No Departamento
de Antiguidades Egípcias do Louvre, encontra-se uma pequena estatueta de argila
representando uma mulher nua. Ela está ajoelhada, com as mãos e os pés
amarrados. Além disso, foi perfurada por 13 agulhas de bronze. A peça foi
encontrada dentro de um vaso de terracota lacrado, no Egito romano, e data de
aproximadamente o século III ou IV EC. No interior do mesmo vaso, havia uma
placa de chumbo contendo 28 linhas de texto em grego.
A placa de
chumbo encontrada junto com a estatueta traz dois nomes e um feitiço. A mulher
representada na argila chama-se Ptolemaïs, e o homem que encomendou ou lançou o
feitiço chama-se Sarapamon. O texto da placa começa invocando uma lista de Divindades
para realizar a tarefa — como Plutão e Perséfone, e até mesmo os Deuses
egípcios Anúbis e Thoth.
Menciona também
o demônio Antínoo, amplamente considerado o espírito do amante divinizado do
imperador Adriano, que se afogou no rio Nilo. Em seguida, a placa instrui essas
entidades sobre o que fazer. No texto se diz: "Desperta para mim e vai a
cada lugar, a cada bairro, a cada casa, e traz-me Ptolemaïs, filha de
Herógenes. Impede-a de comer e de beber até que ela venha até mim. Arrasta-a
pelos cabelos, pelas entranhas, até que ela não mais se afaste de mim e
permaneça obediente por toda a minha vida, amando-me, desejando-me e
revelando-me seus pensamentos."
Ao final da
placa, Sarapamon propõe um acordo a Antínoo. Ele diz: "Se fizeres isso, eu
te libertarei". Em termos simples, ele está negociando com os mortos. O
que vocês acabaram de ouvir não é vodu; é uma defixio. Trata-se da
prática de escrever uma maldição ou um feitiço de amarração em uma placa de
chumbo e lançá-la em algum lugar onde os Deuses possam encontrá-la. Não é uma
prática obscura; mais de 1.500 defixiones foram encontradas em todo o
mundo romano. Mas a nossa estatueta do Louvre representa o que acontece quando
uma defixio comum não é suficiente. A estatueta de argila em si funciona
com base em uma espécie de magia simpática. O que você faz com a representação
é o que deseja que aconteça com a própria pessoa.
Assim, a boneca
foi feita para se parecer com Ptolemais — nua, ajoelhada e atravessada por 13
agulhas. Ela foi feita para sofrer o que Sarapamon queria que ela sentisse. E a
posição de cada agulha, como você pode ver, visava algo específico: através dos
olhos, para que ela não pudesse olhar para outro homem; através da boca, para
que não pudesse falar com outro homem. E assim por diante. Tenho certeza de que
você consegue imaginar o significado das outras. Infelizmente, não sabemos o
que Ptolemais fez para provocar isso. Presumivelmente, ela o rejeitou. Se
funcionou, se Sarapamon conseguiu o que queria ou se ela sequer soube de tudo
isso — são coisas totalmente desconhecidas para nós. É tudo o que temos. É
lamentável pensar que, por tudo o que temos conhecimento hoje, homens ainda preferem
uma mulher torturada e morta se não lhe fizer todos os desejos.

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