quinta-feira, 23 de julho de 2026

Mulheres e outros monstros

 



"Todas as histórias sobre mulheres monstruosas — sobre criaturas excessivamente repulsivas, coléricas, ardilosas, ávidas ou inteligentes demais para o próprio bem — são histórias contadas por homens. As versões desses mitos, aquelas que nos são mais familiares, vêm de Ovídio, Homero, Hesíodo, Virgílio, Sófocles... Os monstros existem em oposição à normalidade: são exageradamente grandes ou pequenos, têm membros demais ou olhos de menos, são complexos ou rudimentares demais. A monstruosidade é relativa, nascida do abismo entre a expectativa e a realidade... Mas, se as expectativas são restritas demais, quase qualquer coisa pode se tornar monstruosa. Se só lhe é permitido ser minúscula, ter um porte médio parece algo grotesco. Se só lhe é permitido ser silenciosa, fazer barulho parece algo bizarro. Quanto mais você é limitada, mais fácil é desviar-se, e mais esse desvio passa a parecer algo excêntrico ou até perigoso.

Para as mulheres, os limites da aceitabilidade são rígidos e numerosos. Devemos ser sedutoras, porém puras; silenciosas, mas não distantes; frágeis, porém trabalhadoras; e sempre, sempre pequenas. Não podemos ser bem-sucedidas, ambiciosas, independentes ou egocêntricas demais — e, quando não conseguimos dar conta de todas essas restrições contraditórias, somos transformadas em figuras grotescas. Mulheres foram monstros, e monstros foram mulheres, ao longo de séculos de histórias, pois as histórias são uma maneira de codificar essas expectativas e transmiti-las adiante.

Construímos uma cultura sobre as costas dessas mulheres monstruosas, permitindo que elas sustentassem noções morais desgastadas sobre segurança, normalidade e decoro feminino. Mas as características que elas representam — aspiração, conhecimento, força, desejo — não são hediondas. Nas mãos dos homens, elas sempre foram heroicas. Os monstros dos mitos foram posicionados nessas fronteiras para nos manter do lado de fora; servem como advertências sobre o que acontece quando as mulheres aspiram a algo além do que nos é permitido... Mas, se ultrapassar os limites torna você monstruosa, isso significa que os monstros não estão mais confinados. O que acontece se atravessarmos os portões e descobrirmos que viver do outro lado — com todo o nosso 'excesso', sendo grandes, ousadas e complexas demais — significa viver plenamente pela primeira vez? Então, a história do monstro deixa de ser um sinal de alerta e passa a ser um...guia.

Desenhe um novo mapa. Anote: "Aqui há monstros."

~ Jess Zimmerman, "Women and Other Monsters: Building a New Mythology"
 Megan Wyreweden of The Creeping Moon, "Medusa"

Saiba mais na playlist Mulheres e outros monstros - https://www.youtube.com/watch?v=J1bBiD1QO-M&list=PLRrzcVW8BygGHG8IhnLzf4Zx2f5cYC602


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Mulheres e outros monstros

 



"Todas as histórias sobre mulheres monstruosas — sobre criaturas excessivamente repulsivas, coléricas, ardilosas, ávidas ou inteligentes demais para o próprio bem — são histórias contadas por homens. As versões desses mitos, aquelas que nos são mais familiares, vêm de Ovídio, Homero, Hesíodo, Virgílio, Sófocles... Os monstros existem em oposição à normalidade: são exageradamente grandes ou pequenos, têm membros demais ou olhos de menos, são complexos ou rudimentares demais. A monstruosidade é relativa, nascida do abismo entre a expectativa e a realidade... Mas, se as expectativas são restritas demais, quase qualquer coisa pode se tornar monstruosa. Se só lhe é permitido ser minúscula, ter um porte médio parece algo grotesco. Se só lhe é permitido ser silenciosa, fazer barulho parece algo bizarro. Quanto mais você é limitada, mais fácil é desviar-se, e mais esse desvio passa a parecer algo excêntrico ou até perigoso.

Para as mulheres, os limites da aceitabilidade são rígidos e numerosos. Devemos ser sedutoras, porém puras; silenciosas, mas não distantes; frágeis, porém trabalhadoras; e sempre, sempre pequenas. Não podemos ser bem-sucedidas, ambiciosas, independentes ou egocêntricas demais — e, quando não conseguimos dar conta de todas essas restrições contraditórias, somos transformadas em figuras grotescas. Mulheres foram monstros, e monstros foram mulheres, ao longo de séculos de histórias, pois as histórias são uma maneira de codificar essas expectativas e transmiti-las adiante.

Construímos uma cultura sobre as costas dessas mulheres monstruosas, permitindo que elas sustentassem noções morais desgastadas sobre segurança, normalidade e decoro feminino. Mas as características que elas representam — aspiração, conhecimento, força, desejo — não são hediondas. Nas mãos dos homens, elas sempre foram heroicas. Os monstros dos mitos foram posicionados nessas fronteiras para nos manter do lado de fora; servem como advertências sobre o que acontece quando as mulheres aspiram a algo além do que nos é permitido... Mas, se ultrapassar os limites torna você monstruosa, isso significa que os monstros não estão mais confinados. O que acontece se atravessarmos os portões e descobrirmos que viver do outro lado — com todo o nosso 'excesso', sendo grandes, ousadas e complexas demais — significa viver plenamente pela primeira vez? Então, a história do monstro deixa de ser um sinal de alerta e passa a ser um...guia.

Desenhe um novo mapa. Anote: "Aqui há monstros."

~ Jess Zimmerman, "Women and Other Monsters: Building a New Mythology"
 Megan Wyreweden of The Creeping Moon, "Medusa"

Saiba mais na playlist Mulheres e outros monstros - https://www.youtube.com/watch?v=J1bBiD1QO-M&list=PLRrzcVW8BygGHG8IhnLzf4Zx2f5cYC602