A conversão da
chaturanga hindu ao xatrandj árabe-islâmico, e posteriormente ao xadrez europeu
cristão, foi um processo de mudanças que refletia as sociedades onde o jogo de
estratégia era jogado, e isso se mostrou principalmente no câmbio simbólico das
peças de uma civilização para a outra.
Trazido pelos
muçulmanos à Espanha moura por volta do século VIII, as centúrias seguintes
viram a peça do vizir, principal figura das cortes islâmicas após o sultão,
califa, emir ou xá, ser substituído pela versátil rainha, que emulava o papel
estratégico das monarcas na Europa cristã medieval, à la Eleonor da Aquitânia.
O elefante, animal afro-asiático que a imensa maioria dos europeus medievais
sequer sabiam do que se tratava, foi substituído pelo poderoso e mais familiar
bispo, muito mais condizente com um continente fortemente católico onde a
Igreja era fundamental na política, emulando figuras como o Papa Inocêncio III.
E quanto à
biga, herança clássica do exército indiano preservada no xadrez trazido pelos
muçulmanos, foi substituída por um símbolo militar mais europeu, a torre, como
as dos muitos castelos que coroavam aquelas terras distantes da Índia, onde o
xadrez havia passado por mais uma conversão religiosa e cultural. Porém, a
expressão pérsico-arábica que define o jogo, šāh mata, ou ‘’o xá (rei) morreu’’,
continuou, como xeque mate.

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