"Todas
as histórias sobre mulheres monstruosas — sobre criaturas excessivamente
repulsivas, coléricas, ardilosas, ávidas ou inteligentes demais para o próprio
bem — são histórias contadas por homens. As versões desses mitos, aquelas que
nos são mais familiares, vêm de Ovídio, Homero, Hesíodo, Virgílio, Sófocles... Os
monstros existem em oposição à normalidade: são exageradamente grandes ou
pequenos, têm membros demais ou olhos de menos, são complexos ou rudimentares
demais. A monstruosidade é relativa, nascida do abismo entre a expectativa e a
realidade... Mas, se as expectativas são restritas demais, quase qualquer coisa
pode se tornar monstruosa. Se só lhe é permitido ser minúscula, ter um porte
médio parece algo grotesco. Se só lhe é permitido ser silenciosa, fazer barulho
parece algo bizarro. Quanto mais você é limitada, mais fácil é desviar-se, e
mais esse desvio passa a parecer algo excêntrico ou até perigoso.
Para as
mulheres, os limites da aceitabilidade são rígidos e numerosos. Devemos ser
sedutoras, porém puras; silenciosas, mas não distantes; frágeis, porém
trabalhadoras; e sempre, sempre pequenas. Não podemos ser bem-sucedidas,
ambiciosas, independentes ou egocêntricas demais — e, quando não conseguimos
dar conta de todas essas restrições contraditórias, somos transformadas em
figuras grotescas. Mulheres foram monstros, e monstros foram mulheres, ao longo
de séculos de histórias, pois as histórias são uma maneira de codificar essas
expectativas e transmiti-las adiante.
Construímos
uma cultura sobre as costas dessas mulheres monstruosas, permitindo que elas
sustentassem noções morais desgastadas sobre segurança, normalidade e decoro
feminino. Mas as características que elas representam — aspiração,
conhecimento, força, desejo — não são hediondas. Nas mãos dos homens, elas
sempre foram heroicas. Os monstros dos mitos foram posicionados nessas
fronteiras para nos manter do lado de fora; servem como advertências sobre o
que acontece quando as mulheres aspiram a algo além do que nos é permitido... Mas,
se ultrapassar os limites torna você monstruosa, isso significa que os monstros
não estão mais confinados. O que acontece se atravessarmos os portões e
descobrirmos que viver do outro lado — com todo o nosso 'excesso', sendo
grandes, ousadas e complexas demais — significa viver plenamente pela primeira
vez? Então, a história do monstro deixa de ser um sinal de alerta e passa a ser
um...guia.
Desenhe um
novo mapa. Anote: "Aqui há monstros."
~ Jess Zimmerman, "Women and Other Monsters: Building a New
Mythology"
Saiba mais
na playlist Mulheres e outros monstros - https://www.youtube.com/watch?v=J1bBiD1QO-M&list=PLRrzcVW8BygGHG8IhnLzf4Zx2f5cYC602

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