratagemas. Outras deusas aparecem em participações breves — Calipso, as Sereias com traços de foca, Circe, Cila e Caríbdis —, mas não há indício de que devamos perceber que são deusas. Poseidon, Hermes e Hélio não aparecem pessoalmente, embora haja algumas tempestades e naufrágios assustadores. Um dos meus momentos favoritos foi quando Zendaya garante a Damon que não é difícil para os mortais entenderem os deuses: "Quem não entende o trovão? O fogo?" Mas o filme tenta seguir dois caminhos ao mesmo tempo. Não há deuses e, no entanto, naufrágios e mortes são apresentados como a consequência inevitável de cegar o filho de Poseidon e devorar o Gado do Sol. A lei de Zeus é retratada como algo de importância crucial e, contudo, não há Zeus. A visão de mundo de Nolan não é ampla o suficiente para abarcar deuses reais ou pessoas reais que sejam diferentes de nós.

Há gigantes, incluindo Polifemo (aqui, um Ciclope solitário) e alguns Lestrigões vestidos de forma exagerada. Circe, interpretada com vigor telúrico por Samantha Morton, é uma espécie de Baba Yaga em uma cabana digna de João e Maria; ela utiliza um procedimento de cirurgia plástica trabalhoso para transformar os homens gananciosos de Odisseu nos porcos que eles, na verdade, já são. Há apenas um comedor de lótus, embora o tema da amnésia adquira um novo significado, como seria de esperar. Cenas famosas passam rapidamente: Cila e Caríbdis ameaçam o barco, Euricleia reconhece a cicatriz na perna de Odisseu, Antínoo arremessa um banquinho contra nosso herói disfarçado. Algumas sequências notáveis ​​do épico estão ausentes: o filme ignora a ilha de Esquéria, lar da prestativa princesa Nausícaa, onde o Odisseu de Homero narra suas aventuras fantásticas aos hospitaleiros feácios. Não há espaço, neste filme maximalista, para algo tão encantadoramente cotidiano e de pequena escala quanto a lavagem de roupas de Nausícaa e suas fantasias juvenis sobre um futuro marido. O Odisseu de Damon, com sua aparência envelhecida e rude, não é nem um grande contador de histórias nem um sedutor. Mais importante ainda: a inclusão de uma terra estrangeira amigável, rica e culta teria trazido mais confusão à premissa já confusa do filme — a de que essa versão hollywoodiana da Grécia micênica é a única "civilização" do mundo, o único lugar que ainda se lembra, ainda que vagamente, de que estranhos e mendigos devem ser acolhidos, conforme a lei de Zeus.

Os figurinos, as armaduras, os barcos e a arquitetura são uma mistura heterogênea, o que condiz com o poema de Homero — ele próprio fruto de muitas gerações de tradição oral, incorporando elementos de diferentes épocas, dialetos e tradições. Linguisticamente, o grego homérico também é uma composição híbrida — embora seja sempre poesia métrica, e não uma língua que alguém tenha realmente falado. Apesar da indignação fabricada na internet, não há nada inerentemente errado na tentativa do filme de se aproximar da fala estadunidense contemporânea. Se não se vai escrever um roteiro em grego homérico, ou mesmo em versos métricos em inglês, é melhor usar algo como o inglês estadunidense coloquial. Mas escrever diálogos não é um dos talentos de Nolan. A linguagem é implacavelmente expositiva, sem humor e monótona. Tentativas de uma fala vigorosa — "Meu pai está voltando para casa" ou "Vamos sair desta praia de merda" — soam estranhas ao lado de reflexões grandiosas: "Sim, minha rainha. A violação da lei de Zeus, espalhando-se como uma praga. Nossa Era do Bronze está ruindo, e talvez ele não suportasse ver as ruínas do que havia feito. Em qualquer lugar. Menos ainda, em sua própria casa."

 

Como dizem nas cerimônias de premiação, senti-me honrada ao saber que Nolan leu pelo menos o primeiro verso da minha tradução da “Odisseia” em pentâmetro iâmbico. Em pelo menos uma entrevista, ele citou a minha versão do primeiro verso do poema: "Fala-me de um homem complicado". Mas eu teria vergonha de ter escrito qualquer parte deste roteiro. Infelizmente, o Odisseu de Damon não é complicado, nem astuto, nem cheio de artimanhas. Um dos truques mais engraçados (e famosos) de Odisseu em Homero é dizer a Polifemo que seu nome é "Ninguém". Quando o gigante cegado grita por socorro aos vizinhos, os outros ciclopes ficam tranquilos ao saber que é "Ninguém" quem o está ferindo. No filme, Odisseu não precisa superar Polifemo pela inteligência, pois o ciclope é uma marionete desprovida de qualquer raciocínio. O gigante caolho de Nolan, que apenas grunhe, é tratado como um "isso", mal fala, não fica bêbado e não tem vizinhos nem uma ovelha favorita. Talvez de forma ainda mais surpreendente vindo do diretor de “Oppenheimer”, o Odisseu de Damon — um sujeito desajeitado e de movimentos pesados ​​ também parece carecer de inteligência técnica (“polymēchania”). Ele não constrói um leito nupcial a partir de uma árvore que cresce dentro de sua casa (seria um esforço inútil, já que ele raramente parece dormir ou fazer sexo). A jangada com a qual escapa de Calipso é improvisada a partir de alguns pedaços de madeira à deriva (em contraste com o trabalho elaborado de corte de madeira e construção naval descrito por Homero). Não vemos o projeto nem a construção do Cavalo de Troia; em vez disso, um cavalo de gosto duvidoso e mal projetado (sem rodas) surge na praia varrida pelo vento, como se tivesse sido deixado ali por um drone. As dificuldades de transportar objetos grandes e desajeitados por terrenos acidentados certamente passaram pela cabeça do diretor enquanto ele carregava suas câmeras IMAX pelos muitos locais desafiadores da filmagem.

A nova abordagem mais evidente que Nolan traz ao material de origem é uma subtrama baseada em uma história da “Eneida”, descrevendo como os troianos foram enganados para levar o Cavalo de Troia (uma invenção do "cruel Ulisses") para dentro da cidade, graças às maquinações de um agente duplo grego chamado Sinon (cujo nome significa "nocivo"). Em contraste com a representação relativamente positiva da inteligência astuta na “Odisseia” de Homero, Virgílio retrata Ulisses como cruel e predatório; Sinon é seu cúmplice enganador.

No filme de Nolan, Sinon é interpretado por Elliot Page e, longe de ser um vilão, ele é o centro moral da obra. Ele é recrutado para a Guerra de Troia ainda jovem e corajoso, devido às maquinações malignas de um adolescente que tenta escapar do alistamento, Antínoo (interpretado na vida adulta por um Robert Pattinson carismaticamente repulsivo). O principal arco emocional do filme gira em torno da constatação tardia de Odisseu de que ele foi cúmplice da exploração de Sinon, por não lhe ter dito a verdade sobre a trama do Cavalo de Troia. Ao recuperar a memória, Odisseu é consumido pela culpa. O filme não aborda os dilemas morais levantados por sua própria invenção narrativa — como, por exemplo, por que é tão importante saber se Batman contou toda a verdade ao valente Robin, visto que ele morreria instantaneamente de qualquer maneira; ou por que o inocente Sinon quer participar do plano, se o saque de Troia foi algo tão terrível quanto o filme sugere. A mentira de Odisseu para Sinon não desencadeia a Guerra de Troia, e os troianos provavelmente teriam levado o cavalo para a cidade de qualquer forma — como fazem na “Odisseia” de Homero. Essa subtrama confusa é imposta ao filme para servir à mensagem implacavelmente didática de Nolan sobre o mundo anglófono contemporâneo: a de que as mentiras e a xenofobia da Guerra ao Terror e do Brexit iniciaram um declínio cultural que agora destrói os valores que "nós" mais prezamos.

A outra grande adição de Nolan à narrativa de Homero é a referência recorrente a ameaças à "nossa civilização" por parte dos "Povos do Mar" — uma teoria do século XIX, hoje refutada, sobre povos marítimos que teriam atacado o Egito por volta de 1200 AEC. e que também teriam sido responsáveis ​​pelo colapso da cultura grega micênica, ocorrido aproximadamente na mesma época. "Nossa civilização está sob ataque", lamenta Penélope. Odisseu a consola dizendo que a "civilização da Idade do Bronze" incluindo a escrita renascerá das cinzas. O consenso atual, como Nolan certamente sabe, é que não existiram "Povos do Mar" como tais, e que a transição do mundo de língua grega saindo da cultura palaciana mais centralizada e letrada dos micênicos no século XI AEC. em direção às formações sociais fragmentadas do início da Idade do Ferro grega — foi causada por uma série de fatores, incluindo mudanças climáticas, terremotos e agitação interna. Nolan utiliza essas teorias históricas divergentes para criar uma reviravolta narrativa característica sobre a identidade dos "Povos do Mar" — algo que não vou revelar, embora você provavelmente consiga adivinhar.

A lei de Zeus é uma versão da “xênia” grega arcaica: as relações idealizadas entre estranhos, anfitriões e hóspedes, que devem tratar uns aos outros com respeito mútuo, formando assim laços multigeracionais entre famílias sem parentesco. No filme, a “xênia” é filtrada por ideias estadunidenses contemporâneas sobre a importância da caridade filantrópica: pessoas ricas devem ser benevolentes para com os pobres e famintos em seu meio (sem necessariamente fazer algo para mitigar a pobreza deles). Muitos dos valores implícitos do filme contradizem diretamente os do poema de Homero. O engano, o belicismo, o sexo extraconjugal, a crueldade com animais, o abuso de mulheres e a busca pela honra — coisas perfeitamente aceitáveis ​​no mundo de Homero são, nesta versão, muito condenáveis. Isso não é um problema em si, mas torna-se um se os valores e a visão do próprio filme não forem coerentes entre si, e se as motivações dos personagens não fizerem sentido dentro de sua própria lógica.

Na “Odisseia” de Nolan, o massacre de pessoas com o auxílio de artimanhas, tecnologia e armas é apresentado como algo negativo quando os gregos matam os troianos — que violaram a “xênia” (a lei da hospitalidade) —, mas como algo positivo quando Odisseu mata os pretendentes, que também violaram a “xênia”. Apossar-se de algo aparentemente abandonado por Odisseu e seus companheiros é natural e perdoável quando os troianos reivindicam o cavalo, mas antinatural e imperdoável quando os pretendentes reivindicam o palácio, a comida, o vinho e a esposa de Odisseu. Estranhos em Ítaca devem ser tratados com gentil hospitalidade, como possíveis deuses disfarçados; já estranhos em terras estrangeiras são, geralmente, vistos como monstros destinados a ser cegados, roubados e massacrados. Desafiar os deuses é um ato nobre e corajoso quando Odisseu cega Polifemo, filho de Poseidon; é um ato estúpido e ganancioso quando Euríloco devora o Gado do Sol. O engano é condenável quando Odisseu engana Sinon ou quando os pretendentes enganam Telêmaco, mas louvável quando Telêmaco e Odisseu enganam os pretendentes. Compartilhar é bom, e vemos Odisseu assumindo seu lugar no remo ao lado de seus homens; contudo, o governo de um só homem também é inequivocamente positivo, e aqueles que desafiam a monarquia ou a autocracia — ou tentam comer mais do que a sua porção estipulada — são vistos ou como malignos (os pretendentes) ou como tolos (Euríloco). Seja como for, eles precisam morrer. É condenável lutar e matar para acumular riqueza, como faz Agamêmnon; é louvável lutar e matar para preservar a riqueza já adquirida (mesmo que por meio da guerra). Qualquer uma dessas contradições morais poderia render um tema interessante e fértil para um filme, mas Nolan deixa os fragmentos de um conjunto incompleto de grandes ideias girarem no turbilhão épico, sem oferecer nenhuma tábua de experiência humana sólida e específica à qual possamos nos agarrar.

A “Odisseia” de Homero oferece um relato claro e comovente dos sentimentos, histórias e perspectivas de vários companheiros e subordinados de Odisseu, incluindo Euríloco e o porqueiro escravizado, Eumeu. Sequestrado, traficado e vendido como escravo ainda criança, Eumeu fantasia que seu antigo captor — Odisseu — um dia retornará e lhe dará um lar próprio. No filme, nenhum desses personagens secundários possui personalidade própria. Mentor (Ryan Hurst), que ajuda Telêmaco (Tom Holland), não é uma deusa disfarçada, mas um sujeito prestativo e barbudo; Euríloco não é um rival amargurado de Odisseu, mas outro sujeito prestativo e barbudo. John Leguizamo faz o que pode com o papel de Eumeu — agora acometido por catarata para garantir que ele não reconheça Odisseu até o momento certo —, mas o roteiro de Nolan não lhe dá nada com que trabalhar; o único desejo desse "servo" (termo preferido do filme para "escravo") é tornar a vida de Odisseu mais confortável. No entanto, o Odisseu de Damon continua infeliz enquanto caminha obstinadamente em direção à câmera, atravessando mais uma bela paisagem.

A Guerra de Troia é uma aberração, culpa do monstruoso e impessoal Agamenon (aquele com o traje estranho à la Darth Vader), que fracassou como um homem de família americano ao matar a própria filha. Odisseu é um líder idealizado que jamais colocaria seu povo em perigo por vontade própria: seus homens insistem tolamente em ir conferir a cabana de Circe por conta própria, e ele gentilmente vai buscá-los (sem parar para transar com a deusa nem por uma hora, muito menos por um ano mágico inteiro como Homero descreveu). O Odisseu de Damon é motivado principalmente pela ansiedade e pela culpa, embora também esteja ansioso para proteger seu filho (Holland é bom em interpretar um jovem de vinte anos com mentalidade de doze).

No entanto, a representação de Odisseu como um líder guerreiro relutante torna absurdo o mundo imaginado pelo filme. Não nos é mostrado que a guerra ou o ato de matar são coisas ruins, apenas que homens bons às vezes se sentem mal a esse respeito — uma questão bem diferente. Qualquer representação séria da violência, seja antiga ou moderna, deve mostrar as perspectivas tanto das vítimas quanto dos agressores — e os poemas homéricos superam esse desafio com facilidade —, mas Nolan não o faz. Os troianos são desumanizados por suas máscaras; não conhecemos nenhum deles pelo nome ou pelo rosto. As mãos de Odisseu e Telêmaco ficam sujas de sangue apenas através das formas mais "justas" de matar — típicas de jogos de computador —, e não sentimos pena nem horror diante da morte de suas vítimas, sejam elas troianos, gigantes, pretendentes ou escravos. Durante o saque de Troia — que ele supostamente organizou —, Odisseu olha ao redor com perplexidade e horror, como se nunca tivesse visto um massacre antes.

Ao mesmo tempo, somos convidados a desprezar o principal pretendente de Penélope, Antínoo (cujo nome significa "mente oposta"), por ser covarde, mentiroso e intrigante. O filme nos pede, simultaneamente, que nos horrorizemos com a guerra e que celebremos as sequências típicas de filmes de ação nas quais o guerreiro relutante finalmente empunha seu arco e o sangue começa a jorrar. O massacre dos pretendentes é, provavelmente, a sequência mais divertida do filme. O vilão exuberante Antínoo — Pattinson é a única pessoa no elenco que parece estar se divertindo — claramente merece ser morto a punhaladas com a adaga de Sinon, mas também merece um dos Oscars que certamente choverão sobre este filme como a chuva de ouro de Zeus.

A “Odisseia” de Nolan carece de muitos dos elementos que tornam o poema grandioso. O filme não tem nada de convincente a dizer sobre tempo, memória, história, guerra ou sobre a relação entre o retorno glorioso de um guerreiro e as vidas de sua família, adversários, companheiros, amigos e vizinhos. Falta-lhe profundidade psicológica, emocional, política e ética. Sua estrutura narrativa é baseada em artifícios superficiais. O roteiro é péssimo. Nenhum dos personagens apresenta motivação convincente para suas ações ou palavras. Não há cenas de sexo, e toda a comida parece horrível. O problema ético mais preocupante na “Odisseia” de Nolan diz respeito à decisão de filmar parte do longa no território ocupado do Saara Ocidental, normalizando, assim, a violência contínua contra o povo indígena saaraui. É particularmente revoltante que Nolan tenha usado essa terra simplesmente como um cenário visualmente impactante para um filme que centra, engrandece e redime o herói de uma guerra territorial, graças ao seu reconhecimento tardio e parcial da própria culpa.

Apesar de tudo isso, o lançamento de “A Odisseia” ainda é um evento a ser celebrado. Naquilo que chamam de era do streaming, essa obra épica está levando o público de volta aos cinemas. Em um momento que dizem ser de declínio da alfabetização e da "morte das humanidades", as traduções de “A Odisseia” — inclusive a minha — estão se esgotando rapidamente nas livrarias. Algumas das pessoas que compram o livro ou vão ao cinema para ver Tom Holland podem acabar estudando grego antigo. Talvez o filme convença alguns administradores universitários a não cortarem seus departamentos de literatura, línguas e história. Nolan, que estudou língua inglesa na University College London — onde os alunos ainda estudam “A Odisseia” como um "texto fundamental" no primeiro ano —, está fazendo o possível para incentivar o público em geral a ler novamente, e sou grata por isso.

 

The Odyssey by Homer, translated by Emily Wilson — Yellow Dog Bookshop

Tradução da Odisseia por Emily Wilson


Ouça Emily Wilson discutir este artigo com Thomas Jones no podcast da LRB.

https://www.lrb.co.uk/podcasts-and-videos/podcasts/the-lrb-podcast/nolan-v.-homer


Fonte da crítica original em inglês: https://www.lrb.co.uk/the-paper/v48/n14/emily-wilson/an-uncomplicated-man

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