Um homem descomplicado por Emily Wilson – sobre A Odisseia, dirigido por Christopher Nolan.
Traduzido por Angela Natel
A versão cinematográfica de ação de Christopher Nolan — com
orçamento de 250 milhões de dólares — para o antigo poema grego de Homero é uma
maneira divertida de escapar das altas temperaturas por algumas horas. As
marcas registradas de Nolan — saltos e reviravoltas na estrutura narrativa —
são relativamente fáceis de acompanhar e adequadas para “A Odisseia”, uma
narrativa composta por histórias dentro de histórias. Meus filhos adolescentes
se divertiram. Ao contrário de alguns outros filmes de Nolan, “A Odisseia” não
é entediante, graças ao material de origem, que é impossível de estragar
completamente. É um espetáculo audiovisual para toda a família, como uma
elaborada queima de fogos de artifício de 4 de julho — e com praticamente o
mesmo nível de profundidade narrativa e emocional.
Assim como em seus filmes anteriores, Nolan se interessa
pelas descontinuidades de espaço e tempo, pela magia, pelos truques, pelo
ofício, pela tecnologia, pela rivalidade, pela substituição, pelas máscaras,
pelas falhas de comunicação, pelo que lembramos e pelo que escolhemos esquecer.
Mais uma vez, a sobrevivência é retratada como uma espécie de triunfo. Mais uma
vez, há cenas longas e claustrofóbicas de afogamento e quase afogamento, e
sequências tecnicamente impressionantes em que edifícios são consumidos pelas
chamas e veículos explodem. Mais uma vez, acompanhamos a busca desesperada de
um personagem masculino para recuperar e/ou vingar uma mulher amada. Eu
esperava que a afinidade de Nolan com esses temas homéricos o levasse a novos
patamares criativos e lhe permitisse criar personagens mais verossímeis. Mas “A
Odisseia” apresenta sua combinação habitual de grandiosidade e
superficialidade. Sem um pote de cera para os ouvidos — recurso que Euríloco
(interpretado pelo sempre ansioso Himesh Patel), o braço direito condenado de
Odisseu, utiliza para passar em segurança pelas Sereias —, fiquei exposta a
todo o estrondo de bastões, cajados, espadas e armaduras se chocando, raios,
ondas quebrando, grunhidos, gritos, palácios desmoronando e templos em chamas.
Mas, ao contrário de Matt Damon — o Odisseu sem cera que é amarrado ao mastro
enquanto passa pelas Sereias (mulheres nuas reclinadas em rochas de aparência
desconfortável) —, contemplei os naufrágios e as carnificinas sem qualquer
angústia emocional. Meus olhos permaneceram secos, até mesmo diante de Argos, o
cachorro — cuja fofura de filhote é previsivelmente intensificada para agradar
aos nossos tempos de amor pelos animais. Quem dera os personagens humanos
tivessem recebido tamanha atenção e seriedade. A epopeia homérica já era, por
si só, uma adaptação. O poema utilizava uma tecnologia relativamente nova — o
alfabeto escrito — para reelaborar tradições míticas preexistentes, remodelando
a história do retorno de um veterano para que ressoasse com as preocupações
complexas dos gregos do período arcaico, uma era de migração, colonização e
urbanização. Algumas comunidades gregas do século VII AEC. eram governadas por
uma oligarquia; outras, por um único homem. O poema retrata a tensão entre as
necessidades e os desejos de grupos de homens — os companheiros de Odisseu ou
os pretendentes de sua esposa, Penélope — e os de um único homem poderoso e
astuto, que deseja governar a todos e conquistar fama eterna para si mesmo. Em
um período de transformações culturais e tecnológicas, a obra explora a
fantasia de retroceder tanto no tempo quanto no espaço, ao mesmo tempo que
evidencia os perigos e os custos dessa jornada. O poema aborda os desafios de
encontrar estranhos, de entrar em suas casas e de acolhê-los ou rejeitá-los em
seu próprio lar. As ressonâncias com a atualidade são evidentes, e o filme de
Nolan sugere algumas delas, de maneiras interessantes, ainda que dispersas. No
entanto, a visão do filme é confusa demais, e seus personagens, pouco
desenvolvidos, para concretizar o que ele sugere vagamente em termos de grandes
ideias — embora seja muito eficiente ao retratar grandes explosões e gigantes
colossais.
Adaptações não precisam — nem devem — seguir o original com
algo que se assemelhe à exatidão de uma tradução. Algumas das melhores
transformam radicalmente ou resistem ao material de origem, oferecendo o que
Harold Bloom chamou de "fortes más leituras" de seus predecessores.
As respostas criativas mais memoráveis à *Odisseia* — como “Helena”, de Eurípides; a “Eneida”, de Virgílio; “O
Paraíso Perdido”, de Milton; “Ulysses”, de
Joyce; “Omeros”, de Walcott; “A Odisseia de Penélope”, de
Atwood; “Circe”, de Madeline Miller; ou a peça de Lisa Peterson ambientada em
um campo moderno de migrantes — reavaliam a estrutura, a narrativa e os valores
do poema. Em teoria, Nolan parece compreender a tarefa e os riscos que ela
envolve. Seu primeiro longa-metragem, “Following” (1998), foi um “thriller”
poderoso em preto e branco sobre o fascínio e os perigos de seguir estranhos
pelo espaço e pelo tempo. O caçador tem mais chances de se tornar a presa,
sugere “Following”, se o aspirante a perseguidor carecer de uma identidade
clara para além de uma crença equivocada em sua própria engenhosidade. Mas
saber quais tentações devem ser evitadas não é o mesmo que evitá-las — como os
homens de Odisseu descobrem da pior maneira ao matarem o gado sagrado do Sol. O
Odisseu de Homero consegue voltar para casa porque é capaz, temporariamente, de
reprimir seus próprios desejos: por carne e vinho, por sua esposa, pelo
controle de seu lar e de suas terras, pela matança, pela vitória sobre o tempo
e a ameaça do esquecimento, por um nome glorioso e eterno. No entanto, não há
contenção na versão de Nolan para a “Odisseia”: cada segundo é repleto de
acontecimentos, luzes e ruídos, e nada mantém uma escala humana.
O espetáculo de Nolan ameaça soterrar sua história, assim
como as ondas gigantescas do mar cor de vinho — mais cinza do que púrpura —
ameaçam submergir o navio de seu herói. Visualmente, esta “Odisseia”
frequentemente remete a outras "épicas" das telas do século XXI,
especialmente à trilogia “O Senhor dos Anéis”, de Peter Jackson. A visita à
Terra dos Mortos lembrou-me das incursões para além da Muralha em “Game of
Thrones”. Ao final do filme, um personagem parte para "navegar além do pôr
do sol", e eu quase esperei que todos começassem a falar élfico. O filme
não possui nada da sobriedade estilosa de “O retorno” (2024), de Uberto
Pasolini, estrelado por um Ralph Fiennes marcado por cicatrizes, desesperado e
quase nu, em conflito com seu retorno para casa e para uma Juliette Binoche
visivelmente infeliz. Sem orçamento para deuses ou efeitos especiais, aquele
filme nos convidava a refletir sobre o que resta da “Odisseia” e de seu herói
quando reduzidos à sua essência bruta — à fibra muscular e ao coração faminto.
Nolan, por sua vez, nos serve um banquete completo.
A escalação de elenco sem restrições raciais na “Odisseia”
de Nolan foi, inevitavelmente, criticada por alguns setores. No entanto, não há
nada de progressista nessa escolha. A maioria dos atores não brancos — Zendaya,
Lupita Nyong’o, Himesh Patel, Corey Antonio Hawkins, Travis Scott — interpreta
variações do clichê do "melhor amigo negro", cujo único papel no
drama é prestar auxílio ao protagonista branco. Scott, no papel do bardo de
Ítaca, Fêmio, grita algumas palavras e bate um bastão no chão, mas não chega a
cantar, contar uma história ou tocar lira: a nota mais melódica da trilha
sonora percussiva vem do som da corda do arco de Odisseu sendo puxada (uma bela
imagem sonora do arqueiro como músico, extraída do poema). O papel duplo de
Nyong’o como Helena e Clitemnestra é extremamente mal desenvolvido; ela dispõe
de apenas alguns minutos em cena para encenar breves quadros de mulheres
vítimas (a mãe enlutada e indignada, a esposa abusada, a adúltera arrependida).
Há mais personagens femininas do que na maioria dos filmes
de Nolan, graças à obra original. Contudo, nenhuma delas tem muito a dizer, ao
contrário de como são retratadas no poema. A Calipso de Homero profere um
discurso operístico e de indignação admirável sobre os dois pesos e duas
medidas dos deuses: deuses homens podem sequestrar e estuprar qualquer mortal
que desejem, mas, quando uma deusa tenta fazer o mesmo, Zeus e seus comparsas
frustram suas chances. É uma distorção engenhosa e cômica dos "fatos"
mitológicos: quem ouve o poema sabe que é principalmente Atena (uma divindade
feminina) quem está arrebatando de Calipso sua vítima mortal — sendo Hermes, a
quem ela dirige suas queixas, apenas o mensageiro — e que Eos, a deusa da
aurora, como nos foi lembrado poucas linhas antes, não foi proibida pelo
patriarcado divino de manter Titono ao seu lado. A Calipso de Charlize Theron
está deslumbrante, mas nunca demonstra raiva nem humor, não tem dotes retóricos
e jamais é consumida pelo desejo por sua vítima mortal de aparência
maltrapilha. Ela atua como uma terapeuta não remunerada, acalmando a alma de um
Odisseu em frangalhos e atormentado pelo transtorno de estresse pós-traumático
com o uso de drogas, enquanto ouve, com benevolência, seu relato desconexo de sofrimento.
Da mesma forma, a Penélope de Homero oferece a Odisseu,
disfarçado, um relato incrivelmente vívido de um sonho que tivera sobre gansos
em seu pátio sendo mortos por uma águia; a águia explicara que os gansos eram
seus pretendentes, prestes a serem abatidos por seu marido que retornava. Mas,
no sonho, Penélope chorava — sugerindo uma reação fascinantemente ambivalente
ao retorno de Odisseu e ao fim iminente de seu longo período de espera, como
uma noiva, pelo marido. A Penélope de Nolan não tem sonhos. O rosto de Anne
Hathaway é tão expressivo quanto sempre, e ela parece bela e misteriosa, vista
principalmente através do véu de uma cenografia engenhosa que separa os
aposentos das mulheres do salão principal. Mas o roteiro não lhe dá nada para
fazer além de ansiar por Matt Damon, por razões desconhecidas. O casal não tem
química nem nada em comum. Ao longo de suas peregrinações, Odisseu — um marido
devotado — apega-se a uma pequena estatueta, destinada a representar sua esposa
(como o pião segurado por Leonardo DiCaprio em “A Origem”); a mulher real não é
muito mais interessante.
É um desafio representar divindades no cinema sem cair na
tolice de “Fúria de Titãs”, então Nolan pode ter agido com sensatez ao
deixá-las de fora. Até mesmo a Atena de Zendaya, com um papel pouco
desenvolvido, revela-se uma vítima vulnerável da guerra, ou talvez uma projeção
da consciência de Odisseu — e não uma deusa da guerra sanguinária e cheia de
estratagemas. Outras deusas aparecem em participações breves — Calipso, as
Sereias com traços de foca, Circe, Cila e Caríbdis —, mas não há indício de que
devamos perceber que são deusas. Poseidon, Hermes e Hélio não aparecem
pessoalmente, embora haja algumas tempestades e naufrágios assustadores. Um dos
meus momentos favoritos foi quando Zendaya garante a Damon que não é difícil
para os mortais entenderem os deuses: "Quem não entende o trovão? O
fogo?" Mas o filme tenta seguir dois caminhos ao mesmo tempo. Não há
deuses e, no entanto, naufrágios e mortes são apresentados como a consequência
inevitável de cegar o filho de Poseidon e devorar o Gado do Sol. A lei de Zeus
é retratada como algo de importância crucial e, contudo, não há Zeus. A visão
de mundo de Nolan não é ampla o suficiente para abarcar deuses reais ou pessoas
reais que sejam diferentes de nós.
Há gigantes, incluindo Polifemo (aqui, um Ciclope solitário)
e alguns Lestrigões vestidos de forma exagerada. Circe, interpretada com vigor
telúrico por Samantha Morton, é uma espécie de Baba Yaga em uma cabana digna de
João e Maria; ela utiliza um procedimento de cirurgia plástica trabalhoso para
transformar os homens gananciosos de Odisseu nos porcos que eles, na verdade,
já são. Há apenas um comedor de lótus, embora o tema da amnésia adquira um novo
significado, como seria de esperar. Cenas famosas passam rapidamente: Cila e
Caríbdis ameaçam o barco, Euricleia reconhece a cicatriz na perna de Odisseu,
Antínoo arremessa um banquinho contra nosso herói disfarçado. Algumas
sequências notáveis do épico estão ausentes: o filme ignora a ilha de
Esquéria, lar da prestativa princesa Nausícaa, onde o Odisseu de Homero narra suas aventuras fantásticas aos hospitaleiros feácios. Não há espaço, neste
filme maximalista, para algo tão
encantadoramente cotidiano e de pequena escala quanto a lavagem de roupas de
Nausícaa e suas fantasias juvenis sobre um
futuro marido. O Odisseu de Damon, com sua aparência envelhecida e rude, não é
nem um grande contador de histórias nem um sedutor. Mais importante ainda: a
inclusão de uma terra estrangeira amigável, rica e culta teria trazido mais
confusão à premissa já confusa do filme — a de que essa versão hollywoodiana da
Grécia micênica é a única "civilização" do mundo, o único lugar que
ainda se lembra, ainda que vagamente, de que estranhos e mendigos devem ser
acolhidos, conforme a lei de Zeus.
Os figurinos, as armaduras, os barcos e a arquitetura são
uma mistura heterogênea, o que condiz com o poema de Homero — ele próprio fruto
de muitas gerações de tradição oral, incorporando elementos de diferentes
épocas, dialetos e tradições. Linguisticamente, o grego homérico também é uma
composição híbrida — embora seja sempre poesia métrica, e não uma língua que
alguém tenha realmente falado. Apesar da indignação fabricada na internet, não
há nada inerentemente errado na tentativa do filme de se aproximar da fala estadunidense
contemporânea. Se não se vai escrever um roteiro em grego homérico, ou mesmo em
versos métricos em inglês, é melhor usar algo como o inglês estadunidense
coloquial. Mas escrever diálogos não é um dos talentos de Nolan. A linguagem é
implacavelmente expositiva, sem humor e monótona. Tentativas de uma fala
vigorosa — "Meu pai está voltando para casa" ou "Vamos sair
desta praia de merda" — soam estranhas ao lado de reflexões grandiosas:
"Sim, minha rainha. A violação da lei de Zeus, espalhando-se como uma
praga. Nossa Era do Bronze está ruindo, e talvez ele não suportasse ver as
ruínas do que havia feito. Em qualquer lugar. Menos ainda, em sua própria
casa."
Como dizem nas cerimônias de premiação, senti-me honrada ao
saber que Nolan leu pelo menos o primeiro verso da minha tradução da “Odisseia”
em pentâmetro iâmbico. Em pelo menos uma entrevista, ele citou a minha versão
do primeiro verso do poema: "Fala-me de um homem complicado". Mas eu
teria vergonha de ter escrito qualquer parte deste roteiro. Infelizmente, o
Odisseu de Damon não é complicado, nem astuto, nem cheio de artimanhas. Um dos
truques mais engraçados (e famosos) de Odisseu em Homero é dizer a Polifemo que
seu nome é "Ninguém". Quando o gigante cegado grita por socorro aos
vizinhos, os outros ciclopes ficam tranquilos ao saber que é
"Ninguém" quem o está ferindo. No filme, Odisseu não precisa superar
Polifemo pela inteligência, pois o ciclope é uma marionete desprovida de
qualquer raciocínio. O gigante caolho de Nolan, que apenas grunhe, é tratado
como um "isso", mal fala, não fica bêbado e não tem vizinhos nem uma
ovelha favorita. Talvez de forma ainda mais surpreendente vindo do diretor de “Oppenheimer”,
o Odisseu de Damon — um sujeito desajeitado e de movimentos pesados — também parece carecer de inteligência técnica (“polymēchania”).
Ele não constrói um
leito nupcial a partir de uma árvore que
cresce dentro de sua casa (seria um esforço inútil, já que ele raramente parece dormir ou
fazer sexo). A jangada com a qual escapa de Calipso é
improvisada a partir de alguns pedaços de madeira à deriva (em contraste com o trabalho elaborado de corte de
madeira e construção naval descrito por Homero). Não vemos o projeto nem a construção do Cavalo de Troia; em vez
disso, um cavalo de gosto duvidoso e mal projetado (sem rodas) surge na praia
varrida pelo vento, como se tivesse sido deixado ali por um drone. As
dificuldades de transportar objetos grandes e desajeitados por terrenos
acidentados certamente passaram pela cabeça do diretor enquanto ele carregava
suas câmeras IMAX pelos muitos locais desafiadores da filmagem.
A nova abordagem mais evidente que Nolan traz ao material de
origem é uma subtrama baseada em uma história da “Eneida”, descrevendo como os
troianos foram enganados para levar o Cavalo de Troia (uma invenção do
"cruel Ulisses") para dentro da cidade, graças às maquinações de um
agente duplo grego chamado Sinon (cujo nome significa "nocivo"). Em
contraste com a representação relativamente positiva da inteligência astuta na “Odisseia”
de Homero, Virgílio retrata Ulisses como cruel e predatório; Sinon é seu cúmplice
enganador.
No filme de Nolan, Sinon é interpretado por Elliot Page e,
longe de ser um vilão, ele é o centro moral da obra. Ele é recrutado para a
Guerra de Troia ainda jovem e corajoso, devido às maquinações malignas de um
adolescente que tenta escapar do alistamento, Antínoo (interpretado na vida
adulta por um Robert Pattinson carismaticamente repulsivo). O principal arco
emocional do filme gira em torno da constatação tardia de Odisseu de que ele
foi cúmplice da exploração de Sinon, por não lhe ter dito a verdade sobre a
trama do Cavalo de Troia. Ao recuperar a memória, Odisseu é consumido pela
culpa. O filme não aborda os dilemas morais levantados por sua própria invenção
narrativa — como, por exemplo, por que é tão importante saber se Batman contou
toda a verdade ao valente Robin, visto que ele morreria instantaneamente de
qualquer maneira; ou por que o inocente Sinon quer participar do plano, se o
saque de Troia foi algo tão terrível quanto o filme sugere. A mentira de
Odisseu para Sinon não desencadeia a Guerra de Troia, e os troianos
provavelmente teriam levado o cavalo para a cidade de qualquer forma — como
fazem na “Odisseia” de Homero. Essa subtrama confusa é imposta ao filme para
servir à mensagem implacavelmente didática de Nolan sobre o mundo anglófono
contemporâneo: a de que as mentiras e a xenofobia da Guerra ao Terror e do
Brexit iniciaram um declínio cultural que agora destrói os valores que
"nós" mais prezamos.
A outra grande adição de Nolan à narrativa de Homero é a
referência recorrente a ameaças à "nossa civilização" por parte dos
"Povos do Mar" — uma teoria do século XIX, hoje refutada, sobre povos
marítimos que teriam atacado o Egito por volta de 1200 AEC. e que também teriam
sido responsáveis pelo
colapso da cultura grega micênica, ocorrido
aproximadamente na mesma época. "Nossa civilização está sob ataque", lamenta Penélope. Odisseu a consola dizendo que a "civilização da Idade do Bronze" —
incluindo a escrita — renascerá das
cinzas. O consenso atual, como Nolan certamente sabe, é que não existiram "Povos do Mar" como tais, e que a transição do mundo de língua grega — saindo da cultura palaciana mais centralizada e letrada dos micênicos no século XI AEC. em direção às formações
sociais fragmentadas do início da Idade do Ferro grega — foi causada por uma
série de fatores, incluindo mudanças climáticas, terremotos e agitação interna.
Nolan utiliza essas teorias históricas divergentes para criar uma reviravolta
narrativa característica sobre a identidade dos "Povos do Mar" — algo
que não vou revelar, embora você provavelmente consiga adivinhar.
A lei de Zeus é uma versão da “xênia” grega arcaica: as
relações idealizadas entre estranhos, anfitriões e hóspedes, que devem tratar
uns aos outros com respeito mútuo, formando assim laços multigeracionais entre
famílias sem parentesco. No filme, a “xênia” é filtrada por ideias estadunidenses
contemporâneas sobre a importância da caridade filantrópica: pessoas ricas
devem ser benevolentes para com os pobres e famintos em seu meio (sem
necessariamente fazer algo para mitigar a pobreza deles). Muitos dos valores
implícitos do filme contradizem diretamente os do poema de Homero. O engano, o
belicismo, o sexo extraconjugal, a crueldade com animais, o abuso de mulheres e
a busca pela honra — coisas perfeitamente aceitáveis no mundo de Homero — são, nesta versão, muito condenáveis. Isso não é um
problema em si, mas torna-se um se os valores e a visão do próprio filme não forem coerentes entre si, e se as
motivações dos personagens não fizerem sentido dentro de sua própria lógica.
Na “Odisseia” de Nolan, o massacre de pessoas com o auxílio
de artimanhas, tecnologia e armas é apresentado como algo negativo quando os
gregos matam os troianos — que violaram a “xênia” (a lei da hospitalidade) —,
mas como algo positivo quando Odisseu mata os pretendentes, que também violaram
a “xênia”. Apossar-se de algo aparentemente abandonado por Odisseu e seus
companheiros é natural e perdoável quando os troianos reivindicam o cavalo, mas
antinatural e imperdoável quando os pretendentes reivindicam o palácio, a
comida, o vinho e a esposa de Odisseu. Estranhos em Ítaca devem ser tratados
com gentil hospitalidade, como possíveis deuses disfarçados; já estranhos em
terras estrangeiras são, geralmente, vistos como monstros destinados a ser
cegados, roubados e massacrados. Desafiar os deuses é um ato nobre e corajoso
quando Odisseu cega Polifemo, filho de Poseidon; é um ato estúpido e ganancioso
quando Euríloco devora o Gado do Sol. O engano é condenável quando Odisseu
engana Sinon ou quando os pretendentes enganam Telêmaco, mas louvável quando
Telêmaco e Odisseu enganam os pretendentes. Compartilhar é bom, e vemos Odisseu
assumindo seu lugar no remo ao lado de seus homens; contudo, o governo de um só
homem também é inequivocamente positivo, e aqueles que desafiam a monarquia ou
a autocracia — ou tentam comer mais do que a sua porção estipulada — são vistos
ou como malignos (os pretendentes) ou como tolos (Euríloco). Seja como for,
eles precisam morrer. É condenável lutar e matar para acumular riqueza, como faz
Agamêmnon; é louvável lutar e matar para preservar a riqueza já adquirida
(mesmo que por meio da guerra). Qualquer uma dessas contradições morais poderia
render um tema interessante e fértil para um filme, mas Nolan deixa os
fragmentos de um conjunto incompleto de grandes ideias girarem no turbilhão
épico, sem oferecer nenhuma tábua de experiência humana sólida e específica à
qual possamos nos agarrar.
A “Odisseia” de Homero oferece um relato claro e comovente
dos sentimentos, histórias e perspectivas de vários companheiros e subordinados
de Odisseu, incluindo Euríloco e o porqueiro escravizado, Eumeu. Sequestrado,
traficado e vendido como escravo ainda criança, Eumeu fantasia que seu antigo
captor — Odisseu — um dia retornará e lhe dará um lar próprio. No filme, nenhum
desses personagens secundários possui personalidade própria. Mentor (Ryan
Hurst), que ajuda Telêmaco (Tom Holland), não é uma deusa disfarçada, mas um
sujeito prestativo e barbudo; Euríloco não é um rival amargurado de Odisseu,
mas outro sujeito prestativo e barbudo. John Leguizamo faz o que pode com o
papel de Eumeu — agora acometido por catarata para garantir que ele não
reconheça Odisseu até o momento certo —, mas o roteiro de Nolan não lhe dá nada
com que trabalhar; o único desejo desse "servo" (termo preferido do
filme para "escravo") é tornar a vida de Odisseu mais confortável. No
entanto, o Odisseu de Damon continua infeliz enquanto caminha obstinadamente em
direção à câmera, atravessando mais uma bela paisagem.
A Guerra de Troia é uma aberração, culpa do monstruoso e
impessoal Agamenon (aquele com o traje estranho à la Darth Vader), que
fracassou como um homem de família americano ao matar a própria filha. Odisseu
é um líder idealizado que jamais colocaria seu povo em perigo por vontade
própria: seus homens insistem tolamente em ir conferir a cabana de Circe por
conta própria, e ele gentilmente vai buscá-los (sem parar para transar com a
deusa nem por uma hora, muito menos por um ano mágico inteiro como Homero descreveu).
O Odisseu de Damon é motivado principalmente pela ansiedade e pela culpa,
embora também esteja ansioso para proteger seu filho (Holland é bom em
interpretar um jovem de vinte anos com mentalidade de doze).
No entanto, a representação de Odisseu como um líder
guerreiro relutante torna absurdo o mundo imaginado pelo filme. Não nos é
mostrado que a guerra ou o ato de matar são coisas ruins, apenas que homens
bons às vezes se sentem mal a esse respeito — uma questão bem diferente.
Qualquer representação séria da violência, seja antiga ou moderna, deve mostrar
as perspectivas tanto das vítimas quanto dos agressores — e os poemas homéricos
superam esse desafio com facilidade —, mas Nolan não o faz. Os troianos são desumanizados
por suas máscaras; não conhecemos nenhum deles pelo nome ou pelo rosto. As mãos
de Odisseu e Telêmaco ficam sujas de sangue apenas através das formas mais
"justas" de matar — típicas de jogos de computador —, e não sentimos
pena nem horror diante da morte de suas vítimas, sejam elas troianos, gigantes,
pretendentes ou escravos. Durante o saque de Troia — que ele supostamente
organizou —, Odisseu olha ao redor com perplexidade e horror, como se nunca
tivesse visto um massacre antes.
Ao mesmo tempo, somos convidados a desprezar o principal
pretendente de Penélope, Antínoo (cujo nome significa "mente
oposta"), por ser covarde, mentiroso e intrigante. O filme nos pede,
simultaneamente, que nos horrorizemos com a guerra e que celebremos as
sequências típicas de filmes de ação nas quais o guerreiro relutante finalmente
empunha seu arco e o sangue começa a jorrar. O massacre dos pretendentes é,
provavelmente, a sequência mais divertida do filme. O vilão exuberante Antínoo
— Pattinson é a única pessoa no elenco que parece estar se divertindo —
claramente merece ser morto a punhaladas com a adaga de Sinon, mas também
merece um dos Oscars que certamente choverão sobre este filme como a chuva de
ouro de Zeus.
A “Odisseia” de Nolan carece de muitos dos elementos que
tornam o poema grandioso. O filme não tem nada de convincente a dizer sobre
tempo, memória, história, guerra ou sobre a relação entre o retorno glorioso de
um guerreiro e as vidas de sua família, adversários, companheiros, amigos e
vizinhos. Falta-lhe profundidade psicológica, emocional, política e ética. Sua
estrutura narrativa é baseada em artifícios superficiais. O roteiro é péssimo.
Nenhum dos personagens apresenta motivação convincente para suas ações ou
palavras. Não há cenas de sexo, e toda a comida parece horrível. O problema
ético mais preocupante na “Odisseia” de Nolan diz respeito à decisão de filmar
parte do longa no território ocupado do Saara Ocidental, normalizando, assim, a
violência contínua contra o povo indígena saaraui. É particularmente revoltante
que Nolan tenha usado essa terra simplesmente como um cenário visualmente
impactante para um filme que centra, engrandece e redime o herói de uma guerra
territorial, graças ao seu reconhecimento tardio e parcial da própria culpa.
Apesar de tudo isso, o lançamento de “A Odisseia” ainda é um
evento a ser celebrado. Naquilo que chamam de era do streaming, essa obra épica
está levando o público de volta aos cinemas. Em um momento que dizem ser de
declínio da alfabetização e da "morte das humanidades", as traduções
de “A Odisseia” — inclusive a minha — estão se esgotando rapidamente nas
livrarias. Algumas das pessoas que compram o livro ou vão ao cinema para ver
Tom Holland podem acabar estudando grego antigo. Talvez o filme convença alguns
administradores universitários a não cortarem seus departamentos de literatura,
línguas e história. Nolan, que estudou língua inglesa na University College
London — onde os alunos ainda estudam “A Odisseia” como um "texto
fundamental" no primeiro ano —, está fazendo o possível para incentivar o
público em geral a ler novamente, e sou grata por isso.
Tradução da Odisseia por Emily Wilson
Ouça Emily Wilson discutir este artigo com Thomas Jones no
podcast da LRB.
https://www.lrb.co.uk/podcasts-and-videos/podcasts/the-lrb-podcast/nolan-v.-homer
Fonte da crítica original em inglês: https://www.lrb.co.uk/the-paper/v48/n14/emily-wilson/an-uncomplicated-man
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